terça-feira, 19 de setembro de 2017

Chacal, "O outro"


só quero
o que não
o que nunca
o inviável
o impossível

não quero
o que já
o que foi
o vencido
o plausível

só quero
o que ainda
o que atiça
o impraticável
o incrível

não quero
o que sim
o que sempre
o sabido
o cabível

eu quero
o outro

domingo, 17 de setembro de 2017

Eugénio de Andrade, "Pequena elegia de setembro"


Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

sábado, 16 de setembro de 2017

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Goesa"


Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas sutis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Alejandra Pizarnik




                                                         










 "A um poema sobre a água, de Silvana Ocampo"

                                                           A Silvana e à Condessa de Trípoli
                                                           que a noite toda emana profecias
                                                                                                     O. Paz

Teu modo de silenciar-te no poema.
Me abris como a uma flor
(sem dúvida uma flor pobre, lamentável)
que já não esperava a terrível delicadeza
da primavera. Me abris, me abro,
volto-me em água no teu poema de água
que a noite toda emana profecias.




"A un poema acerca del agua, de Silvana Ocampo" 

                                                            A Silvana y la condessa de Trípoli
                                                            que emana toda la noche profecias
                                                                                                        O. Paz

Tu modo de silenciarte en el poema.
Me abrís como a una flor
(sin duda una flor pobre, lamentable)
que ya no esperaba la terrible delicadeza
de la primavera. me abrís, me abro,
me vuelvo de agua en tu poema de agua
que emana toda la noche profecias.


Tradução amadora minha.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

José Paulo Paes, "Retrato"


Eu mal o conheci quando era vivo.
Mas o que sabe um homem de outro homem?
Houve sempre entre nós certa distância,
um pouco maior que a desta mesa onde escrevo
até esse retrato na parede
de onde ele me olha o tempo todo.
Para quê?
Não são muitas as lembranças que dele guardo:
a aspereza da barba no seu rosto quando eu o
beijava ao chegar para as férias.
O cheiro de tabaco em suas roupas;
O perfil mais duro do queixo
quando estava preocupado;
o riso reprimido até saltar-se na risada.
Falava pouco comigo.
Estava sempre noutra parte:
ou trabalhando ou lendo ou conversando
com alguém ou então saindo de viagem.
Só quando adoeceu e o fui buscar
em casa alheia e o trouxe para minha casa
estivemos juntos por mais tempo.
Mesmo então dele eu só conheci
a luta pertinaz contra a dor,
o desconforto, a inutilidade forçada,
os negaceios da morte já bem próxima.
Até o dia em que tive de ajudar
a descer-lhe o caixão à sepultura.
Aí então eu o soube mais que ausência.
Senti com minhas próprias mãos o peso
do seu corpo, que era o peso imenso do mundo.
Então o conheci. E conheci-me.
Ergo os olhos para ele na parede.
Sei agora, pai, o que é estar vivo.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

João Cruz e Souza, "Acrobata da dor"


Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço que, desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

De gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos e, convulsionado,
salta, gavroche, salta, clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta.

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas de aço.

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri, Coração, tristíssimo palhaço!

domingo, 10 de setembro de 2017

Eucanaã Ferraz, "O equilibrista"


Traz consigo resguardada
certa idéia que lhe soa
clara, exata.

No entanto, hesita: que palavra
a mais bem medida e cortada
para dizê-la?

Enquanto não lhe vem o verso, a frase, a fala,
segue lacrada a caixa
no alto da cabeça.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Al Berto, "Diário"












23 Fev.91 Lx

Pensei nisto, não sei porque razão: uma força incontrolável, superior, desconhecida, pode crescer em mim, do fundo de mim; da parte mais obscura e quase animal, selvagem, de mim. / existirá um lobo, de ferocidade incalculável, adormecido algures em mim? (uma espécie de força telúrica invade-me, às vezes, e essa força dá-me alento para odiar o mundo. acho que sou um homem corajoso - e isso dá-me vontade de rir.)
Depois da paixão - pergunto-me - o que restará? em que sítio do caos brotará outra coisa? ou será ainda possível morrer - morrer simplesmente, por enjoo de tudo. O melhor de mim não é físico, por isso guardo esta desmedida disponibilidade para te amar. através do meu olhar escondido no teu posso ver o mundo, o pouco de alegria que lhe resta, e essa alegria não é nossa alegria.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), "Depois de não ter dormido..."


Depois de não ter dormido,
Depois de já não ter sono,
Interminável madrugada em que se pensa sempre sem se pensar,
Vi o dia vir
Como a pior das maldições -
A condenação ao mesmo.

Contudo, que riqueza de azul verde e amarelo dourado de vermelho
No céu eternamente longínquo -
Nesse oriente que estragaram
Dizendo que vêm de lá as civilizações;
Nesse oriente que nos roubaram
Com o Conto do Vigário dos mitos solares,
Maravilhoso oriente sem civilizações nem mitos,
Simplesmente céu e luz,
Material sem materialidade...
Todo luz, mesmo assim
A sombra, que é a luz da noite dada ao dia,
Enche por vezes, irresistivelmente natural.
O grande silêncio do trigo sem vento,
O verdor esbatido dos campos afastados,
A vida e o sentimento da vida.
A manhã inunda toda a cidade.
Meus olhos pesados do sono que não tivestes,
Que amanhã inundará o que está por trás de vós.
Que é vós,
Que sou eu?

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Ângelo de Lima, "Soneto"


Para-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento…

Para surpreso, escrutador, atento,
Como para um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado…
Para e fica e demora-se um momento.

Para e fica na doida correria…
Para à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria

Um olhar de aço que essa noite explora…
Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Cidade"


Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

sábado, 2 de setembro de 2017

Fiama Hasse Pais Brandão, "Epístola para os amados"


Ainda vos amos, porque aqui não há só tempo
e o amor, no tempo, é tão intenso e absoluto,
que transborda do tempo para o não-presente.
Havendo tempo e não-tempo, eu vos confesso agora
que em parques ao poente ainda vos estou a amar.
E não que vos ofereça hoje alucinados versos,
mas porque do meu tempo sois donos, como os poemas
que eu escrevo do tempo para o não-tempo, sempre.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Casimiro de Brito, "Cidade caótica..."


Cidade caótica -
a borboleta atravessa a rua
com o sinal vermelho.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Konstantinos Kaváfis, "Melancolia de Jasão, filho de Cleandro; poeta em Comagena; 595 D.C."


O envelhecimento de meu corpo e de meu rosto
é uma ferida de terrível punhal.
Não tenho resignação alguma.
A ti recorro, Arte da Poesia,
que entendes um pouco de remédios:
tentativas de entorpecimento da dor, na Imaginação e no Verbo.

É uma ferida de terrível punhal . –
Traze, Arte da Poesia, teus remédios,
que fazem – por algum tempo – que não se sinta a ferida.

Tradução de Ísis Borges da Fonseca.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Fernando Pinto do Amaral, "Mais uma noite, amor..."


Mais uma noite, amor. Ao recordar-te
retomo os fins do mundo, a cinza, os dias
manchados de outras lágrimas. Sabias
como eu a cor das sombras, essa arte

que nos engana agora e se reparte
por esquinas e cafés. Já não me guias
os muitos passos vãos, as fantasias
da minha falsa vida. Vou deixar-te

fugindo-me. Na chuva, sem ninguém,
apenas alguns vultos, o que vem
«e dói não sei porquê» - este deserto

onde te vejo, imagem outra vez,
até de madrugada. O que me fez
sentir o muito longe aqui tão perto?

domingo, 27 de agosto de 2017

Eucanaã Ferraz, "Dor"


Amor desfeito.
Do vento mais suave

(arrastamos nosso corpo
para fora, para a hora

de partir) o movimento mínimo
fere nosso rosto

e o silêncio semelha o dente de um ácido
sombrio sobre nosso ferimento,

ainda tão recente,
cintilante.