segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mário de Sá-Carneiro, "Último soneto"


Que rosas fugitivas foste ali!
Requeriam-te os tapetes, e vieste...
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste!
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi...

Pensei que fosse o meu o teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...

E fugiste... Que importa? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste,
Onde a minha saudade a Cor se trava?

domingo, 15 de janeiro de 2017

Almeida Garrett, "Este inferno de amar ..."


Este inferno de amar - como eu amo! -
Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão serena a dormi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

sábado, 14 de janeiro de 2017

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Cecília Meireles, "Tenho pena de estar contigo..."


Tenho pena de estar contigo,
 de SABER-TE. - Por isso, digo:
Nada se pode comparar
à dor de já não mais te amar.

Escuros dias tenho visto,
e amargas noites sem socorro.
- Nada que fosse igual a isto!

Ficaram-me os olhos na cara,
por muito que chorasse! E morro
vendo quem és, ó imagem cara!

Não merecia tal castigo,
meu coração! Por isso, digo:
Nada se pode comparar
à dor de já não mais te amar!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Sóror Violante do Céu, "Ao amado ausente"


Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte,
Se ausente d'alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Sylvano já ter vida,
Pois tudo sem Sylvano é viva morte;
Já que se foi Sylvano venha a morte,
Perca-se por Sylvano a minha vida.

Ah, suspirado ausente, se esta morte
Não te obriga a querer vir dar-me vida,
Como não me vem dar a mesma morte?

Mas se n'alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.


Violante da Silveira ou Violante de Montesino nasceu em 1601 e faleceu em 1693.  
Passou a chamar-se Sóror Violante do Céu após entrar para um convento de freiras enclausuradas aos trinta anos de idade.
Consta que não exilou-se da vida mundana por vocação, mas para se proteger de sentimentos amorosos que a arrebataram e fizeram sofrer.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Cecília Meireles, "Ninguém me venha dar vida"


Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser
e não me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.

Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.

Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Alexei Bueno, "La mort des pauvres"


É muito ruim morrer tendo dinheiro,
Podendo, salvo, ir rápido a Paris.
Almoçar no Vefour, beber inteiro
Um lote de Bordeaux. Flanar, feliz,

No cais. Comprar um Dürer verdadeiro,
Uns bronzes do Ceilão, a flor-de-lis
De ouro real sobre um códice em carneiro,
Uns vasos gregos, e aí tomar pastis*...

Bom é morrer falido, endividado,
Cortados gás e luz, o nome imundo
Na praca, todo o crédito negado.

E, num nicho que alugue algum parente,
Mors omnia solvit**, no mais vagabundo
Caixão ser sepultado inadimplente.


* Pastis é o nome dado às bebidas alcoólicas aromatizadas com anis.

**mors omnia solvit  é uma locução latina que diz "a morte resolve tudo".
No Direito Penal, é usada  com o sentido de "a morte do agente extingue a sua punibilidade".

sábado, 7 de janeiro de 2017

Lúcio Cardoso, "Poema"


Eu vi seu olhar deslizar sobre meus sentidos;
sua compreensão penetrar no mistério do meu ser,
e águas douradas cantar o salmo da minha devoção
quando teu cabelo rolou e a noite absorveu meu presente.

Eu vi sua alma agitar-se na retentiva em sangue
que é a face do meu corpo;
seu espírito debater-se nos meus punhos de ferro
e ajoelhar como o vencido que aguarda o inevitável.

Eu vi a cor dos fogos que relampejavam na sua noite;
a têmpera dos seus fusíveis na minha comoção de homem;
a avalanche que brotou do alto e lapidou meus pés.

Eu vi a música que transtornou seus astros
e fez do meu silêncio o Grande Mar;
o grito naufragado no desejo que não partiu...

.................................................................................
Eu vi tudo na tarde, mas ela já não existe.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Hilda Hilst, VIII º poema da série AMAVISSE "Guardo-vos manhãs de terracota e azul..."


Guardo-vos manhãs de terracota e azul
Quando o meu peito tingido de vermelho
Vivia a dissolvência da paixão.
O capim calcinado das queimadas
Tinha o cheiro da vida, e os atalhos
Estreitos tinham tudo a ver com o desmedido
E as águas do universo se faziam parcas
Para afogar meu verso. Guardo-vos, Iluminadas
Recendentes manhãs tão irreais no hoje
Como fazer nascer girassóis do topázio
E dos rubis, romãs.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Manuel Maria Barbosa du Bocage, "Fiei-me nos sorrisos da ventura..."


Fiei-me nos sorrisos da ventura,
Em mimos feminis, como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura:

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo húmido e ouco,
Pareço, até no tom lúgubre, e rouco
Triste sombra a carpir na sepultura:

Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce, e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta!

Ah! não me roubou tudo a negra sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Fernando Pessoa - Álvaro de Campos, "Pecado original"


Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?
Será essa, se alguém a escrever,
A verdadeira história da humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, não é nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está aí.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade — o sonho à janela da infância?
Que é daquela nossa certeza — o propósito a mesa de depois?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela de sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois de jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligência, e com alguma razão —
Meu Deus! meu Deus! meu Deus!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!
Quantos Césares fui!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

domingo, 1 de janeiro de 2017

Konstantinus Kaváfis, "Cinzentos"


Olhando uma opala meio cinzenta,
lembrei-me de dois belos olhos cinzentos
que vi; isto deve fazer vinte anos...
..................................................................
Por um mês nos amamos.
Depois, ele partiu, creio que para Esmirna,
para aí trabalhar, e nunca mais nos vimos.

Devem ter-se afeado - se ele vive - os olhos cinzentos;
deve ter-se estragado o belo rosto.

Memória minha, conserva-os tu como eram.
E o que possas, memória, desse meu amor,
o que possas traze-me de volta esta noite.

sábado, 31 de dezembro de 2016

Lúcio Cardoso, "Poema"


Voltarei em busca dos caminhos que se perderam
e todas as coisas estarão silenciosas
e a noite dormirá no berço calmo dos rios
e as moças estarão sorrindo nos jardins cheios de sombra.

Perguntarei onde estarão as tardes de outrora
e os passeios onde soavam tantos risos...
E ninguém me saberá responder. E estarão
parados no meio do caminho e os seus
olhares ansiosos se voltarão para trás:
- Quem é este que procura as visões mortas do passado?
- Quem é este que permanece na curva dos caminhos, ardente
                                                           [ e inquieto?

Eu olharei as terras desoladas e os rios que correm sem rumor.
A grande noite virá como uma névoa escura sobre as cabeças
                                                           [ das árvores.

E sentindo que o meu coração se diminui
e se torna menos humano, ficarei quieto e não saberei nada,
nada o que responder...
Sentir-me-ei então inteiramente inútil e desolado.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Ruy Espinheira Filho, "Soneto dos versos da juventude ou uma aprendizagem"


Ainda bem jovem, escreveu sonetos
em decassílabos e alexandrinos,
relembrando meninas e meninos,
festas juninas, fogo e coretos

com filarmônicas. E nos sonetos
de festas, de meninos e meninas,
já se mostravam sombras assassinas
que assombravam as luzes dos coretos

e que eram de paixões, sonhos, ternuras
incompreendidas - e festas, coretos,
traziam em si também lembranças duras.

Ah, eram feitos da Vida esses sonetos...
Como devem ser, sempre, nas impuras
asas dos seus quartetos e tercetos.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Lúcio Cardoso, "Poema"


Esta vontade de sair gritando,
esta vontade de deter os que passam,
dizer alguma coisa, sondar,
rever na face atônita, gelada,
um pouco da minha inquietação.
do meu delírio - dizer aos que não sabem!

Esta vontade de fugir ao meu destino,
de escapar às visões que me alucinam,
ao ruído dessas asas que não vejo,
à voz desses lábios que não sinto,
à fatalidade dos que possuem duas vidas,
dos que vagam num deserto cheio de fantasmas.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Fernando Pessoa, "O outro amor"


Com que fúria ergo a ideia dos meus braços
Para a ideia de ti! Com que ânsia bebo,
Os olhos pondo em teus sonhados traços,
Todo o fêmea em teu corpo de mancebo!

Teu hálito sonhado até cansaços
Como em meu vivido hálito recebo!
Ó carne que sonho és tantos laços
Para mim! Deus-deus, Vénus-Efebo!

Ó dolorosamente só sonhado!
Soubesse eu o feitio exterior e o jeito
Em gestos e palavras e perfeito

As palavras a dar a este pecado
De só pensar em ti, de ter o peito
Opresso em pensar-te entrelaçado!

domingo, 25 de dezembro de 2016

Miguel Torga











"Natal Divino"

Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

sábado, 24 de dezembro de 2016