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sábado, 14 de maio de 2016

João Carlos Teixeira Gomes, "Portal de segredos"


Olhei a minha cara e vi a morte
nela estampada, sem bijuterias.
E disse para mim: "Terna consorte,
ó verduga amorável dos meus dias!"

Não julguei desprovida a minha sorte
no embalo de veludo das mãos frias
e senti que era doce o canto forte
com que ela me envolveu em melodias.

Ó estranha mulher, sempre ultrajada,
verde morte de rude olhar tristonho,
riso discreto em face escaveirada,

quanto mentem por ti humanos medos,
pois não passas, enfim, de um longo sonho,
ou o portal de mágicos segredos.

domingo, 3 de abril de 2016

João Carlos Teixeira Gomes, "Odore di femina"

Senti os cheiros da mulher amada
num embalo floral de mil alentos,
tal a doce fragrância revelada
em seu jardim de mágicos acentos.

Quanto amei essa rosa marejada,
maior foi meu farnel de desalentos,
por saber, em paixão desatinada,
que um peito de mulher só gera ventos.

Ó musa dos perfumes traiçoeiros
que me tens sem razão, tonto e rendido,
ao feitiço que exalas com teus cheiros,

nesse jogo de amor enlouquecido,
até a primavera, nos outeiros,
a teu corpo cedeu cetro florido.

terça-feira, 1 de março de 2016

João Carlos Teixeira Gomes, "Soneto da Lição Zoológica"


Quando menino nunca amei leões.
Preferi os animais mais delicados.
Por patos mansos e por camaleões
meu zoo infantil era habitado.

Tive um cão que foi predestinado:
por sua amada se perdeu em fuga.
E um gafanhoto místico e alado
que pulava mais alto que uma pulga.

Amei abelhas, lagartos, formigões
e galos magros de expelir auroras...
Fiéis amigos que foram embora!

Todos eles me encheram de lições
de ternura que, homem, desaprendi.
De leões só vim saber quando cresci.


sábado, 30 de janeiro de 2016

João Carlos Teixeira Gomes, "Soneto da morte sem susto"


Minha única certeza é minha morte.
Virá festiva, com pendões vermelhos,
Provocadora com seu riso forte.
Mas me verá de pé, não de joelhos.

Pode vir de mansinho a forasteira
Ou numa orgia de ossos e fanfarras,
Com dois laços de fita na caveira
E o ágil chocalhar das finas garras.

Eu que os mares amei, e o sol tirânico,
Os flavos grauçás de dorso enxuto,
As moças de maiô e o vento atlântico,

Sereno hei de esperá-la em meu reduto.
E assim ao ver-me, sem sinal de pânico,
A própria morte se porá de luto.