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sábado, 19 de novembro de 2016
Luís Antonio Cajazeira Ramos, "Esconde-esconde"
Sob a sombra dos pais e das casas,
descobriam, com pernas trementes,
como as curvas do corpo eram quentes
e a inocência da vida era ousada.
Bolinavam seus próprios brinquedos,
mutuamente esfregavam seus dons,
todos juntos no jogo, ou só dois:
mais desejo, mais perto, mais beijos.
O segredo dos cúmplices nus
desafiava padrões e tabus
de seus pais, que esqueceram de tudo:
já não sabem brincar de casinha;
não notaram na vida a poesia
e pecaram por serem adultos.
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quinta-feira, 29 de setembro de 2016
Luís Antonio Cajazeira Ramos, "Mausoléu"
Minha sala de ícones sagrados
mantém-se aberta para os visitantes.
O pó dos corpos, trajos e calçados
não toca nas redomas cintilantes.
O taumaturgo Deus reluz no centro,
para que todos vejam seu fulgor.
Em cada jarro circundante, dentro,
um venerável ídolo do amor.
Em um, meus pais, sorrindo meigo e terno.
Em outros, cada amigo acena a mão.
Num cálice especial, meu par eterno.
Num canto escuro, a poeira toma assento
junto aos cacos de um velho vaso vão,
de onde escapei, por pouco, há muito tempo.
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sexta-feira, 23 de setembro de 2016
Luís Antonio Cajazeira Ramos
"Apelação"
Dar a volta por cima que eu dei
quero ver quem dava.
Paulo Vanzolini
Melancia amarrada no pescoço,
pintei a bunda de vermelho e fui...
Embora quem me visse risse um pouco,
faltaram palma e vaia a que fiz jus.
Essa gente insensível nem me nota!
Sou como um zero à esquerda, sem valor.
Mas deixe estar, ingratidão! Não dou
bola ao azar, que o mundo dá mil voltas.
Meu sucesso fugiu por entre os dedos,
a derrota sorriu meio amarelo,
mas a vida seguiu seu rumo em frente.
Não dou ponto sem nó: depois da queda,
sacudo o pó e mando tudo à merda,
inconstitucionalissimamente.
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sábado, 30 de julho de 2016
Luís Antonio Cajazeira Ramos, "O funeral das mágoas"
Amadurece, meu rapaz! Contempla
a tua sepultura. Não a vês?
Quando te fores (não é dessa vez
um sonho), que não seja de surpresa.
Tua cova é tão rasa... Avistas fácil-
mente o final de solidão dos séculos,
se séculos tivesses (que não tens
mais nada) a refletir no chão do túmulo.
A certeza da morte expõe a vida,
que te pesa e mal levas. Que mal levas,
se levaste a vida com leveza?
Não te leves a mal, a bem, a sério.
Vê só que leves e humoradas são
as mágoas a pesar teu coração.
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Luís Antonio Cajazeira Ramos,"Nunca mais serei eu mesmo"
Cada último poema é o último, pois
nada há mais a dizer depois, pra nunca mais,
que sempre, se me entrego ao verso, é totalmente
- mais nada sobra em mim, vazado, mais que sempre.
Toda em cada verso, a poesia (que mistério)
nunca se esgota ou esvai, pois, com seu próprio lastro,
está pra sempre inteira, pronta a um novo verso
- e cada novo poema é o novo! ... e eu sou o resto.
Se me dou por inteiro, o que sobra de mim?
Se me fluí no verso, perdi-me de vez...
- vez que, na alma do verso, só está quem o lê.
Sendo assim (que destino, esse meu!), pra me ter,
devo ler-me a mim mesmo no verso que fiz
- eu, que tenho essa imensa poesia a viver!...
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terça-feira, 2 de setembro de 2014
Luís Antonio Cajazeira Ramos, "Véspera do dia dos mortos"
Eu não amei meu pai como devia.
Houve o dia de amá-lo e não o amei.
Ele morreu, e não nasci ainda.
Amanhã levantei sem seu amor.
Nenhum conselho amigo soa seu.
Uma vida padrasta me acompanha.
Meu caminho não quis olhar pra trás.
Tão longe de meu pai me abandonei.
Nem meu, nem de ninguém, nunca fui seu.
Não me quis dar a quem eu estranhava.
Só teu colo, mamãe, era aconchego.
Do pai resta-me um calo de silêncios.
Ai, arranco do peito o corpo estranho.
Coração, cava o chão, busca meu pai.
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sábado, 10 de agosto de 2013
Luís Antonio Cajazeira Ramos, "Pantomina"
(Postagem para a Kel, do Incompletudes)
Os melhores cordeiros da fazenda
seguirão para o abate na cidade.
Os carneiros mais fracos do rebanho
serão sumariamente degolados.
O bode velho vai para o sacrifício,
por mais que seu olhar peça clemência.
Nem mesmo as cabritinhas inocentes
terão misericórdia ou esperança.
As carnes assarão ao sol: fogueira.
As peles secarão ao sol: curtume.
As vísceras suarão ao sol: carniça.
Os ossos sumirão ao sol: poeira.
Somente a ovelha negra fica impune,
enquanto o bom pastor toca sua flauta.
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