segunda-feira, 21 de março de 2016
Miguel Torga, "Alvorada"
Amanhece...
E amanhece o desespero...
Dura condenação
Da vida humana!
Angústias a oprimir o coração,
Seguidas como os dias da semana.
Mais vinte e quatro horas
De negrura,
Que o sol nem há-de ver, na sua pressa.
Em vez dum claro apelo,
O pesadelo
Dum sonho mau, que apenas recomeça.
domingo, 20 de março de 2016
sábado, 19 de março de 2016
David Mourão-Ferreira, "O corpo iluminado"
XXIII
Uma névoa de mágoa muito antiga
torna-te às vezes quase inatingível.
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sexta-feira, 18 de março de 2016
Adriano Espínola, "Maria"
A José Maurício Gomes de Almeida
Diz que dá pernadas na lua.
Entre uma cerveja e outra,
decifra os bigodes do chinês.
Com a mão esquerda,
retira um buzio da boca
de um marinheiro.
Com a bacia das coxas,
apara a resina do sexo.
Arranha com as unhas esmaltadas
a miçanga das estrelas.
Depois dorme por entre os gatos
e palavras impublicáveis.
Ave Maria, cheia de graças.
quinta-feira, 17 de março de 2016
quarta-feira, 16 de março de 2016
Leis estranhas em Connecticut (EUA)
-- Guardas-noturnos são proibidos de tomar café descafeinado em serviço.
-- O homem não pode escrever carta de amor a mulher, cujos pais proibiram o relacionamento.
-- Registros da cidade não podem ser mantidos onde bebidas são vendidas.
-- É ilegal descartar lâminas de barbear usadas.
-- Em Devon: É proibido andar para trás depois do pôr do sol.
-- Em Hartford: É proibido atravessar a rua caminhando com as mãos. Também: É proibido educar cachorros. Ainda: O homem não pode beijar a mulher no domingo.
-- Em Waterebury: Esteticistas não podem cantarolar (de boca fechada), assobiar ou cantar quando estiver atendendo um cliente.
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terça-feira, 15 de março de 2016
Lúcio Cardoso, "Primeiro vem o tempo de achar..."
Primeiro vem o tempo de achar, depois o
de seguir. Depois desses, outros tempos, até
que venha um tempo só, e é o logo e
solitário tempo do perdido. Mas para isto
é que a memória vale: aí, nessa distância
esta paisagem não parecerá mais uma visão
desconhecida, terá apenas um ar familiar
e antigo, que nos lembra
aquilo que existiu, e foi nosso sem que
soubéssemos que era nosso. Será então o
tempo de entender.
segunda-feira, 14 de março de 2016
domingo, 13 de março de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Canção de depois de tanto"
a Roniwalter Jatobá
Vamos beber qualquer coisa,
que a vida está um deserto
e o coração só me pulsa
sombras do Ido e do Incerto.
Vamos beber qualquer coisa,
que a lua avança no mar
e há salobros fantasmas
que não quero visitar.
Vamos beber qualquer coisa
amarga, rascante, rude,
brindando sobre o já frio
cadáver da juventude.
Vamos beber qualquer coisa.
O que for. Vamos beber.
Mesmo porque não há mais
o que se possa fazer.
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sábado, 12 de março de 2016
Ivo Barroso, "O sino"
Teu nome é um sino imerso no meu peito.
Um pequenino verso que nasceu já feito.
Plange tão silente na manhã festiva
de minha alma cheia,
que o não ouve a gente nem desperta a aldeia.
Nasce tão calado da emoção tão viva
que me sela a boca,
que qualquer pessoa não percebe ao lado
como o sino toca, como o verso soa.
sexta-feira, 11 de março de 2016
quinta-feira, 10 de março de 2016
Lúcio Cardoso, "Amendoeira III"
Espaço, és um sentido evangélico.
A amendoeira de faz
do restrito: sua vida
anseia o outeiro derribado
ao sol poente.
Vaga forma de música,
vibra tua seiva criando
um teto de ouro:
aqui, neste instante, fica:
nada melhor que o poema
para te fazer viver.
Pelo tronco escuro
um azul amanhece
- és tu, amendoeira,
no teu novo ser de amanhã.
quarta-feira, 9 de março de 2016
Jorge Luis Borges, "Susana Soca"
Com lento amor mirava esses dispersos
Esplendores da tarde. É que aprazia
A ela se perder na melodia
Ou na existência singular dos versos.
Mas não o rubro elemental, os grises
Fiaram seu destino delicado
Feito pra discernir o exercitado
Na irresolução e nos matizes.
Não ousando pisar este perplexo
Labirinto, de fora ela mirava
As formas, o tumulto e toda a estrada
Como outra dama, essa mulher do espelho.
Deuses que moram para além do rogo
A abandonaram a esse tigre, o Fogo.
Susana Soca (1906 - 1959) foi uma poeta uruguaia que morreu num acidente de avião quando voltava para a Argentina.
terça-feira, 8 de março de 2016
segunda-feira, 7 de março de 2016
Ivo Barroso, "Despojamento"
Eliminei o excesso de paisagem
simplifiquei toda a decoração
retirei quadros flores ornamentos
apaguei velas copos guardanapos e a música
Bani a inutilidade do discurso
Na mesa de madeira
nua
apenas dois pratos brancos
sem talheres
O banquete será tua presença
domingo, 6 de março de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Soneto do anjo de maio"
Então, em maio, um Anjo incendiou-me.
Em seu olhar azul havia um dia
claro como os da infância. E a alegria
entrou em mim e em sua luz tomou-me
o coração. Depois, suave, guiou-me
para mim mesmo, para o que morria,
em meu peito, de olvido. E a noite, fria,
fez-se cálida — e a mágoa desertou-me.
Já não eram as cinzas sobre o Nada,
mas rios, e ventos, e árvores, e flamas,
e montes, e horizontes sem ter fim!
Era a vida de volta, resgatada,
e nova, e para sempre, pelas chamas
desse Anjo de maio que arde em mim!
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Ruy Espinheira Filho
sábado, 5 de março de 2016
sexta-feira, 4 de março de 2016
Eucanaã Ferraz, "Cisnir"
O verbo cisnir, intransitivo,
assinale o modo como
entre rodas e transeuntes,
no trânsito
(repentinamente transmutado em águas,
lama e restos
que se desviam num aluvião sem nexo
a fim de que o rapaz passe) o rapaz
cisne.
quinta-feira, 3 de março de 2016
Leis estranhas no Colorado (EUA)
Colorado
-- É ilegal cavalgar sob a influência do álcool.
-- A ninguém é permitido urinar em público.
-- É proibido matar passarinhos dentro dos limites da cidade.
-- É proibido mutilar uma rocha em parque público.
-- Em Alamosa: Disparar mísseis em automóveis é ilegal. Também: Manter casas onde pessoas solteiras fazem sexo é ilegal.
-- Em Arvada: Estabelecimentos que vendem bebidas alcoólicas devem ter iluminação suficiente para se ler lá dentro.
-- Em Aspen: Catapultas não podem ser disparadas em edifícios.
-- Em Boulder: É legal desafiar um policial, mas só até ele pedir para você parar. Também: Não é permitido colocar sofás na varanda.
-- Em Cripple Creek: É ilegal levar seu cavalo ou mula acima do andar térreo em qualquer edifício.
-- Em Denver: O operador da carrocinha deve notificar os cachorros sobre apreensões com três dias de antecedência, colocando cartazes nas ruas e nas árvores de parques. Também: É proibido emprestar o aspirador de pó ao vizinho ao lado.
-- É ilegal cavalgar sob a influência do álcool.
-- A ninguém é permitido urinar em público.
-- É proibido matar passarinhos dentro dos limites da cidade.
-- É proibido mutilar uma rocha em parque público.
-- Em Alamosa: Disparar mísseis em automóveis é ilegal. Também: Manter casas onde pessoas solteiras fazem sexo é ilegal.
-- Em Arvada: Estabelecimentos que vendem bebidas alcoólicas devem ter iluminação suficiente para se ler lá dentro.
-- Em Aspen: Catapultas não podem ser disparadas em edifícios.
-- Em Boulder: É legal desafiar um policial, mas só até ele pedir para você parar. Também: Não é permitido colocar sofás na varanda.
-- Em Cripple Creek: É ilegal levar seu cavalo ou mula acima do andar térreo em qualquer edifício.
-- Em Denver: O operador da carrocinha deve notificar os cachorros sobre apreensões com três dias de antecedência, colocando cartazes nas ruas e nas árvores de parques. Também: É proibido emprestar o aspirador de pó ao vizinho ao lado.
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quarta-feira, 2 de março de 2016
terça-feira, 1 de março de 2016
João Carlos Teixeira Gomes, "Soneto da Lição Zoológica"
Quando menino nunca amei leões.
Preferi os animais mais delicados.
Por patos mansos e por camaleões
meu zoo infantil era habitado.
Tive um cão que foi predestinado:
por sua amada se perdeu em fuga.
E um gafanhoto místico e alado
que pulava mais alto que uma pulga.
Amei abelhas, lagartos, formigões
e galos magros de expelir auroras...
Fiéis amigos que foram embora!
Todos eles me encheram de lições
de ternura que, homem, desaprendi.
De leões só vim saber quando cresci.
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Poesia
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Ruy Espinheira Filho, "Campo de eros"
Amor: esta palavra acende uma
lua no peito, e tudo mais se esfuma.
E testemunho: eis que Amor deixou
ferida cada coisa que tocou.
E tudo dele fala: a mesa, a cama
(como abrasa este hálito de chama!),
o bar, cadeiras, livros e paredes
vivem, revivem: de fomes e sedes
a corpos saciados. Tudo fala,
tudo conta. Só a boca é que se cala.
Amor. Do extinto pássaro, o voo
prossegue, inexorável. Mas perdoo,
eu, essa lâmina que me escalavra,
revolve em mim, em sua funda lavra,
amor, restos de amor, gestos quebrados,
enganos, mais amor, olhos magoados,
e fúria, e canto, e riso, e dança, e dor.
E a Quimera. E amor, amor, amor
por toda parte trucidado e em flor.
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Ruy Espinheira Filho
domingo, 28 de fevereiro de 2016
sábado, 27 de fevereiro de 2016
Ferreira Gullar
"Visita"
no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar
perto do filho mas
diante daquele
bloco negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo.
Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e
saiu
soluçando
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Jorge Elias Neto, "O limite da razão"
Os búzios
já não despejam ondas
e eu me despeço.
De resto,
somente uma
suposição:
a questão passará a ser simples
quando dissermos: talvez...
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