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sábado, 27 de agosto de 2016

Haroldo de Campos, "Brancura"


a gata chamada
tamborim (tam-

bi)
olhos amareloesverdeados
cara chim
gosta de telhados livres
e do calor do colo
com miados de cortesia
mandarim
nos cumprimenta toda manhã
solicitando modestíssima
que a recebamos
no interior azulejado
da cozinha
na primeira noite de cio
miou por um gato galante
e com seu galã cinzamalhado
enluarou o telhado
branquíssima de paixão

terça-feira, 6 de abril de 2010

Haroldo de Campos, "Horácio Contra Horácio"

ergui mais do que o bronze ou que a pirâmide
ao tempo resistente um monumento
mas gloria-se em vão quem sobre o tempo
elusivo pensou cantar vitória:
não só a estátua de metal corrói-se
também a letra os versos a memória
— quem nunca soube os cantos dos hititas
ou dos etruscos devassou o arcano?
o tempo não se move ou se comove
ao sabor dos humanos vanilóquios —
rosas e vinho — vamos! — celebremos
o instante           a ruína           a desmemória

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Haroldo de Campos
























"Ex/plicação"

não há um
sentido único
num
poema

quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim
en-
tão só fica o
ex
do ponto de
partida

beco

(tente outra
vez)

sem saída