segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Carlos Pena Filho, "Soneto"
Por trás do musgo silencioso e espesso
que cresce no teu ventre desolado,
nasce um mundo obscuro e inusitado
que eu não sei se mereço ou desmereço.
Sei apenas que às vezes, quando teço
canções noturnas do prazer frustrado,
sou, nem sei porque sombras, exilado
para além do meu fim e meu começo.
Esse teu mundo, concha que é morada
de anêmonas e polvos, é mais raro
que a luz de Deus na noite abandonada.
E é por isso talvez que não se entrega
e me deixa a esperar teu corpo claro
de fêmea esquiva que ao prazer se nega.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Carlos Pena Filho, "Soneto da sexta-feira da Paixão"
Morto. Como também já morre o dia
mas continua a ser noutros lugares?
Ou morto diariamente nos altares
Por ser diversa a morte que morria?
O corpo morto: azul melancolia
do mesmo azul perdido pelos ares,
Vivo azul sobre os campos sobre os mares,
Sobre a clara manhã ou a hora tardia.
Um corpo morto. Um corpo morto de homem
Igual a esses cadáveres de guerra
Que as batalhas atraem e consomem?
Ou um que junta o mundo à sua sorte,
Contempla a sombra em torno e desce à terra
E morre em solidão e vence a morte.
sábado, 10 de novembro de 2012
Carlos Pena Filho
"D.Sebastião, a caminho da África"
A Ariano Suassuna
Olhai, Senhor, para estas naus e vede
a quanto obrigam reino e cristandade;
atrás de nós já se ergue esta parede
de vento e mar e tempo e soledade
e à frente nos esperam sol e sede
e, mais que sede e sol, crua saudade
que pelas noites sem limites há de
frequentar nosso abismo impuro. Sede
pois tão piedoso e justo quanto deve
ser um Deus para um servo e um soldado
que à proeza tamanha enfim se atreve
só porque julga ser do vosso agrado.
Mas não deixeis que volte sem vitória:
embora perca a vida, encontre a glória.
sábado, 18 de junho de 2011
Carlos Pena Filho
Carlos também,
embora sem
flores nem aves,
vinho nem naves,
eu te remeto
este soneto
para saberes,
se acaso o leres,
que existe alguém
no mundo, cem
anos após,
que não vaiou
e nem magoou
teu albatroz.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Carlos Pena Filho, "Para Fazer um Soneto"
Tome um pouco de azul, se a tarde é clara
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.
Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.
Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.
Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Carlos Pena Filho, "Retrato na Praia"
Ei-la ao sol, como um claro desafio
ao tenuíssimo azul predominante.
Debruçada na areia e assim, diante
do mar, é um animal rude e bravio.
Bem perto, há um comentário sobre estio,
mormaço e sonolência. Lá, distante,
muito vagos indícios de um navio
que ela talvez contemple nesse instante.
Mas o importante mesmo é o sol, que esse desliza
por seu corpo salgado, enxuto e belo,
como se nuvem fosse, ou quase brisa.
E desce por seus braços, e rodeia
seu brevíssimo e branco tornozelo,
onde se aquece e cresce, e se incendeia.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Carlos Pena Filho, "A Solidão e sua Porta"
Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).
Quando pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha
a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

