segunda-feira, 22 de maio de 2017

Sóror Violante do Céu, "Madrigal"


Enfim fenece o dia,
Enfim chega da noite o triste espanto,
E não chega desta alma o doce encanto:
Enfim fica triunfante a tirania,
Vencido o sofrimento,
Sem alívio meu mal, eu sem alento,
A sorte sem piedade,
Alegre a emulação, triste a vontade,
O gosto fenecido,
Eu infeliz enfim, Lauro esquecido.
Quem viu mais dura sorte?
Tantos males, amor, para uma morte?
Não basta contra a vida
Esta ausência cruel, esta partida?
Não basta tanta dor? tanto receio?
Tanto cuidado, ai triste, e tanto enleio?
Não basta estar ausente,
Para perder a vida infelizmente?
Se não também, cruel, neste conflito
Me negas o socorro de um escrito?
Porque esta dor que a alma me penetra
Não ache o maior bem na menor letra,
Ai! bem fazes, amor, tira-me tudo!
Não há alívio, não, não há escudo,
Que a vida me defenda,
Tudo me falte, enfim, tudo me ofenda,
Tudo me tire a vida,
Pois eu a não perdi na despedida.

Violante da Silveira ou Violante de Montesino nasceu em 1601 e faleceu em 1693.  
Passou a chamar-se Sóror Violante do Céu após entrar para um convento de freiras enclausuradas aos trinta anos de idade.
Consta que não exilou-se da vida mundana por vocação, mas para se proteger de sentimentos amorosos que a arrebataram e fizeram sofrer.

sábado, 20 de maio de 2017

Leis estranhas em Minnesota (EUA)


-- É contra a lei pendurar no varal, lado a lado, calcinha e cueca.
-- É proibido pintar um pardal para vendê-lo como periquito.
-- Uma pessoa não pode cruzar a fronteira do estado com um pato ou uma galinha em sua cabeça.
-- Há uma recompensa de 10 centavos para cada cabeça de rato levado a um escritório da cidade.
-- É proibido dormir nu.
-- Ficar em parado, em pé, perto de qualquer edifício, sem uma boa razão para isso, é ilegal.
-- É obrigatório usar camisa para dirigir motocicleta.
-- Sexo oral é proibido.
-- Em International Falls: Será multado quem deixar seu cachorro perseguir um gato que sobe em um poste de telégrafo.
-- Em Alexandria: É ilegal para o homem fazer amor com uma mulher com bafo de sardinha.
-- Em Cottage Grove: Residentes de endereços pares não podem regar as plantas em dias ímpares, excluindo o dia 31.
-- Em Minneapolis: É proibido andar para cima e para baixo em becos.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

António Barbosa Bacelar, "A uma ausência"


Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado:

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado:

Choro no mesmo ponto, em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Adriano Espínola, "Meio-dia (2)"


O sol tomba, 
vertical, 
dos edifícios. 
Ardem os muros perfilados. 

Os objetos vomitam cores, 
embriagados. 

O vermelho dos sinais ri, 
em chamas, 
para os carros. 

Na calçada, 
a luz lambe 
as coxas da garota, 
penetra no blue-jeans 
dos manequins, 
irriga de calor 
a angústia dos homens. 

(Tudo se queima, 
tudo se consome, 
tudo arde infinito.) 

Ó súbita revelação:
o sol me aponta 
o carvão íntimo 
das coisas, 
negro 
coração 
batendo na claridade.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Donizete Galvão, "Dia de sombra"


O domingo expõe
Seus andaimes de sombras,
Zonas de exasperada ferrugem,
Falas e imagens deterioradas.
Unhas imploram
Para serem roídas.
Há um facho de luz
Cruzando o plexo.
Há a irrupção do desejo,
Aragem de um espasmo,
Antes que as ruínas das horas
Girem seus dentes
E triturem os ânimos.
Imobilidade do corpo
Em seu centro vazio.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

domingo, 14 de maio de 2017

Maria Alberta Menéres, "Parece igual esta flor..."


Parece igual esta flor
mas já não é.
De corpo decepado, ainda a cabeça move
todo a graça!
Só amanhã secará.
Aguentasse um dia a nossa esperança,
um dia apenas de cabeça viva
e corpo decepado,
aguentássemos nós a vida em nossos olhos
depois do corpo morto,
e em nós começaria a eternidade.

Mas a seiva que ilude  bela flor
é mais forte que o sangue verdadeiro.

sábado, 13 de maio de 2017

Gregório de Matos, "Define a sua cidade"


De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dois ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dois ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dois ff se compõe.

Se de dois ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dois ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Teixeira de Pascoaes, "Sozinho"


Tarde. Vagueio só por um outeiro.
Sua Imagem quimérica fluctua,
Diante de mim, no espaço: é nevoeiro
Vestindo de emoção a terra nua...

E como na minh'alma se insinua
Aquele etéreo Vulto... amor primeiro!
Ouço-o falar, lá fora, à luz da lua.
Vejo-o brincar na sombra do terreiro.

Apenas veem meus olhos, n'este mundo,
O seu perfil angélico, o seu fundo,
Misterioso, verde negro olhar...

Vejo uma estrela? É ele. Vejo um lírio?
É ele. Tudo é ele. E o meu delírio
É ele: é o seu espírito a cantar!

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Miguel Torga, "Armadilha"


Vivo preso nas malhas dos meus sonhos
Desfeitos,
A lembrá-los.
E, quanto mais esbracejo,
Mais me enredo na trança
Da ratoeira.
É que todos eram a maneira
Airosa
De me salvar.
E nenhum consegui realizar,
Nem consigo esquecer.
Virados do avesso, são agora
Uma negra masmorra
De condenado.
Até onde não pude!
Até onde não sou!
A que alturas celestes quis subir!
A que lonjuras ir!
E não subi, nem fui, nem certamente vou.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Leis estranhas em Michigan (EUA)


-- Na lei estadual, dentistas são oficialmente classificados como mecânicos.
-- O cabelo da mulher pertence, legalmente, ao marido. Por isso, só pode cortá-lo com sua permissão.
-- Adultério é ilegal, mas só pode ser punido mediante queixa da pessoa traída.
-- Pessoas casadas devem viver juntas ou irão para a prisão.
-- É ilegal acorrentar um jacaré em um hidrante de incêndio.
-- É proibido beber em trens.
-- É proibido vender carros aos domingos.
-- Matar um cachorro com o uso de uma câmara de descompressão é ilegal.
-- O ladrão pode mover uma ação judicial, caso seja ferido dentro da casa assaltada.
-- Qualquer pessoa com menos de 12 anos pode ter licença para ter uma arma, desde que não tenha sido condenada por um crime.
-- Em Clawson: O fazendeiro pode legalmente dormir com os porcos, galinhas, vacas, cavalos e cabras.
-- Em Detroit: Casais são proibidos de fazer amor no carro, a não ser que ele esteja estacionado da propriedade do casal. Também: Destruir, de propósito, rádios velhos é proibido. Ainda: O homem não pode “olhar com expressão de raiva” para sua mulher aos domingos.

domingo, 7 de maio de 2017

Adriano Espínola, "Dentro da Hora"


- E se acaso este grito
não encontrar sua resposta?

- Se ao invés esta ferida
mais alargar seu território?

- Que faremos se esta briga
armar o tempo à nossa volta?

- Que valia nós teremos,
cercados de chumbo e ódio?

- E se este medo crescer
suas facas dentro de nós?

- Até onde nossos punhos,
sangrando dentro da hora?

- Até quando nosso viver,
se somos tantos roçando a morte?

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Maria Alberta Menéres














"Adora a flor das árvores..."

Adora a flor das árvores, adora
toda a vaidade que das coisas vem.

Por ela nos traímos e vencemos,
e em cada hora de traição esquecemos
a dor de fruto que esta flor contém.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Francis Jammes, "Meu humilde amigo"


Meu cão fiel, humilde amigo, sucumbiste
Sob a mesa, fugindo à morte como à vespa
Tu fugias em vida. Ali tua cabeça
Voltaste para mim no passo breve e triste.

Companheiro banal do homem, tu que em teus dias
No que falta ao teu dono achas o que te baste,
Ó ser bendito que a jornada acompanhaste
Do arcanjo Rafael e do jovem Tobias...

Tal como um santo ama ao seu Deus, num grande exemplo
Amaste-me também, ó servo verdadeiro!
O mistério de tua obscura inteligência
Vive num paraíso inocente e fagueiro.

Ah se de vós, meu Deus, a graça eu alcançasse
De face a face vos olhar na eternidade,
Fazei que um pobre cão contemple face a face
Quem para ele foi um deus na humanidade.

Tradução de Manuel Bandeira

terça-feira, 2 de maio de 2017

David Mourão-Ferreira, "Coro de Natal"


Quem nos garante que estamos vivos
que sequer somos o que fingimos
se atravessamos ruas e praça
sempre com ’spadas entre as espáduas
e com serpentes em torno aos braços
e com cilícios em vez de cílios
e com os sonhos desarrumados
pelos sorrisos e compromissos
desta comédia de celebrar-te
assegurando que não existes

Quem nos garante que estamos vivos
Ou não seremos somente o lixo
da grande roda que nos esmaga
da grande garra que nos agarra
do grande grito que nem gritado
por todos juntos será ouvido
Quem nos garante se neste espaço
que nos separa só o sigilo
preenche as pausas a grande pausa
de recearmos que tu existas

Quem nos garante que estamos vivos
se atravessando ruas e rios
portas e portos pontes e praças
só deparamos com os esgares
que já tiveram as nossas faces
à mesma hora nos mesmos sítios
Quem nos garante que sob as lajes
de outras cidades de outros jazigos
neste momento ressuscitados
não afirmamos que Tu existes

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Bandeira Tribuzi, "Poema"


Um cão ladrou
na noite obscura
tremores frios
de inanição
A mulher magra
esperou cansada
que a carne exausta
fosse chamariz
Poucos sexos jovens
se investigaram
muitos não conseguiram
fugir à frustração
Alguns descansaram
outros se diluíram
o caixote de lixo
esperou esperou
Depois rompeu
a madrugada.

sábado, 29 de abril de 2017

Alexandra Pizarnik













"Noturno de Chopin por um pianista de quatro anos"

Sua música me leva
a um penhasco com um pássaro
que brinca se ouvindo cantar.
Sua música ilumina-me na chuva
por onde vamos eu e uma jaula vazia.

Tradução amadora minha


"Nocturno de Chopin por pianista de cuatro años"

Su música me lleva
a una acantilado com um pájaro
que juega a oírse cantar.
Su música me alumbra en la lluvia
por donde vamos yo y una jaula vacía.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Donizete Galvão, "Ostra"


A ostra
e a aspereza
de sua crosta.
O acúmulo
de craca
nas rugas
da carapaça.
O cheiro podre
de mangue
entranha-se nas digitais
e no tecido das narinas.
Lembram ao homem
seu invólucro de lama.

A ostra
é metade pedra,
calcárias escaras
brancas que se abrem
aos golpes da faca.
Por fora, objeto
coberto por perebas.
Por dentro, fêmea
líquida em leito
de nácar.
Trêmula rosa,
íntima  e recém-nascida,
envolta em gosma.

A ostra
se fecha
e na sua
caixa tosca
purifica-se,
protege-se
do lodo.
Oculta,
eleva
sua carne
ao limite
da sólida
pérola.