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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Xue Tao, "Peônia"


Deixaste-me no ano passado, no fim da primavera
Minhas lágrimas molham o papel vermelho* só de pensar nessa lembrança
Muitas vezes eu temi que estivéssemos separados para sempre
Porque nos revemos hoje, com uma alegria inesperada?
Tu me cercas de teus carinhos e do teu perfume que embriaga
Não precisamos de palavras, pois nos compreendemos ao menor sinal
Vamos colocar nossas almofadas perto da balaustrada
Cochicharemos nosso amor até altas horas.

* Na China, as cartas de amor são escritas geralmente em papel de cor vermelha.

Peônia, o título do poema, é uma planta que se cultiva pelas suas flores vermelhas. rosadas ou brancas.

Xue Tao (768-834) nasceu numa família rica e recebeu boa educação literária. Depois que a desgraça se abateu sobre seu pai, tornou-se prostituta, mas nunca abandonou a poesia. Alguns poetas e mandarins a ajudaram a sair da prostituição.

O poema foi traduzido do chinês para o francês por Shi Bo, e dai para o português por Sérgio Caparelli.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Shang Jinglan, "Eu choro a morte do meu marido"


Tu me deixaste, mas teu nome é imortal.
Triste, eu te serei sempre fiel.
Tu te sacrificaste por teus princípios.
Eu continuo a dar amor aos nossos filhos.
Tua desgraça pertence ao passado.
Agora, foi erguida uma estrela em tua memória.
De agora em diante, tu, morto e eu, viva,
Seguiremos dois caminhos diferentes.
Mas tua integridade e minha fidelidade
Vão sempre nutrir um ao outro.

Shang Jinglan (1596-1651) foi uma poeta da dinastia Ming. Seu marido foi castigado durante oito anos devido à sua franqueza, e, no fim da dinastia Ming, após ele organizar a resistência aos invasores manchus, se suicidou pulando num lago. 
Shang Jinglan escreveu este poema diante de sua tumba.

O poema foi traduzido do chinês para o francês por Shi Bo, e dai para o português por Sérgio Caparelli.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Wu Zetian, "Minha solidão"


Por minhas lágrimas de amor,
o vermelho fica verde.
De tanto pensar em ti,
meu corpo vira um esqueleto.
Não canso de chorar minha solidão,
abrir a mala e admirar sozinha
a saia* que costurei para te agradar.
  


*Na China antiga, a mulher apaixonada tinha sempre uma saia para vestir exclusivamente na presença do amado. Na sua ausência, a saia ficava guardada, e só saía do armário para festejar a chegada do amante.  

Wu Zetian foi uma poeta chinesa que viveu entre 624 e 705.

O poema foi traduzido do chinês para o francês por Shi Bo, e dai para o português por Sérgio Caparelli.





terça-feira, 24 de junho de 2014

Wei Wan, "A candeia tremula, brilhante, brilhante ..."


A candeia tremula, brilhante, brilhante,
e o relógio d´água pinga e pinga.
Agora que meu amor partiu,
A noite é muito fria. 


 O vento do oeste agita-se e me leva de volta ao meu sonho. 


Será que alguém sente minha falta,
Aqui, recostada sozinha ao meu travesseiro
De testa franzida?

Minha cortina de brocado e meus lençóis bordados

mostram a madrugada do outono.

A dor me parte por dentro,
Caio em lágrimas secretas.

Ainda vejo uma luz brilhante na minha pequena janela oeste.

Eu te odeio.
Eu te adoro.

Mas como você pode saber disso?

 

Wei Wan foi uma poeta chinesa que viveu por volta de 1050.

O poema foi traduzido do chinês para o francês por Shi Bo, e dai para o português por Sérgio Caparelli.
 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Du Fu, "O rio sinuoso"


Todo dia, ao voltar da audiência imperial,
        empenho minha roupa de primavera.
Vou para a margem do rio,
        e só depois de bêbado
        retorno à casa.
Dívidas de vinho,
        deixo penduradas em qualquer cabide.
Nessa vida, chegar aos setenta,
        é muito raro,
        desde os tempos antigos.
As borboletas esvoaçam
        sobre as flores.
e de tempos em tempos
        uma de mim se aproxima.
As libélulas roçam a água
        em seus leves voos.
Breve é o tempo
        de estarmos juntos.
Melhor gozá-lo,
        já que não obedece
aos nossos desejos.

Tradução de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi

Du Fu foi um poeta chinês que nasceu no ano de 712 e morreu em 770.

É interessante notar o que Horácio, que viveu em Roma entre os anos 65 a.C e 8 a.C, na ode "Carpe Dien" afirmou o mesmo que Du Fu. No entanto, com certeza Du Fu não conhecia a obra de Horácio.

Não indagues, Leucónoe, ímpio é saber,
          a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônicos:
          melhor é suportar
          tudo o que acontecer.

Quer Júpiter te dê muitos invernos,
          quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
          cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
          corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.

          Enquanto conversamos,
          foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos.

domingo, 4 de novembro de 2012

Wang Wei, "Sozinho na noite de outono"


Sentado, sozinho,
     na sala vazia,
antes de soar
     a segunda vigília,
lamento o branco
     em minhas têmporas.
Nas montanhas, tombam
     com a chuva as frutas,
e os insetos zumbem
     em volta da candeia.
Impossível impedir
     o branco nos cabelos,
assim como criar ouro:
     como se livrar da idade
e de seus incômodos?
     Melhor começar logo
o estudo do não ser.
   
Tradução de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi.

domingo, 14 de outubro de 2012

Wang Wei, "Na montanha"


Rochedos brancos
     da torrente emergem.
Folhas vermelhas,
     aqui e ali,
     sob o céu gelado.
Não choveu
     na trilha da montanha,
mas o azul do vazio
     molha nossas roupas.

Wang Wei foi um poeta chinês que viveu entre 701 e 761.

Tradução de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi.

sábado, 29 de setembro de 2012

Du Fu, "Contemplando a neve"


Batalhas, soluços,
     novos e velhos fantasmas.
Triste e só, um velho
     recita poemas,
     ao diáfano crepúsculo.
Em meio a nuvens baixas
     a neve, de repente,
     dança no turbilhão do vento.
Joguei fora a concha de vinho,
     pois a jarra está vazia
e, no braseiro, só há lembrança
     de brasas ardentes.
Nenhuma notícia
     de numerosas províncias.
Com o dedo, garatujo no ar
     a palavra dor.

Tradução de Sérgio Caparelli e Sun Yuqi.

Du Fu nasceu e viveu na China entre 712 e 770.