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sábado, 10 de setembro de 2016
Dante Milano, "Monólogo"
Estar atento diante do ignorado,
Reconhecer-se no desconhecido,
Olhar o mundo, o espaço iluminado,
E compreender o que não tem sentido.
Guardar o que não pode ser guardado,
Perder o que não pode ser perdido.
- É preciso ser puro, mas cuidado!
É preciso ser livre, mas sentido!
É preciso paciência, e que impaciência!
É preciso pensar, ou esquecer,
E conter a violência, com prudência,
Qual desarmada vítima ao querer
Vingar-se, sim, vingar-se da existência,
E, misteriosamente, não poder.
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Dante Milano, "Salmo perdido"
Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade.
Um deus moderno, deus de guerra e, não, de paz.
Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.
O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.
Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
Dante Milano, "Poemas de um verso "
Sou Poesia, não sei me traduzir.
O amor é só um, para nós dois.
SÓ
Chorou nas mãos, chorou nas próprias mãos.
RAIZ
Sinto uma coisa que me prende à terra - a dor.
VIAGEM
Deus disse um dia ao homem: "Vai, mas volta".
ESCRAVA
Quem nunca vendeu sua alma não sabe quanto ela é pura.
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Dante Milano, "A fonte"
Espelha-te na fonte de Narciso,
Olha bem para a forma de teu corpo,
Vê a tua figura refletida
E parecida com teu corpo morto.
Não és mais que uma sombra nua e fria,
Tremulamente aparecendo à tona
D'água, reflexo desmaiado, imagem
Afogada, boiando sobre uma onda.
Namora-te da tua formosura
E não tremas de ver no fundo espelho
Aquela verdadeira face tua,
Aparência sem luz, nulo fantasma,
Qual se estivesses morto. É o teu aquele
Sorriso que extasia a face da água.
quarta-feira, 19 de dezembro de 2012
Dante Milano, "Homenagem a Camões"
Através de imitado sentimento,
Ao ler-te quanta vez tenho sentido
Como é muito maior o amor vivido
Em ato, não, mas só em pensamento.
Então invento o que amo e amo o que invento
Em coisas sem razão tão comovido
Que o ar me falta e o respiro comprimido.
Não sei se dá, não sei se tira o alento.
Sabor de amor é este alto respirar,
Essa angústia em suspiros mal dispersos,
Em amor, que importância tem o ar,
O ar, cheio de fantásticas ações!
Assim, aquele que imitar teus versos,
Primeiro imite o teu amor, Camões.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Dante Milano, "Textos sobre literatura"
Como considerar "antiga" uma obra de arte que vai ser vista "pela primeira vez" por futuras gerações e provocar-lhes o estupor e a admiração?
Tal obra é antiga, moderna e futura.
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domingo, 25 de novembro de 2012
Dante Milano, "Um dia"
Era a manhã uma hora de agonia,
Uma mortalha lívida e suada.
Entreabria-se o espaço, imenso nada.
Ante a face de um sol que não sorria,
O princípio da luz, a luz manchada,
Mostrava de que treva surge o dia.
Era a manhã esquálida e vazia,
sem luzes, sem estrelas, apagada.
Era o dia sem sonhos. Só se via
O abismo do ar. Um cerro esbranquiçado.
Sobre o cerro, uma nuvem... Parecia
Que eu havia morrido e despertado
Na claridade pálida de um dia
sem luzes, sem estrelas, apagado.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Dante Milano, "Se o fruto já maduro ..."
Se o fruto já maduro da experiência
Me deu de amor algum conhecimento,
Só sei dizer que o seu entendimento
É saber que transcende toda ciência.
Com que palavras o direi? — "Paciência"
Ou "Impaciência", "Alento" ou "Desalento".
Quereis outra palavra? "Alheamento".
Outra? "Presença" ou sua igual "Ausência".
Esquecimento de si mesmo: olvido.
Quantas vezes morri sem ter morrido,
Sem sentir ao morrer nenhuma dor.
Nem a morte é culpada de tal morte,
Até a deseja o amante em seu transporte:
Só ela é eterna como o seu amor.
domingo, 4 de julho de 2010
Dante Milano, "O amor de agora é o mesmo amor de outrora"
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
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