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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Odylo Costa, filho, " A meu filho"


Recorro a ti para não separar-me
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.

Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.

Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.

Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Odylo Costa, filho












"Um só amor"

Amores? Não. Cantei um só amor.
Não me arrependo da monotonia
nem de cantar a posse e o possuidor.
Se abelhas mansas dentro em mim havia

por que negar o voo para a flor?
Até na momentânea nostalgia
nossa pátria era a mesma.  A própria dor
uniu mais do que junta uma alegria.

Chegou a noite e seu silêncio mas
para aclarar o mundo a luz secreta
em teu cabelo pôs manchas de prata.

E teço versos como que refaz
a vida.  Todo o meu mister de poeta
é de amor: madrigal e serenata.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Odylo Costa, Filho, "Arte poética"


Assim, amigo, desejaria eu escrever:
como um galho de árvore seca
entretanto úmido da noite.
Como quem estende a mão, esquecido de si próprio,
aos que a dor ameaça afogar em desespero,
num ímpeto de secreta fraternidade.
Despreocupado e quotidiano como a conversa
dos que não sabem que em breve vão morrer de repente.
Sem adormecer a consciência de ninguém
mas sem tirar o sono a nenhum corpo.
Modesto como quem serve à mesa
leve como quem fala com menino
natural como os bichos na floresta
teimoso como quem quebra pedra no sol.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Odylo Costa, filho, "O Testamento de Dom Sebastião"


Não foi para esquecer minha fraqueza carnal que vim à guerra 
mas para retomar a visão do Imperador: 
a vitória virá com o Sinal da Cruz nos céus. 
Mas, se Deus não me julgar digno, 
quero findar, no campo de batalha, 
comigo mesmo e o grande sonho do Esperado, 
ouvindo ainda, dentro de mim, 
o ressoar do grito de alegria do povo quando nasci, 
homens e mulheres correndo nas ruas de Lisboa, acordadas noite 
                                                                            [ alta, rumo à Sé: 
— O Desejado! O Desejado! 

Sei que os Embaixadores de Espanha murmuram 
porque nunca levantei olhos para dona, 
esqueço-me no jogo de canas todo um dia, 
mas nem por um instante espio as janelas, 
e só me prometem a Infanta por ser muito menina.

Meu corpo não se fez para corpo delicado de mulher, 
nem permito que toquem minhas mãos com suas mãos 
- quando me servem o vinho nas copas de louça -
para não tentar minha castidade cristã, prometida em confissão. 

Nos dedos de minha Mãe, nesses confiaria, 
repousaria, 
me esqueceria, 
mas minha Mãe partiu e não a conheci: 
tinha eu cem dias, de nada me lembro, 
tinha eu cem dias: pela última vez lhe suguei o leite do seio. 
Nunca mais a vi — e era homem feito e rei quando morreu. 
Nem ao menos recordo seus cabelos, seus olhos, seu rosto. 

Fui órfão de mãe viva 
mas sei, por ouvir toda manhã, com o Padre Nosso, 
e à tarde, com a Ave Maria das vésperas, 
que era louçã, perfeita na carne e no espírito. 
Sei também que nunca deixou de pensar em mim 
e mandou médicos de Castela para cuidar desta minha timidez 
                                                                         [ diante das mulheres. 
Sua presença é que me libertaria, pobre de Minha Mãe, 
filha do Imperador, princesa de Espanha — e sempre viúva!
Sozinha até na morte dolorosa.

Quanto a mim, sou belo e forte mas desconforme, 
tenho cabelos louros e olhos azuis, 
a assimetria dos escolhidos, o belfo e os sangues dos Austrias,
e às vezes atravesso as noites sem dormir, 
sonhando sem sono o Mundo e os novos mundos. 
Se me canso na caça não é por sede de sangue 
mas para que o cansaço mate a insônia. 
Não vim para possuir ou ser possuído, 
pois as mulheres enfraquecem o Herói 
e não quero morrer de amar — como meu Pai.

Não me imagino Rei, 
sentado, 
imóvel, 
doméstico, 
brincando como o príncipe francês, 
adoçado por presenças infantis. 
Nem quero gerar filhos 
porque sei que os teria de matar:
meu próprio primo conheço como foi que morreu. 

Sei também 
que é no papel que agora se criam impérios, 
mas detesto o papel e as artes da escrita 
porque distraem as mãos que mudam a História. 

Neto de João Terceiro e Carlos Quinto, 
sou o Capitão de Cristo. 
Somente? Somente. 
Mas haverá missão maior? 
Mando mais alto? 
Sonho África não pelos escravos 
mas pelo areal sem árvores. 
Hei de ajoelhar os mouros 
diante da Cruz de Nosso Senhor.

Mandei a meu tio Filipe, num casco de ouro puro, 
meu desprezo pelas riquezas do mundo, manejadas 
                                                             [dos gabinetes, 
meu amor da glória nos combates. 

Meus soldados trouxeram guitarras na bagagem,
eu, uma coroa cerrada de César 
para quando a vitória me coroar Imperador, 
— só, entre os meus, Eu, puro, diante de Deus!
Espero o sinal de Sua vontade. 
Ele, só Ele, pode o milagre e a conquista do Gral. 
Não sou homem do mar mas da peleja em terra 
e da armadura de prata. 
Confio na mão de Deus! 
Se perder, pelo peso e culpa dos meus pecados, 
não pela pouca fé do meu povo, 
capaz de preferir os cilícios de ferro às roupas de seda, 
se perder, meu Deus!… 
a morte não me reconhecerá de tão mudado que estarei.
Montado em meu cavalo sabedor,
investirei contra os homens e a sorte, 
para mergulhar no desconhecido. 
Sei que nenhum português ficará vivo 
vendo seu Rei morrer.

Caladas as violas do acampamento, 
desaparecerei banhado em sangue que não será somente meu. 

Ressurgirei num touro manso. 
desfeito em areias brancas, 
do outro lado do Oceano.


Dom Sebastião, rei de Portugal, desapareceu em 1578, aos 24 anos, na batalha de Alkacer Quibir, no Marrocos.  Na ilha de Lençóis, no litoral do Maranhão, terra do autor, há uma lenda que ele reaparece de noite, cavalgando nos areais.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Odylo Costa, filho















"Soneto da fidelidade"

Não receies, amor, que nos divida
um dia a treva de outro mundo, pois
somos um só que não se faz em dois
nem pode a morte o que não pode a vida.

A dor não foi em nós terra caída
que de repente afoga mas depois
cede às forças das águas. Deus dispôs
que ela nos encharcasse indissolvida.

Molhamos nosso pão cotidiano
na vontade de Deus, aceita e clara,
que nos fazia para sempre num.

E de tal forma o próprio ser humano
mudou-se em nós que nada mais separa
o que era dois e hoje é apenas um.

Na foto, Odylo junto com sua mulher e musa, Maria de Nazareth Pereira da Silva Costa, a Nazareth.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Odylo Costa, filho, "Soneto dos cinquent'anos"


Não sinto como o herói do mestre egrégio:
estou com os homens e com deus contente.
Revejo-me dos tempos de colégio,
aceito o meu passado e o meu presente.

A dor que deus me deu, aceito-a. Ponho
máscaras mansas no meu sofrimento.
Não quero mais que tenho, nem proponho
mesmo esse pouco dissipar no vento.

Tudo se foi, mas tudo está presente:
o rio, os bois, as árvores da infância,
meu Pai, severo, minha Mãe, paciente.

Faltam-me o olhar e a voz desse menino,
mas desce do seu gesto, na distância,
a força que enfrento o meu destino.

sábado, 23 de maio de 2015

Odylo Costa, filho, "Soneto da esposa"


Porque não cansa o nosso amor, Senhora,
e vive novo, infante entre os infantes,
brincando as invenções pueris do agora
sem as tristezas vesperais de antes?

Por que não envelhece, e cada hora
não deixa rastro - como os navegantes
que se perderam no mar? Por que, embora
machucado de dores ofegantes,

conserva a graça da manhã nascente?
Por que pisa de leve, e só de manso
chora? Por que ri mesmo no poente?

Talvez, quem sabe?, a luz desse remanso
venha das mãos de Deus. Talvez apenas
seja o lado de lá das nossas penas.

domingo, 1 de março de 2015

Odylo Costa, filho, "Um pombo: a tormenta"


Num buraco da pedra refugiou-se
um pombo, só, sem companhia alguma.
A tarde, até então tranquila e doce,
vestiu-se de relâmpagos e bruma,

e a chuva esvoaçou, como se fosse
feita de voo mas também de pluma,
e na explosão que a trovoada trouxe
desfizeram-se as nuvens, uma a uma,

e caíram nas calhas feitas águas
e a água em saudade se mudou de bica...
Água da infância nos lavou a cara...

E como o estouro de uma grande mágoa
que atrás dos olhos quer ficar, não fica,
vi que o pombo nas águas revoara.

E enfrentava a tormenta cara a cara.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Odylo Costa, filho, "Amor calado"


Ainda que o canto desça, de atropelo
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,


juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.


E nunca mais proclamarei que te amo.
Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.


Que se cale este verso em que te chamo.
Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Odylo Costa, filho, "A meu filho"


Recorro a ti para não separar-me
deste chão de sargaços mas de flores
em que há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.

Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.

Não deixeis, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.

Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.

sábado, 9 de março de 2013

Odylo Costa, filho, "Soneto"


A adolescente era a palmeira esguia
De tranças. Mas no mel de seu cabelo
Tal mistério morava que devê-lo
A alma desesperada renascia.

Era a Beleza? A simples alegria?
Era a presença de sutil desvelo?
Era a graça. era o corpo, era a poesia?
Era a saudade do materno zelo?

Era a esperança, a fé, a caridade?
Impossível dizê-lo, com certeza.
Mas nela havia tanta eternidade

Que pôs Nossa Senhora do Bom parto
Nove bocas em torno à nossa mesa
E uma sombra perene em nosso quarto.