quarta-feira, 29 de março de 2017

Greta Benitez














"Bordado"

Hoje estou fácil para você.
na vitrine, de graça (quase).
Cantando na praça
Bordando uma frase
Tricotando passos à sua procura pelas ruas
Hoje, mas só por hoje,
                  Minhas tatuagens são suas.

terça-feira, 28 de março de 2017

Paulo Henriques Britto











"Balancete"

Antes quis ser normal.
Como todo mundo, quis ser todo mundo.
Até a estupidez alheia me era santa,
por ser raiz dessa felicidade besta
de quem só sabe ser feliz.

Nisso fracassei, como tantos outros.
Fabriquei outros projetos, bebi de um trago só
o esterco do ridículo, e constatei
que o gosto era de mel.

O mel enjoa. Hoje sou quase puro,
quase honesto, competente, estúpido
como toda a gente, o espelho exato
do que não quis, ou pude, ou soube ser.
Falhei até no fracasso. Agora o jeito
é me encarar de frente
e me reconhecer.

domingo, 26 de março de 2017

Lúcio Cardoso, "Sonho angustiado de libertação"


Quando a calma
dos que nada pedem
habitar em minha alma
escura e silenciosa;

Quando o sonho e a esperança
tiverem voado da terra
há muito desprovida de árvores;
Na hora em que o desespero

e a verdade, não mais
possuírem com carícias fogosas
meu espírito vazio
de gaivotas;

Quando a terra fria me abraçar
e eu tiver como única companheira
a morte,

eu terei a imagem
tão presente nos olhos
ansiosos.

sábado, 25 de março de 2017

Augusto de Campos










"Soneterapia 2"

tamarindo da minha desventura
não me escutes nostálgico a cantar
me vi perdido numa selva escura
que o vento vai levando pelo ar

se tudo o mais renova isto é sem cura
não me é dado beijando te acordar
és a um tempo esplendor e sepultura
porque nenhuma delas sabe amar

somente o amor e em sua ausência o amor
guiado por um cego e uma criança
deixa cantar de novo o trovador

pois bem chegou minha hora de vingança
vem vem vem vem vem sentir o calor
que a brisa do brasil beija e balança

quinta-feira, 23 de março de 2017

Marly de Oliveira, "1º poema da série 'Suave Pantera'"


Como qualquer animal,
olha as grades flutuantes.
Eis que as grades são fixas:
Ela, sim, é andante.
Sob a pele, contida
— em silêncio e lisura —
a força do seu mal,
e a doçura, a doçura,
que escorre pelas pernas
e as pernas habitua
a esse modo de andar,
de ser sua, ser sua,
no perfeito equilíbrio
de sua vida aberta:
una e atenta a si mesma,
suavíssima pantera.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Miguel Torga
















"Rogo"

Não, não rezes por mim.
Nenhum deus me perdoa a humanidade
Vim sem vontade
E vou desesperado
Mas assinei a vida que vivi
Doeu-me o que sofri
Fui sempre o senhorio do meu fado.

Por isso, quero a morte que mereço.
A morte natural,
Solitária e maldita
De quem não acredita
Em nenhuma oração
De salvação
De quem sabe que nunca ressuscita.

terça-feira, 21 de março de 2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

Reinaldo Ferreira, "Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia..."


Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.

domingo, 19 de março de 2017

Teixeira de Pascoaes, "De noite"


Quando me deito ao pé da minha dor,
Minha Noiva-fantasma; e em derredor
Do meu leito, a penumbra se condensa,
E já não vejo mais que a noite imensa,
Ante os meus olhos íntimos, acesos,
Extáticos, surpresos,
Aparece-me o Reino Espiritual...
E ali, despido o habito carnal,
Tu brincas e passeias; não comigo,
Mas com a minha dor... o amor antigo.

A minha dor está contigo ali,
Como, outrora, eu estava ao pé de ti...
Se fosse a minha dor, com que alegria,
De novo, a tua face beijaria!

Mas eu não sou a dor, a dor etérea...
Sou a Carne que sofre; esta miséria
Que no silencio clama!

A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama...

sexta-feira, 17 de março de 2017

Leis estranhas em Massachusetts (EUA)


Massachusetts

-- É ilegal ir para a cama sem tomar um banho completo.
-- Em atividades sexuais, a mulher não pode ficar por cima.
-- Servir cerveja a pacientes de hospital é ilegal.
-- Doces não podem conter mais de 1% de álcool.
-- No treinamento de tiro, é proibido usar alvos que se assemelham a seres humanos.
-- Crianças não são proibidas de fumar, mas são proibidas de comprar cigarro.
-- Em velórios, os enlutados não podem comer mais que três sanduíches.
-- Quacres e bruxas são proibidos.
-- Balas (de armas) não podem ser usadas como moeda.
-- Motoristas de táxi não podem fazer sexo no banco dianteiro durante o turno de trabalho.
-- Todos os homens devem levar um rifle à igreja, no domingo.
-- É proibido transportar gorilas no banco traseiro do carro.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Paulo Henriques Britto, "Espiral"


A noite é um morcego manso
sobrevoando uma cidade quase adormecida,
tomando cada rua, cada casa,

como um cheiro adocicado de fruta
quase apodrecida que penetrasse uma casa,
ganhasse cada quarto, cada sala,

como cheiro morno de coisa morta
ainda há pouco se espalhando
por uma cidade quase entorpecida,

como uma noite que descesse sobre casas
mortas, como uma peste,
como se nunca houvesse havido dia.

A noite é um morcego morto.


quarta-feira, 15 de março de 2017

terça-feira, 14 de março de 2017

Abgar Renault, "Palavras para adormecer"


Dorme, que é tarde já na tua vida
e no teu coração, e o tempo não espera.
Dorme antes que se vá tua alma desvalida
e o teu corpo se empedre e se recubra de hera.

Por que velar de preces tua insônia estéril?
Um vento mau arrasta o som da tua voz
e arrasta o único círio a arder na noite a sós.
Dorme e adormece em ti a tua vida estéril.

Ainda estás vivo, mas teu coração parou.
Como diminuiu o tempo, que era enorme,
e que escuras estão tuas estrelas! Dorme.
O teu destino está cansado e o fim já se acabou.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Cecília Meireles














"Segundo motivo da rosa"

Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas…
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas…

sábado, 11 de março de 2017

Waly Salomão, "Câmara de ecos"


Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Abgar Renault, "Recanto de letras"


Leio-me, e não me encontro em verbo escrito.
Minhas palavras não escrevem ou
esqueceram meus ecos o meu grito,
ou meus olhos não leem mais quem sou.

O que em papel meu rastro deixa dito
é folha de hora que de mim voou,
foi lugar no meu súplice infinito;
nele vivo, talvez, mas não estou.

(As palavras são rostos de um momento,
e contam frágeis fábulas de vento
em bocas que falaram nossa voz.)

Mal releio na sombra do retrato
de letras que escrevi no ontem abstrato
minha face de vida e prévio após.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Nicolas Behr, "Receita"


Ingredientes:

2 conflitos de gerações
4 esperanças perdidas
3 litros de sangue fervido
5 sonhos eróticos
2 canções dos beatles

Modo de preparar

dissolva os sonhos eróticos
nos dois litros de sangue fervido
e deixe gelar seu coração

leve a mistura ao fogo
adicionando dois conflitos de gerações
às esperanças perdidas

corte tudo em pedacinhos
e repita com as canções dos beatles
o mesmo processo usado com os sonhos
eróticos mas desta vez deixe ferver um
pouco mais e mexa até dissolver

parte do sangue pode ser substituído
por suco de groselha
mas os resultados não serão os mesmos
sirva o poema simples ou com ilusões

terça-feira, 7 de março de 2017

Paulo Henriques Britto, "Geração Paissandu"


Vim, como todo mundo,
do quarto escuro da infância,
mundo de coisas e ânsias indecifráveis,
de só desejo e repulsa.
Cresci com a pressa de sempre.

Fui jovem, com a sede de todos,
em tempo de seco fascismo.
Por isso não tive pátria, só discos.
Amei, como todos pensam.
Troquei carícias cegas nos cinemas,
li todos os livros, acreditei
em quase tudo por ao menos um minuto,
provei do que pintou, adolesci.

Vi tudo que vi, entendi como pude.
Depois, como de direito,
endureci. Agora a minha boca
não arde tanto de sede.
As minhas mãos é que coçam -
vontade de destilar
depressa, antes que esfrie,
esse caldo morno da vida.

segunda-feira, 6 de março de 2017