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quarta-feira, 4 de março de 2015

Raul de Leoni, "A hora cinzenta"


Desce um longo poente de elegia
Sobre as mansas paisagens resignadas:
Uma humaníssima melancolia
Embalsama as distâncias desoladas...

Longe, num sino antigo, a Ave-Maria
Abençoa a alma ingênua das estradas;
Andam surdinas de anjos e de fadas,
Na penumbra nostálgica, macia...

Espiritualidades comoventes
Sobem da terra triste, em reticência
Pela tarde sonâmbula, imprecisa...

Os sentidos se esfumam, a alma é essência
E entre fugas de sombras transcendentes,
O Pensamento se volatiliza...

sábado, 31 de janeiro de 2015

Raul de Leoni, "Vivendo"


Nós, incautos e efêmeros peregrinos,
vaidosas sombras desorientadas,
Sem mesmo olhar o rumo das passadas
- Vamos andando para fins distantes...

Então, sutis, envolvem-nos ciladas
De pequenos acasos inconstantes,
Que vão desviando a todos os instantes,
A linha leviana das estradas...

Um dia, todo a fim a que chegamos,
Vem de um nada fortuito, entretecido
Nas surpresas das horas em que vamos...

Para adiante! Ó ingênuos peregrinos!
Foi sempre por um passo distraído
Que começaram todos os destinos...

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Raul de Leoni












"Confusão"

Alma estranha esta que abrigo,
Esta que o Acaso me deu,
Tem tantas almas consigo,
Que eu não sei bem que sou eu.

Jamais na vida consigo
Ter de mim o que é só meu;
Para supremo castigo,
Eu sou meu próprio Proteu.

De instante a instante, a me olhar
Sinto um pesar profundo,
A alma a mudar ... a mudar ...

Parece que estão, assim,
Todas as almas do Mundo
Lutando dentro de mim.


Proteu  é um deus da mitologia grega. Por ter o dom de adivinhar o futuro, atraía muitas pessoas. Mas por não gostar de contar suas premonições, quando algum humano se aproximava, ele fugia ou assumia aparências monstruosas.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Raul de Leoni, "História antiga"


No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube por que foi... um dia,
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

Desde então, transformou-se de repente
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para frente...

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,

E eu sinto, sem, no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...