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quarta-feira, 28 de junho de 2017

Antonio Cicero, "Cidade"


                                                        Para Arthur Nestrovsky 

Lembro que o futuro era uma cidade 
nebulosa da qual eu esperava 
tudo e que, sendo uma cidade, nada 
esperava de ninguém. Ah, cidade 
sonhada de avenidas macadâmicas, 
turbas febris e prédios de granito: 
o que era que eu perdera e que, perdido 
e em cacos, buscava nas tuas áridas 
calçadas e esquinas? Hoje constato 
que a névoa do futuro do passado 
adensa-se dia a dia. De longe 
teus contornos são mais arredondados. 
Tu, cidade irreal, aos poucos somes: 
já anseio te rever e já te escondes. 


sábado, 15 de abril de 2017

Antonio Cicero, "Balanço"


A infância não foi uma manhã de sol:
demorou vários séculos; e era pífia,
em geral, a companhia. Foi melhor,
em parte, a adolescência, pela delícia
do pressentimento da felicidade
na malícia, na molícia, na poesia,
no orgasmo; e pelos livros e amizades
Um dia, apaixonado, encarei a minha
morte: e eis que ela não sustentou o olhar
e se esvaiu. Desde então é a morte alheia
que me abate. Tarde aprendi a gozar
a juventude, e já me ronda a suspeita
de que jamais serei plenamente adulto:
antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Antonio Cicero, "O fim da vida"


Conhece da humana lida
a sorte:
o único fim da vida
é a morte
e anão há, depois da morte,
mais nada.
Eis o que torna esta vida
sagrada:
ela é tudo e o resto, nada.


segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Rose Ausländer, "Espaço"


Ainda há espaço
para um poema

Ainda é o poema
um espaço

Onde se pode respirar

Tradução de Antonio Cicero

domingo, 5 de outubro de 2014

Antonio Cicero, "Eco"


A pele salgada daquele surfista
parece doce de leite condensado.
Como seu olhar, o mar é narcisista
e, na vista de um, o outro é espelhado.
E embora, quando ele dança sobre as cristas,
goste de atrair olhares extraviados
de banhistas distraídos ou artistas,
e claro que o mar é seu único amado.
Ei-lo molhado em pé na areia; folgado,
ao pôr-do-sol tem de um lado a prancha em riste
e usa do outro uma gata e um brinco e assiste
serenamente ao horizonte inflamado
e a brisa o alisa e enfim ele não resiste
à beleza e diz "sinistro" e ouve eco ao lado.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Antonio Cicero, "Solo da Paixão"

O solo da paixão não dura mais
que um dia antes de afundar, não mais
que esta noite ou esta noite e um dia
e o clarão da noite antes de amargar.
Um dia solar eu vou lhe entregar;
Que ele sequestre o mundo por um dia
(um dia só será que já vicia?)
Depois devolva tudo: terra  céu  e  mar.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Antonio Cicero, "Stromboli"*


Dormes,
Belo.
E eu não, eu velo
Enquanto voas ou velejas
E inocente exerces teu império.
Amo: o que é que tu desejas?
Pois sou a noite, somos
Eu poeta, tu proeza
E de repente exclamo:
Tanto mistério é,
Tanta beleza.


A ilha de Stromboli, no mar Mediterrâneo, foi onde Éolo, o Deus dos Ventos, deu a Ulisses um saco de couro onde estavam presos todos os ventos, exceto o "vento oeste", que o levaria de volta à sua ilha de Ítaca.


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Antonio Cicero, "Huis Clos"


Da vida não se sai pela porta:
só pela janela. Não se sai
bem da vida como não se sai
bem de paixões jogatinas drogas.
E é porque sabemos disso e não
por temer viver depois da morte
em plagas de Dante Goya ou Bosch
(essas, doce príncipe, cá estão)
que tão raramente nos matamos
a tempo; por não considerarmos
as saídas disponíveis dignas
de nós, que em meio a fezes e urina,
sangue e dor nascemos para lendas,
mares, amores, mortes serenas.

sábado, 3 de novembro de 2012

Antonio Cicero
















"Presente"

Por que não me deitar sobre este
gramado, se o consente o tempo,
e há um cheiro de flores e verde
e um céu azul por firmamento
e a brisa displicentemente
acaricia-me os cabelos?
E por que não, por um momento,
nem me lembrar que há sofrimento
de um lado e de outro e à frente
e, ouvindo os pássaros ao vento
sem mais nem menos, de repente,
antes que a idade breve leve
cabelos sonhos devaneios,
dar a mim mesmo este presente?

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Antonio Cicero, "O poeta marginal"


Em meio às ondas da hora
e as tempestades urbanas
conectarei as palavras
que trovarão novas trovas.
Lerei poemas na esquina.
darei presentes de grego;
a cochilar com Homero,
farei negócios da China.
Exporei tudo na rede
sem ganhar nem um vintém:
a vaidade, a fome a sede,
certo truque, rara mágica.
Que não se engane ninguém:
ser um poeta é uma África.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Antonio Cicero, "Onze e meia"


Quando a noite vem
um verão assim
abrem-se cortinas varandas
janelas prazeres jardins

Onze e meia alguém
concentrado em mim
no espelho castanho dos olhos
vê finalidades sem fim

Não lhe mostro todos os bichos que tenho de uma vez
Armo o circo com não mais do que uns cinco ou seis
leão camelo garoto acrobata
e não há luar
e os deuses gostam de disfarçar


segunda-feira, 20 de junho de 2011

Antonio Cicero, "Sair"

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul — o céu do dia —
­mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

Antonio Cicero, "Palavras Aladas"



Os juramentos que nos juramos
entrelaçados naquela cama
seriam traídos se lembrados 
hoje. Eram palavras aladas
e faladas não para ficar
mas, encantadas, voar. Faziam 
parte das carícias que por lá 
sopramos: brisas afrodisíacas 
ao pé do ouvido, jamais contratos.
Esqueçamo-las, pois dentre os atos 
da língua houve outros mais convincentes
e ardentes sobre os lençóis. Que esses, 
em futuras noites, em vislumbres 
de lembranças, sempre nos deslumbrem.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Antonio Cicero, "Como não te perderia ..."

Como não te perderia
se te amei perdidamente
se em teus lábios eu sorvia
néctar quando sorrias
se quando estavas presente
era eu que não me achava
e quando tu não estavas
eu também ficava ausente
se eras minha fantasia
elevada a poesia
se nasceste em meu poente
como não te perderia

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Antonio Cicero, "Guardar"




Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Antonio Cicero



"Diamante"
O amor seria fogo ou ar
em movimento, chama ao vento;
e no entanto é tão duro amar
este amor que o seu elemento
deve ser terra: diamante,
já que dura e fura e tortura
e fica tanto mais brilhante
quanto mais se atrita, e fulgura,
ao que parece, para sempre:
e às vezes volta a ser carvão
a rutilar incandescente
onde é mais funda a escuridão;
e volta indecente esplendor
e loucura e tesão e dor.

Copiado do site http://www.antoniocicero.blogspot.com/