segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

José Régio, "Ignoto Deo"


Desisti de saber qual é o Teu nome,
Se tens ou não tens nome que Te demos,
Ou que rosto é que toma, se algum tome,
Teu sopro tão além de quanto vemos.

Desisti de Te amar, por mais que a fome
Do Teu amor nos seja o mais que temos,
E empenhei-me em domar, nem que os não dome,
Meus, por Ti, passionais e vãos extremos.

Chamar-Te amante ou pai... grotesco engano
Que por demais tresanda a gosto humano!
Grotesco engano o dar-te forma! E enfim,

Desisti de Te achar no quer que seja,
De Te dar nome, rosto, culto, ou igreja...
– Tu é que não desistirás de mim!

domingo, 10 de dezembro de 2017

Vinícius de Moraes, "Soneto do maior amor"


Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer — e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

sábado, 9 de dezembro de 2017

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Antônio Olinto, "Sonata"


Mulher, tirei o som dos acontecimentos,
água de bica em pedra, onda chegando à areia,
riso de gente em mar e pássaro nos ventos,
tábua rangendo à noite e grito em lua cheia.

Separei cada som de seus leves aumentos,
de uma porção de azul tirei apenas meia,
para trazer-te em mim, corpo de nascimentos,
a justeza dos sons pousando em cada veia.

Sou todo uma sonata e em tua pele escorro
fixando cada coisa em seu exato jarro
no ritmo natural de trem subindo o morro.

A prenda que eu trazia em cadência de carro
é fonte em mim, mulher, e se abre num só jorro
de acalanto, de amor, de leite, luz e barro.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Milt Jackson e o Modern Jazz Quartet, "What's New", de J.Burke/B.Haggart


Dantas Motta, "Noturno Paulista nº 1"


No Madrugada's Bar ou no Bar Madrugada.
Entre a noite que veio e ela que não vem
E esta lua negra, de papelão, à parede,
As garrafas, sobre a mesa,
Formam um campo de petróleo.
A triste mulher da vida — Nilda —
Esculacha, bem em frente a mim,
O tango argentino intitulado A media luz.
As considerações, cada vez mais sábias,
E sombrias, à medida que a bebida
Vai aumentando o poder de certas dores,
Secretas e violáveis, contudo impublicáveis,
Provam apenas que o mundo continua,
E que as desgraças, como as despesas,
Inevitáveis, são sempre inúteis e iguais.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

José Paulo Paes, "Centauro"


A moça de bicicleta
parece estar correndo
sobre um chão de nuvens.

A mecânica ardilosa
dos pedais multiplica
suas pernas de bronze.

O guidão lhe reúne
num só gesto redondo
quatro braços.

O selim trava com ela
um íntimo diálogo
de côncavos e convexos.

Em revide aos dois seios
em riste, o vento desfaz
os cabelos da moça

numa esteira de barco
– um barco chamado
Desejo onde, passageiros

de impossível viagem,
vão todos os olhos
das ruas por que passa.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Joaquim Cardozo, "1930"


Na estranha madrugada
O homem alto, transpondo o portão da velha casa, depõe no
[chão frio.
O corpo inanimado do seu irmão.
Da sombra das velhas mangueiras, por um momento,
Surgiram, curiosas, as sombras dos melhores heróis de
                                                                  [Pernambuco antigo.
Sobre o corpo caiam gotas de orvalho e flores de cajueiro.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Drummond, "Encontro"


Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.
Se a noite me atribui poder de fuga,
sinto logo meu pai e nele ponho
o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.

Está morto, que importa? Inda madruga
e seu rosto, nem triste nem risonho,
é o rosto antigo, o mesmo. E não enxuga
suor algum, na calma de meu sonho.

Ó meu pai arquiteto e fazendeiro!
Faz casas de silêncio, e suas roças
de cinza estão maduras, orvalhadas

por um rio que corre o tempo inteiro,
e corre além do tempo, enquanto as nossas
murcham num sopro fontes represadas.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Fernando Pessoa, "Sonhei - quem não sonhara?..."


Sonhei - quem não sonhara? - porque a tarde
Baixava o azul do céu e já se via
Uma estrela pequena, sem alarde,
Ainda em dia a desmentir o dia.

Tudo quanto mal fiz ou não queria
Numa fogueira que não vejo arde,
Meu coração, que espera e não confia,
É como um poço ao qual' a água tarde.

Sonhei. Pois não havia de sonhar
Vendo ante mim este céu brando e o mar,
Ao longe um lago, parecer parado...

Sonho... Não sei de quê, mas foi de um bem
Que não sei se era algum ou se era alguém
E que só conheci como ignorado.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Adriano Espínola, "Lamas"


                                     A Horácio Dídimo


À noite
todos os lépidos
são larápios,

todos os otários
são
notórios,

todas as lânguidas
são
lésbicas

todas as cópulas
são
cédulas,

todos os lúcidos
são
trágicos

todos os bêbados
são
sábios.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Antônio Carlos Secchin, "Reunião"


Aqui estamos nós
unidos pelo sangue
e dispersos pela vida.
Sabemos de onde viemos,
mas não sabemos nossa saída.
De Antônio e Catarina
herdamos gestos, sonhos, corpos e voz.
Muito sabemos deles,
e pouco sabemos de nós.
Aqui estamos todos
- tios , sobrinhos, primos, avós – ,
corrente entre um ontem vivo
e um amanhã apressado,
frente a frente
com o futuro que nos chama,
cara a cara
com a chama de um passado.
Agora atravessamos juntos
Cachoeiro de ItapeSecchin,
esta estrada tropical da Itália
que desemboca em você e em mim.
E se recompondo o que nós fomos
este instante cintilar dentro de nós
num sopro que a vida não apaga
mesmo sozinhos não estaremos sós.

domingo, 26 de novembro de 2017

Vitorino Nemésio, "Céu velho"


Nasci num astro que esfriou.
A escolta de anjos em que vim, perdi-a.
Ao desprender-se a última asa fria
Meu destino de terra começou.

O salvado dos astros - gorou.
Aonde, aonde a minha origem ia?
Agora, em mim, a noite bebe o dia
Que meus altos cuidados devorou.

Se, bebendo-o, menino me tornasse
E, dando-me uma pena, ora aquecida,
Ao tal astro gelado me levasse?

Já sinto a aragem forte em minha batida
Talvez da escolta de anjos. Volto a face:
Há lá anjo nenhum na minha vida!

sábado, 25 de novembro de 2017

Greta Benitez, "São cinco horas da tarde..."


São cinco horas da tarde
e os prédios já comeram o sol
A luz começa a transbordar das janelas
a escorrer pelos hotéis
a entrar pelas frestas das portas fechadas
para - sem competir com a lua obesa -
fazer a noite acesa.
Enquanto as pessoas se isolam
os prédios me consolam.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Manuel Alegre, "Canto peninsular"


Estar aqui dói-me. E eu estou aqui
há novecentos anos. Não cresci nem mudei.
Apodreci.
Doem-me as próprias raízes que criei.

Foi a guerra e a paz. E veio o sol. Veio e passou
a tempestade.
Muita coisa mudou. Só não mudou
este monstro que tem a minha idade.

E foi de novo a guerra e a paz. Muita coisa mudou
em novecentos anos.
Eu é que não mudei. Neste monstro que sou
só os olhos ainda são humanos.

Quantas vezes gritei e não me ouviram
quantas vezes morri e me deixaram
nos campos de batalha onde depois floriram
flores e pão que do meu sangue se criaram.

Andei de terra em terra
por esse mundo que de certo modo descobri.
E fui soldado contra a minha própria guerra
eu que fui pelo mundo e nunca saí daqui.

Mil sonhos eu sonhei. E foram mil enganos.
Tive o mundo nas mãos. E sempre passei fome.
Eis-me tal como sou há novecentos anos
eu que não sei escrever o meu próprio nome.

Falam de mim e dizem: é um herói.
(Não sei se por estar morto ou porque ainda não morri)
Mas nunca ninguém disse a razão porque me dói
estar aqui.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Camilo Pessanha, "Estátua"


Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, de frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correto
Desse entreaberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Ruy Espinheira Filho





















"Janeiro"

Janeiro descia com as chuvas e inventava besouros.
e borboletas e pássaros e girinos e
caminhávamos descalços no barro
e lá estavam as lavadeiras com suas coxas
                        morenas e fortes como a água
e que todas as noites me assombravam
calidamente.

Janeiro soprava um vento de primeiro instante de tudo
e o que respirávamos se chamava manhã
                                                                e foi
o que eu quis te ofertar porque eras tão bela.

Mas isso aconteceu depois, Depois
como agora.
                                                                  E é para sempre
para nunca mais
                                                                  este exílio.

domingo, 19 de novembro de 2017

Nicolas Behr













"Praça dos 3 poderes"

os três poderes são um só:
o deles.