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quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Alphonsus de Guimaraens Filho, "Louvação"


                         I

Nem sei se blasfemei. Se blasfemei,
Deus passe um pano sobre tanto sujo.
Sinto-me exausto numa torre cujo
vértice tento atingir e não verei.

Nem sei se blasfemei. Apenas sei
que muita vez suponho que em vão rujo,
que me rebelo eu, um caramujo
que nem minha própria casa salvarei.

Nem sei , nem sei se blasfemei. Apenas,
olhando agora para trás, concluo
que eu devia cantar ou ter cantado

não os meus males só, não minhas penas,
mas a Beleza em que já me diluo,
em que me integro, Deus seja louvado.


                     I I

Louvado seja Deus! Seja louvado
pelos que não merecem nem louvá-Lo.
E, de louvado, passe a ser halo
de louvação por sobre o exasperado.

E de louvado passe a ser, e a dá-lo,
um resplendor por sobre o apagado
e cego humano amor alucinado
capaz (tão triste amor!) de desprezá-Lo.

De desprezá-Lo? De esquecê-Lo, digo.
De negá-Lo também. E, sem suporte
qualquer, julga-se pleno e desbordante

de certeza e de paz, seu próprio abrigo.
Louvado seja Deus, tempo adiante.
Louvado em nossa vida. E em nossa morte.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Alphonsus de Guimaraens Filho, "Esta noite"


Esta noite terrível, tão terrível,
Tão profunda, tão noite. Debruçado
Sobre as teias de sombras do invisível,
O homem quer o silêncio iluminado.

Intermitente frêmito dorido,
Percute em tudo um canto que atravessa
O céu longínquo já de nós perdido,
Mas onde atrai um sonho que não cessa.

Fria noite total! Nela se apreende
Luz há muito apagada e dissolvida
Como um sopro de treva que se rende
À ânsia de claridade - a própria vida.

Somos canto, não mais, e navegando
Noturnos somos, cegos, esperando.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Alphonsus de Guimaraens Filho, "Ventava"


Ventava muito. Era a hora
estranha em que luz, se havia,
se misturava à agonia
que, em todos, tudo estertora.

Ventava em dias perdidos,
vidas perdidas...Ventava,
e a noite se dispersava
nos mortos, cegos, feridos.

Ventava nas guerras idas,
guerras de sempre... Ventava,
e o coração abrigava
faces desaparecidas.

Ventava. Ventava tanto
que o mundo convulsionava
a escuridão que ventava
de dor, de sangue, de espanto.

E o coração pressentia
que nada mais o amparava
senão a chama que uivava,
de irrecuperável dia.


quinta-feira, 9 de maio de 2013

Alphonsus de Guimaraens Filho, "É dia, sim"


É dia, sim; também é uma terrível
esperança, não sei em que fundada.
Tudo em nós é o ofego do invisível;
cai nossa mão na luz, paralisada.

E de tudo - fungível, infungível -
de tudo esta corola decepada.
Alguém te diz além: "Sim, é possível"
Mas sabes que já não é possível nada.

Relê teus versos, pois relê! Percorre
teus papéis empilhados, nas estantes
procura o livro que ninguém teria.

Ou então, deita-te aí, deita-te e morre,
morre por todos os agonizantes,
pleno do sol de um nunca visto dia.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Alphonsus de Guimaraens Filho, "Manuel Bandeira"


Que fraterna ternura não te inclina
ao que é simples e puro, ao que na vida
resta humilde, perdido, e a comovida
alma recebe e, amando-o, se ilumina!

Um camelô ingênuo é que te ensina
doce lição de infância... A voz dorida
lembra os carvoeirinhos...E em surdina
a criança que a criatura já vivida

leva no peito, canta... A permanência
da infância é que te assegura tal pureza
à poesia que de tudo extrais,

a poesia, fonte de inocência,
que transfigura a humana natureza
e em ti palpita como em mais ninguém.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Alphonsus de Guimaraens Filho, "Que"

Que fizemos a Deus ou que fez Deus a nós
para que a vida fosse este silêncio atroz?

Para que a vida fosse este vocabulário
que parece a aflição de peixes num aquário ?

Que fizemos a Deus por que Ele se doesse?
Ou que fez Deus a nós para que estremecesse

o precário pilar do nosso espanto
com a esperança (não mais) de ouvir-lhe a voz e o canto ?

quarta-feira, 21 de março de 2012

Alphonsus Guimaraens Filho, "Segundo soneto dos oitenta anos"


O eterno indagar: porque chegamos?
E na viagem que se segue inquieta
e trepidante, quem em nós secreta
pungir ou alegria indecifrados,

que se fundem, que se esvaem, quando vamos ?
Cada década se esfaz e como pesa,
depois, sentir o ido! O que preza
é algo que veio num rolar de dados.

Mas eis-me aqui, jungido a esse momento
em que tudo é um volver para o já sido
que eu busco em vão nos meus desvãos reter,

vendo que a sombra de um veleiro lento
é tudo o que restou de um cais partido
onde espantoso mar devora o ser.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Alphonsus de Guimaraens Filho, "Nó"


Por que fizeste de mim um nó?
Por que ao só
adivinhá-lo, sem desfazê-lo,
todo estremeço?

Por que turvei-me
escureci-me
ao iracundo
ruir de muros de um passado
nunca existido?

Dize se estou!
Dize se tudo
não é só
este crespo, irritante nó
em que me torço, em que retorço
a sombra do que fui, buscando
o que era agora e já foi quando,
o que, se salva, nos aniquila,
luz que mais punge quando tranquila,
sol de perdido céu nunca visto,
dor de querer ver além disto,
multicegado?

sábado, 10 de março de 2012

Alphonsus de Guimaraens Filho, "Passagem"


Quantos olhos agora
(e no entanto cegos)
me espiam.

Quantas bocas ainda
(e no entanto mortas)
me falam.

Quantas mãos amigas
(no entanto paradas)
me afagam.

Quantos braços, quantos
(já no entanto ausentes)
me abraçam.

Vou por uma rua
que sequer existe
e acolhe

meus passos na cidade
que já é tão outra
num mundo

que já é tão outro
e meu coração oscila
e meu coração

se aflige e há uns cantos
e há vozes e choros
tão outros.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Alphonsus de Guimaraens Filho, "A todos os poetas"

A todos vós que um dia pressentistes
os passos alumbrados da poesia
na vossa alma soar — saudoso dia
que mais humanos, graves, e mais tristes

para sempre vos fez... A todos vós
que, amando, o amor sentistes impossível,
que, vendo o mundo, amastes o invisível,
e, ouvindo o canto, ouvistes nele a voz

de um reino imerso em névoa como clara
ilha na solidão... E deslumbrados
as palavras no vácuo erguestes para

reanimá-las e reacendê-las,
a todos vós o céu acolhe, consolados
pela luz da mais casta entre as estrelas.