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segunda-feira, 3 de abril de 2017

Jorge Luis Borges













"Borges e eu"

Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e me demoro, talvez já mecanicamente, para olhar o arco de um saguão e a porta envidraçada; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson; o outro compartilha essas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atributos de um ator. Seria exagerado afirmar que nossa relação é hostil; eu vivo, deixo-me viver, para que Borges possa tramar sua literatura, e essa literatura me justifica.Nada me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, senão da linguagem ou da tradição. Quando ao mais, estou destinado a perder-me, definitivamente, e apenas algum instante de mim poderá sobreviver no outro.  Pouco a pouco lhe vão cedendo tudo, se bem que me conste seu perverso costume de falsear e magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. Eu hei de permanecer em Borges, não em mim (se é que sou alguém), porém me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou do que no laborioso zangarreio de uma guitarra. Faz anos tratei de livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos são agora de Borges e terei de idear outras coisas.  Assim minha vida é uma fuga, e tudo eu perco, e tudo é do esquecimento, ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.

Tradução de Rolando Roque da Silva

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

John Cage, "Trecho da "Conferência sobre o nada", com Augusto de Campos".





"Eu estou aqui e não há nada a dizer.
Se algum de vocês quiser ir a algum lugar,
pode sair a qualquer momento.
O que nós requeremos é silêncio, 
mas o que o silêncio requer
é que eu continue falando.

Dê ao pensamento de alguém um empurrão;
ele cai logo...
Mas o que empurra e o empurrado
produzem esse entre-tenimento chamado dis-cussão. 

Vamos ter uma daqui a pouco?
Ou podemos decidir não ter uma dis-cussão?   
Como vocês quiserem...

Mas...

                agora     há       silêncios.

E as palavras fazem,

ajudam         
                   a fazer os silêncios...

Eu não tenho nada a dizer 
                                          e estou dizendo.

E isto é Poesia, como eu quero agora".


Pescado na internet:

Em agosto de 2011, no TUCA, em São Paulo, Vanderley Mendonça gravou num celular Augusto de Campos lendo sua tradução de um texto que John Cage leu na sua "Conferência sobre o nada".

Música: "In a Landscape (1948)", de Cage, por Stephen Drury