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quarta-feira, 27 de junho de 2018
Cecília Meireles, "Quarto motivo da rosa"
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
sábado, 2 de junho de 2018
Cecília Meireles, "1º Noturno da Holanda"
O rumor do mundo vai perdendo a força,
e os rostos e as falas são falsos e avulsos.
O tempo versátil foge por esquinas
de vidro, de seda, de abraços difusos.
A lua que chega traz outros convites:
inclina em meus olhos o celeste mapa,
desmorona os punhos crispados do dia,
desenha caminhos, transparente e abstrata.
Arvores da noite... Pensamento amante...
- Transporta-me a sombra, na altura profunda,
aos campos felizes onde se desprende
o diurno limite de cada criatura.
É a noite sem elos... Inocência eterna,
isenta de mortes e natividades,
pura e solitária, deslembrada, alheia,
mudamente aberta para extremas viagens.
Eu mesma não vejo quem sou, na alta noite,
nem creio que SEJA: perduro em memória,
à mercê dos ventos, das brumas nascidas
nos dormentes lagos que ao luar se evaporam.
Recebo teu nome também repartido,
quebrado nos diques, levado nas flores...
Quem sabe teu nome – tão longe, tão tarde,
tão fora do tempo, do reino dos homens...?
quinta-feira, 17 de maio de 2018
Cecília Meireles, "Convite melancólico"
Vinde todos, e contemplai-nos:
que somos os da terra fatigados,
de cabelos hirsutos
e de joelhos sem força,
com palavras, paisagens, figuras humanas
pregadas para sempre em nossa memória.
Já nem queremos nada,
tanto estamos desgostosos:
nem água nem ouro nem beijo.
Para nunca mais – o horizonte e a sua flor!
Podeis vir, que já se extinguiram as revelações.
Nada vos custa o espetáculo.
Rasgou-se o traçado em que nós gastamos em sonho,
e a arquitetura que trazíamos
voa de novo, em números celestes.
Vinde e contemplai-nos, que entardece.
Nossas sombras caminham para o reino da Sombra.
Nunca mais sabereis como foram os nossos olhos:
vinde vê-los para (se isto ainda se repetir)
vossos filhos reconheceram prontamente
os modos e o destino dos que apenas amaram,
e passaram,
amarrados,
eles, que tinham vindo
mostrar apenas o divino dinamismo!
sexta-feira, 13 de abril de 2018
Cecília Meireles, "Entre lágrimas se fala..."
Entre lágrimas se fala
- e Deus sabe o que se sente!
Mas de longe não se escuta
nem se entende.
A voz é rouca e dorida
e a distância, tão penosa...
Quem sofre já não se espanta:
cala e chora.
Apenas, uma pergunta
às vezes, tímida, ocorre:
para que, noites e dias,
chora e sofre?
Quando amanhã todos formos
a mesma terra perdida,
ninguém saberá das dores
que sofria.
Onde o lábio sem resposta?
Onde, os olhos ainda cheios...?
Onde, o coração que havia?
Onde o peito?
De tão longe, não se escuta.
Não se escuta e não se entende.
Deus, entre as lágrimas fala:
- não se sente.
sábado, 7 de abril de 2018
Cecilia Meireles, "Venturosa de sonhar-te ..."
Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)
-Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!
Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para lever-te comigo
é suspiro e pensamento.
-Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!
quarta-feira, 28 de março de 2018
Cecília Meireles, "Canção"
Eras um rosto
na noite larga
de altas insônias
iluminada.
Serás um dia
vago retrato
de quem se diga:
“o antepassado”.
Eras um poema
cujas palavras
cresciam dentre
mistério e lágrimas.
Serás silêncio,
tempo sem rastro,
de esquecimentos
atravessado.
Disso é que sofre
a amargurada
flor da memória
que ao vento fala.
segunda-feira, 5 de março de 2018
Cecília Meireles
"Infância"
Levaram as grades da varanda
por onde a casa se avistava.
As grades de prata.
Levaram a sombra dos limoeiros
por onde rodavam arcos de música
e formigas ruivas.
Levaram a casa de telhado verde
com suas grutas de conchas
e vidraças de flores foscas.
Levaram a dama e o seu velho piano
que tocava, tocava, tocava
a pálida sonata.
Levaram as pálpebras dos antigos sonhos,
deixaram somente a memória
e as lágrimas de agora.
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Cecília Meireles, "Fadiga"
Estou cansada, tão cansada,
estou tão cansada! Que fiz eu?
Estive embalando, noite e dia,
um coração que não dormia
desde que seu amor morreu.
Eu lhe dizia: "Deixa a morte
levar teu amor! Não faz mal,
É mais belo esse heroísmo triste
de amar uma coisa que existe
só para morrer, afinal!"
"Deixa a morte...não chores...dorme!"
Noite e dia eu cantava assim.
Mas o coração não falava;
chorava baixinho, chorava,
mesmo como dentro de mim.
Era um coração de incertezas,
feito para não ser feliz;
querendo sempre mais que a vida -
sem termo, limite, medida,
como poucas vezes se quis.
O tempo era ríspido e amargo.
Vinha um negro vento do mar.
Tudo gritava, noite e dia,
e nunca ninguém ouviria
aquele coração chorar.
Uma noite, dentro da sombra,
dentro do choro, a sua voz
disse uma coisa inesperada,
que logo correu, derramada
num silêncio fino e veloz.
"Meu amor não morreu: perdeu-se.
Ele existe. Eu não o quero mais".
O choro foi levando o resto
Eu nem pude fazer um gesto,
e achei as horas desiguais.
E achei que o vento era mais forte,
que o frio causava aflição;
quis cantar, mas não foi preciso.
E o ar estava muito indeciso
para dar a vida a uma canção.
A sorte virara no tempo
como um navio sobre o mar.
O choro parou pela treva.
E agora não sei quem me leva
daqui para qualquer lugar,
onde eu não escute mais nada,
onde eu não saiba de niguém,
onde deite minha fadiga
e onde murmure uma cantiga
para ver se durmo também.
segunda-feira, 15 de janeiro de 2018
Cecília Meireles, "O mosquito escreve"
O mosquito pernilongo
trança as pernas, faz um M,
depois treme, treme, treme,
faz um O bastante oblongo,
faz um S.
O mosquito sobe e desce.
Com artes que ninguém vê,
faz um Q,
faz um U, e faz um I.
Este mosquito esquisito
cruza as patas, faz um T.
E aí,
se arredonda e faz outro O,
mais bonito.
Oh!
Já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever seu nome.
Mas depois vai procurar
alguém que possa picar,
pois escrever cansa,
não é, criança?
E ele está com muita fome.
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
Cecília Meireles, "Inscrição"
Sou entre flor e nuvem,
Estrela e mar.
Por que havemos de ser unicamente humanos,
Limitados em chorar?
Não encontro caminhos
Fáceis de andar.
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
Que não sabem de água e de ar.
E por isso levito.
É bom deixar
Um pouco de ternura e encanto indiferente
de herança, em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
Nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido:
A sombra é que vai devagar.
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
Cecília Meireles
"Discurso"
E aqui estou, cantando.
Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.
Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.
Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.
Pois aqui estou, cantando.
Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?
Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?
segunda-feira, 29 de maio de 2017
Cecília Meireles
"Canção de Outono"
Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?
E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles
que não se levantarão...
Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
quinta-feira, 13 de abril de 2017
Cecília Meireles
"Recado aos amigos distantes"
Meus companheiros amados,
não vos espero nem chamo:
porque vou para outros lados.
Mas é certo que vos amo.
Nem sempre os que estão mais perto
fazem melhor companhia.
Mesmo com sol encoberto,
todos sabem quando é dia.
Pelo vosso campo imenso,
vou cortando meus atalhos.
Por vosso amor é que penso
e me dou tantos trabalhos.
Não condeneis, por enquanto,
minha rebelde maneira.
Para libertar-me tanto,
fico vossa prisioneira.
Por mais que longe pareça,
ides na minha lembrança,
ides na minha cabeça,
valeis a minha Esperança.
segunda-feira, 13 de março de 2017
Cecília Meireles
"Segundo motivo da rosa"
Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.
Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas…
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas.
E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!
Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas…
domingo, 5 de março de 2017
Cecília Meireles, "Palavra"
Espada entre flores,
rochedo nas águas,
assim firmes, duras,
entre as coisas fluidas,
fiquem as palavras,
as vossas palavras.
Pois se por acaso
dentro dos sepulcros
acordassem as almas
e em sonhos confusos
suspirassem rumos
de histórias passadas
e houvesse um tumulto
de ânsias e de lágrimas,
– lembrassem as lágrimas
caídas no mundo
nas noites amargas
cercadas dos muros
das vossas palavras.
Todas as palavras.
Nos espelhos puros
que a memória guarda,
fique o rosto surdo,
a música brava
do humano discurso.
De qualquer discurso.
Só de morte exata
sonharão os justos,
saudosos de nada,
isentos de tudo,
pascendo auras claras,
livres e absolutos,
nos campos de prata
dos túmulos fundos.
No meio das águas,
das pedras, das nuvens,
verão as palavras:
estrelas de chumbo,
rochedos de chumbo.
A cegueira da alma.
O peso do mundo.
Adeus, velhas falas
e antigos assuntos
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Cecília Meireles, "Tempo viajado"
Dos meus retratos rasgados
me recomponho,
com minhas espumas de acaso,
meus solos vivos de fogo.
Muito se sofre.
As doces uvas sabem a enxofre.
Vulcões mordem as raízes
das minhas plantas.
Em barcos postos a pique,
naufragaram minhas lembranças.
Dizei-me por que lugares
que pastores pastoreiam
até sempre estas saudades
a mim mesmo tão alheias.
Muito se pena.
E vimos na areia morrer a sirena.
Procuro pelo meu rosto
o tempo que se desprende.
que agulhas de desencontro
separaram minha gente?
Dos meus retratos rasgados
me levanto.
E acho-me toda em pedaços,
e assim mesmo vou cantando.
Muito se perde:
pela terra negra ou pela água verde.
(Se Deus agora me visse,
abaixaria seus olhos
e ficaria mais triste.)
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
Cecília Meireles, "Tenho pena de estar contigo..."
Tenho pena de estar contigo,
de SABER-TE. - Por isso, digo:
Nada se pode comparar
à dor de já não mais te amar.
Escuros dias tenho visto,
e amargas noites sem socorro.
- Nada que fosse igual a isto!
Ficaram-me os olhos na cara,
por muito que chorasse! E morro
vendo quem és, ó imagem cara!
Não merecia tal castigo,
meu coração! Por isso, digo:
Nada se pode comparar
à dor de já não mais te amar!
terça-feira, 10 de janeiro de 2017
Cecília Meireles, "Ninguém me venha dar vida"
Ninguém me venha dar vida,
que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer,
que não tenho mal nem dor,
que estou de sonho ferida,
que não me quero curar,
que estou deixando de ser
e não me quero encontrar,
que estou dentro de um navio
que sei que vai naufragar,
já não falo e ainda sorrio,
porque está perto de mim
o dono verde do mar
que busquei desde o começo,
e estava apenas no fim.
Corações, por que chorais?
Preparai meu arremesso
para as algas e os corais.
Fim ditoso, hora feliz:
guardai meu amor sem preço,
que só quis a quem não quis.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Cecília Meireles, "Fragilidade"
Teu nome nas águas
tão fundas, tão grandes,
perde-se na espuma,
castelo de instantes.
No aço azul da noite
teu firme retrato
acorda entre nuvens
já desbaratado.
A sorte da pedra
é tornar-se areia.
Mas quem não soluça
pensando em teu rosto
reduzido a poeira...
domingo, 11 de dezembro de 2016
Cecília Meireles, "Pranto no mar"
Eu sempre te disse que era grande o oceano
para a nossa pequena barca.
Cantavas, quando eu te dava o desengano
de partir por água tão larga.
Não, tu não devias ter ido.
Mas foi tempo perdido.
Eu sempre te disse que os olhos de um morto
ficavam nas águas suspensos,
procurando os vivos, os mastros, o porto,
na oscilação de águas e ventos.
Não, tu não devias ter ido.
Mas era amor perdido.
Teço velas negras para abarca nova,
redes de prata para as ondas.
ensinai-me, peixes, sua funda cova
nestas escuridões tão longas!
Não, tu não devias ter ido.
E isto é pranto perdido.
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