quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Eucanaã Ferraz, "Da vista e do visto"


Mais uma vez é maio; não o levaste contigo;
horas se escrevem hoje com o lápis de sempre,
ultramar e um tanto adolescente; não o levaste,
maio, mês do meu aniversário, quando a melancolia
é menos nítida que a linha dos morros e dos edifícios;

vento sol amendoeiras, é como te digo, não levaste
maio e mesmo os meus olhos estão aqui, comigo, algo,
porém, sei que se foi contigo; que coisa era, não sei,
e, ainda que pequena, faz falta, era minha; coincidência
ou não, procuro e não encontro a minha antiga alegria.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Augusto dos Anjos, "Poema negro"


                                                                      A Santos Neto

Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, à meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte — esta carnívora assanhada —
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
— Faminta e atra mulher que, a 1 de janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino. . .
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajos pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, como a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilínio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam.
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre.
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte,
Recomeça o barulho das matracas.

A desagregação da minha idéia
Aumenta. Como as chagas da morféia
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-se os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos,
Desperto. É tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme.
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala,
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração, como um cristal, se quebre
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa,
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Aníbal Teófilo, "A cegonha"


Em solitária, plácida cegonha,
Imersa num cismar ignoto e vago,
Num fim de ocaso, à beira azul de um lago,
Sem tristeza, quem há que os olhos ponha?

Vendo-a, Senhora, vossa mente sonha
Talvez, que o conde de um palácio mago,
Loura fada perversa, em tredo afago,
Mudou nessa pernalta erma e tristonha.

Mas eu, que em prol da Luz, do pétreo, denso
Véu do Ser ou Não Ser, tento a escalada
Qual morosa, tenaz, paciente lesma,

Ao vê-la assim mirar-se na água, penso
Ver a Dúvida Humana debruçada
Sobre a angústia infinita de si mesma.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Augusto dos Anjos, "Vencedor"


Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pôde domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Konstantinos Kaváfis, "O sol da tarde"


Este quarto, como o conheço bem!
Agora se alugam não só este mas também o vizinho
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de corretores, de comerciantes, de Sociedades.

Ah este quarto, como me é familiar.

Perto da porta, aqui, estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
perto, a estante com dois vasos amarelos.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
N centro, a mesa onde ele escrevia;
e as três grandes cadeiras de palha.
Ao lado da janela estava o leito
onde nos amamos tantas vezes.

Devem estar ainda em algum lugar as pobres coisas.

Ao lado da janela estava o leito;
o sol da tarde chegava-lhe até a metade.

...Uma tarde, às quatro horas, tinhamo-nos separado
por uma semana apenas ... Ai de mim,
aquela semana tornou-se eterna.

Tradução de Ísis Borges da Fonseca.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Carlos Drummond de Andrade, "Para Cinquentões"


Carnaval, carne dada aos vermes
(diz a falsa etimologia)
como pode o cronista inerme
cronicar em plena folia?

Como esquivar-se a teu império
que é serrano em Vila ou Mangueira,
se em mim ri aquilo que é sério
e séria, mesmo, é a brincadeira?

Carnaval, já não sou tão moço
para emilinguir-me no frevo
e sair de guizo ao pescoço
(riso, quatripétalo frevo).

Também inda não sou tão velho
que não ouça o ronco na cuíca.
E da razão o bom conselho
(má rima) não me mortifica.

Entre duas águas, meu caro,
meio-lá-maio-cá me sinto
como um animal semi-raro
divagando no labirinto.

Carnaval, magia do samba!
Fígado, fiscal do consumo…
Para dançar na corda bamba
tanto faz, serpentina, o rumo.

Não fugirei para a montanha
nem pescarei na Marambaia,
pois ante confusão tamanha,
quedemos (Posto 6) na praia,

perto-longe da farra, ouvindo
e vendo, imaginando, enquanto
um carnaval muito mais lindo
dentro de nós eleva seu canto;

carnaval de delícias longas
e cabriolas arlequinais,
feito de caras songamongas
se esbaldando no nunca-mais;

carnaval antigo e futuro
baile de outro Municipal
ou Praça 11 acesa no escuro
da saudade do carnaval.

E é o melhor de tudo, afinal.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Paulo Henriques Britto, "Envoi"


O tempo, que a tudo distorce,
às vezes alisa, conserta,
e a golpes cegos acerta:

em seu tosco código Morse
de instantes sem rumo e roteiro
então dá forma a algo de inteiro.

Não um verso, que em folha esquiva
a gente retoca e remenda
até ser coisa que se entenda,

mas algo que na carne viva
se esboça, se traça, se inscreve
bem mais a fundo, ainda que breve -

pois todo poema é murmúrio
frente ao amor e sua fúria.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

4 Sonetos de Fernando Pessoa.


I

Ao pé de mim os mortos esquecidos
Volveram todos. Eu em sonhos os vi.
Se os amei, como foi que os esqueci?
Se os esqueci, como foram queridos?

Rápida vida, como os fizeste idos!
Com que fria memória os lembro aqui!
Já desleixo chorar o que perdi,
Lembro-os longe da sombra dos sentidos.

Quando os perdi, pensei: Cada momento
Me lembrará sua presença morta,
Eterna em meu constante pensamento.

Mas lentamente a vida fecha a porta.
Fechada toda, o olhar ‘stá desatento.
Para longe de Deus quem me transporta?


II

Quantos nos deram seu fiel amor
A quem não damos uma fiel memória!
Amaram-nos. Parecem uma história.
O invisível já não tem calor.

De vez em quando lembram, e uma dor
Esforça-se por não ser transitória.
Mas vem uma conversa, e foi-se a glória
De sentir ter quebrado este torpor.

Deus vos faça ou inscientes ou piedosos,
Ó mortos que julgamos que lembramos
E que entre nossas distracções e gozos

Inconscientemente abandonamos.
Mas foi sobre vós que os rumorosos
Ciprestes, deslembrados, derramamos.


III

Múrmura voz das árvores mexidas
Por um nocturno, vago, leve vento,
Casa-te com meu triste sentimento
Que paira sobre as campas esquecidas!

De quantas almas, no silêncio idas,
Não há neste momento um pensamento!
Que Deus as guarde do conhecimento
De como estão longínquas e perdidas!

Ah, quão inteiramente eram mortais!
Não fazem falta à vida leve e forte.
Sem eles, os que amavam são iguais.

Quem vai tem em quem fica a pior sorte.
Nós é que aos mortos enterramos mais!
E em nosso coração que vive a Morte!


IV

Emerjo, vago, dum dormir profundo
E, mal desperto para a alma e o dia,
Um sonho de conversa me inebria
Com um amigo, ..........

Acordo mais... É um morto que confundo
Com quem inda ontem, que é há um dia, eu via.
Hoje que longe até da fantasia!
Que mundo é este, que é o mesmo mundo?

Que porta se fechou num só momento
E entre a realidade e o pensamento
Pôs um abismo-ausência que me assombra?

O que é que falta ao que conheço e faço?
Em que sombras me envolvo e entrelaço?
E eu mesmo, eu mesmo, quanto sou de sombra?

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

José Régio














"Lúcifer"

Torcendo as mãos, pensei: «Que esses amigos
«A quem o ritmo que lhes canto apraz
«Não sonhem nunca as podridões e os perigos
«Que a melodia vã tem por detrás...

«Herdei de avós leprosos e mendigos
«Uma chaga incurável e minaz*.
«Versos que eu faça..., é ela quem nos faz,
«Meus versos são venenos e castigos.

«Mas, para que ninguém saiba o que sei,
«Mentirei!, fingirei!, renunciarei!,
«Serei sozinho entre os meus quatro muros."

Nisto..., a parede abriu-se e o Anjo entrava.
E à monstruosa chaga que purgava
Se vieram colar seus lábios puros!

Minaz - Ameaçadora.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Almeida Garrett, "Seus olhos"


Seus olhos - se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou -
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder;
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Ruy Espinheira Filho, "Blind Borges"


                                La vasta y vaga y necesaria muerte. 
                                     Jorge Luis Borges: Blind Pew


A vasta e vaga morte, esse outro sonho,
não é só outro sonho: é a mais remota
ilha de ouro a que a nossa derrota
nos leva, inexorável, sonho a sonho.

Latidos pelos cães, sonho após sonho,
sonhamos. Esta é a vida, a vela, a rota
do homem: sonhar. E em áurea praia ignota
sonha o que sonha o sonhador, que é sonho.

Isto é o que pulsa em nós: o ansiado ouro
- distante e aqui, no coração -, tesouro
cuja procura tece a nossa sorte;

rumo que a alma singra e sagra em ouro
até chegar enfim a esse tesouro
incorruptível que nos sonha a morte.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Florbela Espanca, "Perdi meus fantásticos castelos..."


Perdi meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los:
Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? –
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre o meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Camilo Pessanha, "Esbelta surge! Vem das águas, nua..."


Esbelta surge! Vem das águas, nua,
Timonando uma concha alvinitente*!
Os rins flexíveis e o seio fremente...
Morre-me a boca por beijar a tua.

Sem vil pudor! Do que há que ter vergonha?
Eis-me formoso, moço e casto, forte.
Tão branco o peito! - para o expor à Morte...
Mas que ora - a infame! - não se te anteponha.

A hidra** torpe!... Que a estrangulo! Esmago-a
De encontro à rocha onde a cabeça te há-de,
Com os cabelos escorrendo água,

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade
E o meu pulso de jovem gladiador.

* alvinitente:  Branco brilhante; branco imaculado.

**Hidra: Nome dado outrora às serpentes de água doce.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Cecília Meireles, "Fadiga"


Estou cansada, tão cansada,
estou tão cansada! Que fiz eu?
Estive embalando, noite e dia,
um coração que não dormia
desde que seu amor morreu.

Eu lhe dizia: "Deixa a morte
levar teu amor! Não faz mal,
É mais belo esse heroísmo triste
de amar uma coisa que existe
só para morrer, afinal!"

"Deixa a morte...não chores...dorme!"
Noite e dia eu cantava assim.
Mas o coração não falava;
chorava baixinho, chorava,
mesmo como dentro de mim.

Era um coração de incertezas,
feito para não ser feliz;
querendo sempre mais que a vida -
sem termo, limite, medida,
como poucas vezes se quis.

O tempo era ríspido e amargo.
Vinha um negro vento do mar.
Tudo gritava, noite e dia,
e nunca ninguém ouviria
aquele coração chorar.

Uma noite, dentro da sombra,
dentro do choro, a sua voz
disse uma coisa inesperada,
que logo correu, derramada
num silêncio fino e veloz.

"Meu amor não morreu: perdeu-se.
Ele existe. Eu não o quero mais".
O choro foi levando o resto
Eu nem pude fazer um gesto,
e achei as horas desiguais.

E achei que o vento era mais forte,
que o frio causava aflição;
quis cantar, mas não foi preciso.
E o ar estava muito indeciso
para dar a vida a uma canção.

A sorte virara no tempo
como um navio sobre o mar.
O choro parou pela treva.
E agora não sei quem me leva
daqui para qualquer lugar,

onde eu não escute mais nada,
onde eu não saiba de niguém,
onde deite minha fadiga
e onde murmure uma cantiga
para ver se durmo também.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Donizete Galvão, "Travo"


                                                   Para Ronald Polito

O sol bate nas encostas
e expõe o prata das pedras.
O gavião dá seu grito de triunfo
no último voo em direção à mata.
A flor de cacto abre suas pétalas.
Exala um odor de carniça
que embriaga as moscas
e as atrai para suas tramas de morte.
Os amantes debruçam-se
sobre o muro da varanda
e choram pelo frescor da pele
que lhes foi arrebatado.
No consolo do beijo,
o tempo pôs seu tanino.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

António Nobre, "Vaidade, meu amor, tudo vaidade! "


Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
Ouve: quando eu, um dia, for alguém,
Tuas amigas ter-te-ão amizade,
(Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
Tudo vaidade! E, se pensares bem,
Verás, perdoa-me esta crueldade,
Que é uma vaidade o amor de tua mãe...

Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
E eu vi-me só no mar com minha escuna,
E ninguem me valeu na tempestade!

Hoje, já voltam com seu ar composto,
Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto...
E isto em mim não será uma vaidade?

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Modesto Brocos
























Este quadro é considerado por muitos uma representação do suposto "branqueamento" da população brasileira (tese defendida no início do século XX).
Nele, a senhora negra de pé seria a avó, e a moça mulata sentada seria sua filha que, casada com um marido branco (ao seu lado), geraria uma criança branca.