quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Augusto dos Anjos, "Saudade"


Hoje que a mágoa me apunhala o seio,
E o coração me rasga atroz, imensa,
Eu a bendigo da descrença, em meio,
Porque eu hoje só vivo da descrença.

À noute quando em funda soledade
Minh'alma se recolhe tristemente,
P'ra iluminar-me a alma descontente,
Se acende o círio triste da Saudade.

E assim afeito às mágoas e ao tormento,
E à dor e ao sofrimento eterno afeito,
Para dar vida à dor e ao sofrimento,

Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito,
Mas que no entanto me alimenta a vida.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar

Republico um poema do poeta Ferreira Gullar, morto ontem, às 10 horas da manhã.










"Despedida"

Eu deixarei o mundo com fúria.
Não importa o que aparentemente aconteça,
se docemente me retiro.

De fato
nesse momento
estarão de mim se arrebentando
raízes tão profundas
quanto estes céus brasileiros.
Num alarido de gente e ventania
olhos que amei
rostos amigos tardes e verões vividos
estarão gritando a meus ouvidos
para que eu fique
para que eu fique.

Não chorarei.
Não há soluço maior que despedir-se da vida.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Alejandra Pizarnik, " A carência"


Eu não sei de pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.

Tradução amadora minha


"La carencia"

Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad deberia tener alas.


sábado, 3 de dezembro de 2016

Índia amamentando filhote de porco do mato
























Quando os índios matam uma fêmea com cria, cuidam dos filhotes até que eles cresçam. 
Só então o devolvem à mata.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Lúcio Cardoso, "O passeante"


Senhor, eu sondo em vão o que é a minha loucura,
esse mundo subscrevo onde só a noite reina
e é inutilmente que lanço a minha sonda.
mares onde jamais a aurora brilha,
fragmentos de sonhos, pressentimentos, visões
de uma infância que a vida não matou...

Será isto apenas, este tumulto, este desejo
de tantas coisas impossíveis, esta ânsia
ante prazeres que odeio? Ó mistério,
ó intangível mistério desta alma enorme,
aberta à natureza como um abismo!

Quem sou eu, que memória é esta,
que fulgor é este que me segue,
rubra ameaça de um inferno que me chama?
Ó astros impossíveis, ó chama eterna,
que amor aplacará esta loucura,
este riso que os homens não escutam,
esta cega volúpia que é o frêmito
da morte?

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

António Barbosa Bacelar, "Falando com o Tejo"


Águas do Tejo, que tão mansamente
Entre estas praias discorreis cansadas,
Depois de ter vencidas e rasgadas
As altas serras tão soberbamente.

Aqui correis por modo diferente,
Depois de estar já brandas e domadas,
Que as coisas soberbas começadas
Assim vem a acabar humildemente.

E por cair também neste pecado,
Vos acrescento, e vejo num momento
Castigadas a vós, e eu castigado:

Mas, ai, porque é maior meu sentimento,
Porque vós lá no mar mudais de estado,
E eu na terra não mudo de tormento.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Alexei Bueno, "Abatedouro de cavalos"


E-los, servos do Sol e dos heróis,
Pendurados do teto entre os patifes
Balançam - como peixes dos anzóis -
De ganchos, onde aguardam virar bifes.

Das crinas, já ondeadas pelo vento,
Pinga sangue, e da língua. Sobre os joelhos
Decepam-lhe as patas. Grosso e lento,
O pelo se incha de borrões vermelhos.

Os épicos, os régios, os hieráticos
Animais, degolados, logo em latas
caberão. Sós, num canto, alvos estáticos,
Seus olhos fixam campos e cascatas.

Ser]ap patês, almôndegas, conservas...
Seus fantasmas, que os médiuns não conhecem,
Relincharão furiosos sobre as ervas,
Junto a sombras que os sonhos nunca esquecem.


terça-feira, 29 de novembro de 2016

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Miguel Torga, "Ditirambo"


É o amor que me inspira.
Amo a vida, esta bela prostituta.
Esta mulher tão pura e dissoluta
No mesmo instante,
Que não dá tréguas a nenhum amante.

Amo-a, e canto este gosto renovado
De uma grande paixão sobressaltada.
Dum leito de soluços e suspiros
Misturados,
Ergo a voz e celebro
Os deuses sublimados
Que, divinos, me deram
O bem humano que nunca tiveram.

domingo, 27 de novembro de 2016

Leis estranhas no Kentucky (EUA)


-- É proibido pintar a grama de vermelho.
-- Carregar casquinha de sorvete no bolso é ilegal.
-- É proibido carregar uma arma com mais de 1,8 m escondida.
-- Todo cidadão é requerido a tomar um banho uma vez por ano.
-- É proibido pescar com arco e flecha.
-- Em Fort Thomas: Cachorros não podem molestar carros.
-- Em Owensboro: Ninguém pode receber sexo anal. Também: A mulher não pode comprar um chapéu sem a permissão do marido.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Alejandra Pizarnik















"Mendiga voz"

E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta,
a cor do tempo num muro abandonado.

Num olhar meu tudo perdi.
É tão distante pedir. Tão perto saber que não há.


Tradução amadora minha


Mendiga voz

Y aún me atrevo a amar
el sonido de la luz en una hora muerta,
el color del tiempo en un muro abandonado.

En mi mirada lo he perdido todo.
Es tan lejos pedir. Tam cerca saber que no hay.


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Adriano Espínola, "Chove"


Chove. As mesmas chuvas
do instante caem adiante
aos pés de outras uvas.
O agora chega molhado.
As passas vêm do passado.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Eugénio de Andrade, " Aproxima-te..."


Aproxima-te, põe o ouvido na minha boca,
vou dizer-te um segredo,
está um homem com a noite deitado
nas areias, separado doutro homem

por um grito, ninguém o ouve,
o sol há tanto tempo apodrecido.
Não sei se espera a manhã
para partir ou vai ficar

com os cardos nas dunas, os olhos cheios
de ignorância e de bondade,
exposto
assim à calúnia, à ventania.

Como se fora um cão, menos ainda.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Lúcio Cardoso, "O navio"


Trago em mim, nestas águas em febre,
sob um destino rijo ou amargo porto.
Só a vela arfa, cantiga estranha,
acompanhando a voz plena de sono.
Jamais transmite o espelho sem constância
o espaço branco por voar -
aí, o navio existe.
Trago-o nos olhos, já sem lágrimas,
feito de cansaço e de derrota.
Se já não grita e nem soçobra,
lamenta apenas, que o tempo é breve.
Tudo consome a maquinaria vil,
roda, corrente, entranhas de metal.
Gasta, inútil a fosforescência,
emblema e estandarte, se o navio
já não diz asilo de guerreiro.
Gasta o vidro, o leque, o riso,
todo o material que o sonho vela.
O navio existe. Não adianta
a massa torturada dos jardins,
águas da cascata, matas acordadas -
de ferro a sinfonia existe. Ei-lo,
fantasma de mares primitivos,
guiando a escravidão, ai de mim,
entre pântanos de sombra
e luas mortas.

domingo, 20 de novembro de 2016

sábado, 19 de novembro de 2016

Luís Antonio Cajazeira Ramos, "Esconde-esconde"


Sob a sombra dos pais e das casas,
descobriam, com pernas trementes,
como as curvas do corpo eram quentes
e a inocência da vida era ousada.

Bolinavam seus próprios brinquedos,
mutuamente esfregavam seus dons,
todos juntos no jogo, ou só dois:
mais desejo, mais perto, mais beijos.

O segredo dos cúmplices nus
desafiava padrões e tabus
de seus pais, que esqueceram de tudo:

já não sabem brincar de casinha;
não notaram na vida a poesia
e pecaram por serem adultos.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Alexei Bueno, "Bagatelas"


Homem que mija no uro.
Inútil visão gravada
Na mente, com que futuro?

Vidraça a pedras quebrada.
Que fazer com tudo isto?
Pombo morto na calçada.

Por que guardo, por que insisto?
Estranha cauda, a memória,
Varrendo o piso imprevisto.

Basta, basta. A insossa história
Não subirá a alta escada.
Nudez, serás minha glória

No átrio apinhado do nada.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Cláudio Manuel da Costa, "Onde estou?"


Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era:
Mas que venho a estranhar, se estão presentes
Meus males, com que tudo degenera!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Alexei Bueno,













"Na porta do colégio"

Semipúberes meninas,
Como os meus olhos maduros
Fervem de sonhos obscuros
Convosco em minhas retinas.

Voltasses hoje aos quinze anos,
meu corpo, ambicioso fausto,
Sorvendo a vida num hausto
Mas sábio em quaisquer arcanos...

Ora a fugir disso tudo,
Ora a tudo isso agarrar-se
Que é, alma, face ou disfarce?
Metrônomo em piano mudo?

Não sabes. mas com que enleios
Fitas os lábios, as coxas,
precoces olheiras roxas,
Curvas gritantes dos seios.

E duro afastar-te, vida,
A que tal nome merece,
Rubor de um sol quando desce
Mas sem manhã prometida.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

Conto de Graciliano Ramos, "Um cinturão"


As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.

Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer. Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causado menor estrago. E estaria esquecida. A história do cinturão, que veio pouco depois, avivou-a.

Meu pai dormia na rede, armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada. Naturalmente não me lembro da ferrugem, das rugas, da voz áspera, do tempo que ele consumiu rosnando uma exigência. Sei que estava bastante zangado, e isto me trouxe a covardia habitual. Desejei vê-lo dirigir-se a minha mãe e a José Baía, pessoas grandes, que não levavam pancada. Tentei ansiosamente fixar-me nessa esperança frágil. A força de meu pai encontraria resistência e gastar-se-ia em palavras.

Débil e ignorante, incapaz de conversa ou defesa, fui encolher-me num canto, para lá dos caixões verdes. Se o pavor não me segurasse, tentaria escapulir-me: pela porta da frente chegaria ao açude, pela do corredor acharia o pé do turco. Devo ter pensado nisso, imóvel, atrás dos caixões. Só queria que minha mãe, sinhá Leopoldina, Amaro e José Baía surgissem de repente, me livrassem daquele perigo.

Ninguém veio, meu pai me descobriu acocorado e sem fôlego, colado ao muro, e arrancou-me dali violentamente, reclamando um cinturão. Onde estava o cinturão? Eu não sabia, mas era difícil explicar-me: atrapalhava-me, gaguejava, embrutecido, sem atinar com o motivo da raiva. Os modos brutais, coléricos, atavam-me; os sons duros morriam, desprovidos de significação.

Não consigo reproduzir toda a cena. Juntando vagas lembranças dela a fatos que se deram depois, imagino os berros de meu pai, a zanga terrível, a minha tremura infeliz. Provavelmente fui sacudido. O assombro gelava-me o sangue, escancarava-me os olhos.

Onde estava o cinturão? Impossível responder. Ainda que tivesse escondido o infame objeto, emudeceria, tão apavorado me achava. Situações deste gênero constituíram as maiores torturas da minha infância, e as conseqüências delas me acompanharam.

O homem não me perguntava se eu tinha guardado a miserável correia: ordenava que a entregasse imediatamente. Os seus gritos me entravam na cabeça, nunca ninguém se esgoelou de semelhante maneira.

Onde estava o cinturão? Hoje não posso ouvir uma pessoa falar alto. O coração bate-me forte, desanima, como se fosse parar, a voz emperra, a vista escurece, uma cólera doida agita coisas adormecidas cá dentro. A horrível sensação de que me furam os tímpanos com pontas de ferro.

Onde estava o cinturão? A pergunta repisada ficou-me na lembrança: parece que foi pregada a martelo.

A fúria louca ia aumentar, causar-me sério desgosto. Conservar-me-ia ali desmaiado, encolhido, movendo os dedos frios, os beiços trêmulos e silenciosos. Se o moleque José ou um cachorro entrasse na sala, talvez as pancadas se transferissem. O moleque e os cachorros eram inocentes, mas não se tratava disto. Responsabilizando qualquer deles, meu pai me esqueceria, deixar-me-ia fugir, esconder-me na beira do açude ou no quintal. Minha mãe, José Baía, Amaro, sinhá Leopoldina, o moleque e os cachorros da fazenda abandonaram-me. Aperto na garganta, a casa a girar, o meu corpo a cair lento, voando, abelhas de todos os cortiços enchendo-me os ouvidos – e, nesse zunzum, a pergunta medonha. Náusea, sono. Onde estava o cinturão? Dormir muito, atrás de caixões, livre do martírio.

Havia uma neblina, e não percebi direito os movimentos de meu pai. Não o vi aproximar-se do torno e pegar o chicote. A mão cabeluda prendeu-me, arrastou-me para o meio da sala, a folha de couro fustigou-me as costas. Uivos, alarido inútil, estertor. Já então eu devia saber que gogos e adulações exasperavam o algoz. Nenhum socorro. José Baía, meu amigo, era um pobre-diabo.

Achava-me num deserto. A casa escura, triste; as pessoas tristes. Penso com horror nesse ermo, recordo-me de cemitérios e de ruínas mal-assombradas. Cerravam-se as portas e as janelas, do teto negro pendiam teias de aranha. Nos quartos lúgubres minha irmãzinha engatinhava, começava a aprendizagem dolorosa.

Junto de mim, um homem furioso, segurando-me um braço, açoitando-me. Talvez as vergastadas não fossem muito fortes: comparadas ao que senti depois, quando me ensinaram a carta de A B C, valiam pouco. Certamente o meu choro, os saltos, as tentativas para rodopiar na sala como carrapeta eram menos um sinal de dor que a explosão do medo reprimido. Estivera sem bulir, quase sem respirar. Agora esvaziava os pulmões, movia-me num desespero.

O suplício durou bastante, mas, por muito prolongado que tenha sido, não igualava a mortificação da fase preparatória: o olho duro a magnetizar-me, os gestos ameaçadores, a voz rouca a mastigar uma interrogação incompreensível.

Solto, fui enroscar-me perto dos caixões, coçar as pisaduras, engolir soluços, gemer baixinho e embalar-me com os gemidos. Antes de adormecer, cansado, vi meu pai dirigir-se à rede, afastar as varandas, sentar-se e logo se levantar, agarrando uma tira de sola, o maldito cinturão, a que desprendera a fivela quando se deitara. Resmungou e entrou a passear agitado. Tive a impressão de que ia falar-me: baixou a cabeça, a cara enrugada serenou, os olhos esmoreceram, procuraram o refúgio onde me abatia, aniquilado.

Pareceu-me que a figura imponente minguava – e a minha desgraça diminuiu. Se meu pai se tivesse chegado a mim, eu o teria recebido sem o arrepio que a presença dele sempre me deu. Não se aproximou: conservou-se longe, rondando, inquieto. Depois se afastou.

Sozinho, vi-o de novo cruel e forte, soprando, espumando. E ali permaneci, miúdo, insignificante, tão insignificante e miúdo como as aranhas que trabalhavam na telha negra.

Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça.