quinta-feira, 26 de abril de 2018

Hilda Machado, "Cabo Frio"


Nuvens passageiras
miragens peregrinas enfunadas pelo Nordeste
queda de folhagem
muda retórica

O Sudoeste dá rédeas à repulsa
nuvens erráticas devoram rivais
Orfeu despedaçado por bacantes drapejadas de vapor

Em dia sem vento
a falta de engenho permite
purezas de sabão e macieiras em flor
talco no chão do banheiro
sorvete marca Aristófanes

Mas quase sempre ele pisa seus véus

Duas mãos de cinza desmaiado
sobre fundo esmaltado é perícia
renda
luxo magnífico e corrupto
realização elegante de algum mandarim
leque de plumas de avestruz tintas de rosa
levemente agitado diante da luz


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Konstantinos Kaváfis, "Janelas"


Nestes compartimentos escuros onde passo
dias opressivos, ando para cá e para lá
a fim de achar as janelas – Quando se abrir
uma janela, será um consolo. –
Mas não se acham as janelas, ou não posso
encontrá-las. E talvez seja melhor que não as encontre.
Talvez seja a luz um novo martírio.
Quem sabe que novas coisas ela mostrará.

Tradução de Ísis Borges da Fonseca

terça-feira, 24 de abril de 2018

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Eugénio de Andrade, "Com o mar"


Trago o mar todo na cabeça
daquele modo que as mulheres novas
dão de mamar aos filhos:
o que me não deixa dormir
não é o marulho das suas vagas,
são essas vozes
que na rua se levantam a sangrar
para voltarem a cair,
e rastejando
vêm morrer à minha porta.

domingo, 22 de abril de 2018

Ivan Junqueira, "Antes que o sol se ponha"


Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;
antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra
às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça
as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Fagundes Varela, "Enojo"


Vem despontando a aurora, a noite morre,
desperta a mata virgem seus cantores,
medroso o vento no arraial das flores,
mil beijos furta e suspirando corre.

Estende a névoa o manto e o val pecorre,
cruzam-se as borboletas de mil cores,
e as mansas rolas choram seus amores
nas verdes balsas onde o orvalho escorre.

E pouco a pouco se esvaece a bruma,
tudo se alegra à luz do céu risonho
e ao flóreo bafo que o sertão perfuma.

Porém minh'alma triste e sem um sonho
murmura olhando o prado, o rio, a espuma:
como isto é pobre, insípido, enfadonho!

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Ivan Junqueira, "Ladainha"


Pois agora que estais
sob essa tábuas frias
entre os vermes da terra
e os cravos da agonia: 

agora que a lembrança
da carne se esfarinha
e o pó vos tinge as tíbias
no fundo do jazigo;

agora que dormis,
no jardim das delicias,
esse sono sem fim
que dormem os espíritos;

agora que jazeis
alheios ao suplício
em que se consumiu
vossa esquálida vida

- agora é que vos choro
junto à lápide estrita
da eterna desvalia.
Amém. Amém vos digo.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Antônio Carlos Secchin, "Poema do infante"


É a noite.
E tudo escava tudo
na língua ambígua que desliza
para o esquivo jogo.
Amargo corpo,
que de mim a mim se furta,
não recuso teu percurso
no hálito das pedras
que me existem em ti
- estéril dorso entre águas
estancadas.
O nada, o perto, o pouco,
não posso dividir
do que se espera o que me habita,
ao fazer fluir a via antiga
de um menino que mediu o lado impuro.
Operário do precário,
me limito nesse corpo amanhecido,
asa e gozo onde a morte mora.
Minha vida, mapeada e descumprida,
está pronta para o preço dessa hora.

domingo, 15 de abril de 2018

Abgar Renault, "A Ela"


São frios os meus versos como Tu:
como os teus dedos lívidos de gelo,
como esse olhar sem órbitas, nem pálpebras,
como a lâmina dessa foice fria
que, fria, Tu manejas friamente.
Nos escassos parênteses que deixas
entre meu mim e teus abraços de ossos
eu mal me encontro e mal consigo ver-me
no mesmo espelho em que me via outrora
e mal me sei como sabia quando
teu vulto ainda não aparecera
tal a segunda sombra do meu corpo.
Não sei que forma e fundo me darás,
não sei para que quando e para que onde
carregarás minha alma e minha carne;
só sei ser impossível meu fugir-Te,
como impossível é meu esperar-Te
sem de frio tremer e de pavor,
e meu desejo é apenas esquecer-Te
para esquecer que não me esquecerás.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Cecília Meireles, "Entre lágrimas se fala..."


Entre lágrimas se fala
- e Deus sabe o que se sente!
Mas de longe não se escuta
nem se entende.

A voz é rouca e dorida
e a distância, tão penosa...
Quem sofre já não se espanta:
cala e chora.

Apenas, uma pergunta
às vezes, tímida, ocorre:
para que, noites e dias,
chora e sofre?

Quando amanhã todos formos
a mesma terra perdida,
ninguém saberá das dores
que sofria.

Onde o lábio sem resposta?
Onde, os olhos ainda cheios...?
Onde, o coração que havia?
Onde o peito?

De tão longe, não se escuta.
Não se escuta e não se entende.
Deus, entre as lágrimas fala:
- não se sente.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

António Ramos Rosa, "Desmancha-se o cavalo ? Jamais..."


Desmancha-se o cavalo ? Jamais.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.

Impossível quebrar-lhe a linha aérea.
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.

Vive, portanto, mais alto que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira.
o cavalo que nunca o é para si mesmo.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

Iacyr Anderson Freitas, "Oráculo de eros"


Para que não seja o teu corpo
a parte proibida do horto.

Mas a volúpia que marcasse,
entre volutas, tua face.

Somente a tua: mais nenhuma
com tamanho langor de espuma.

Com tamanha extensão de chama,
que até a memória se inflama

a cada letra do teu nome
(pois todas as outras consome).

Que seja o teu corpo o instrumento
tocado em pelo contra o vento

e por ele, vento, encarnado,
a salvo de teu próprio achado,

por fim tão senhor quanto escravo
: corpo de onde eu mesmo me escavo.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Luiz de Camões e Antônio Carlos Secchin .


O soneto abaixo do Secchin é quase uma atualização dos impulsos e do vocabulário de um homem contemporâneo, feito sobre o conhecido soneto de Camões, transcrito no final.

"Sete anos de pastor "

Penetro Lia, mas Raquel é quem me move,
e faz meu corpo desatar toda alegria.
Se tenho Lia, minha pele não navega
nada além de nada em névoa fria.

Sete anos galopando em Lia e tédio,
sete anos condenado ao gozo escuro.
Raquel me tenta, e se me beija Lia
minha boca é não, e minha mão é muro.

Labão, o puto, perdoai-me nesse instante,
adoro a dor que doer em minha amante.
Vou cravar-lhe um punhal exausto e certo,

doar seu sangue ao livro e à ventania.
Quieta Lia será terra em que os cavalos
vão pastar, sob a serra e o deus do dia.


"Sete anos de pastor Jacob servia..."

Sete anos de pastor Jacob servia 
Labão, pai de Raquel, serrana bela; 
Mas não servia ao pai, servia a ela, 
E a ela só por prêmio pretendia. 

Os dias na esperança de um só dia 
Passava, contentando-se com vê-la; 
Porém o pai, usando de cautela, 
Em lugar de Raquel lhe deu Lia. 

Vendo o triste pastor que com enganos 
Lhe fora assim negada a sua pastora, 
Como se a não tivera merecida; 

Começa de servir outros sete anos, 
Dizendo: Mais servira, se não fora 
Para tão longo amor tão curta a vida. 

sábado, 7 de abril de 2018

Cecilia Meireles, "Venturosa de sonhar-te ..."


Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)

-Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!

Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para lever-te comigo
é suspiro e pensamento.

-Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Eugénio de Andrade, "Lisboa"


Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. Tu sabias?

quinta-feira, 5 de abril de 2018

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Soror Violante do Céu, "Soneto em diálogo"


Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.

Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.

Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.

Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento
Para ser mais capaz de tal Monarca.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Francisca Júlia, "À noite"


Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um réquiem doloroso.

No alto uma estrela triste as pálpebra descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...

Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma...

É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.