quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Anônimo, "Há um resto ..."



No dia 03.01.2011, postei um poema - Restos - do Ildásio Tavares, um poeta baiano  falecido em Salvador, em  31 de outubro de 2010 (que na época eu desconhecia).

Ontem, um anônimo fez no post um comentário que conversa com o poema :


Anonimo - Jan 24, 2012 04:11 PM

Há um Resto de Ildásio em todos nós
Que nos sufoca em vã saudade.
Ir-se embora tão de repente, isso não se faz...
Deixou-nos órfãos e assim se fez.
Deixando tanto por terminar.
Deixando a vida... sem acabar.
O que fazer, se já está feito, se nos sufoca a vã saudade?



Se me disser o seu nome, lhe dou o crédito.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Camões, "O dia em que nasci morra e pereça..."

 
O dia em que eu nasci morra e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar,
Não torne mais ao mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o sol padeça.

A luz lhe falte, o sol se lhe escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu !

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

domingo, 22 de janeiro de 2012

José Carlos Gonzalez, "O malabarista"


Na praça deserta que o vento devasta
ficou solitário esquecido do povo

na praça em que a noite se arrasta
surdos equilíbrios intenta de novo

ficou sem mais nada que a dor de viver
fantasma no vento da noite esquecido

três lágrimas nuas para ninguém ver
resvalam no fato já velho cosido

três gritos de alerta suspendem a noite
três ecos respondem três armas apontam

e a espada do vento renova o açoite
nas faces já frias que os dedos encontram.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Cecília Meireles, "Aqui está minha vida ..."


Aqui está minha vida - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Hilda Hilst, "Iº Canto dos Cantares de perda e predileção".


Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças

Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.

Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias

E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Luís Miguel Nava, "Paisagens"


São outras as paisagens quando alguém
as vê pelas janelas do seu próprio coração ou quando
com esse coração
a própria estrada está comprometida.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Dante Milano, "Se o fruto já maduro ..."


Se o fruto já maduro da experiência
Me deu de amor algum conhecimento,
Só sei dizer que o seu entendimento
É saber que transcende toda ciência.
Com que palavras o direi? — "Paciência"
Ou "Impaciência", "Alento" ou "Desalento".
Quereis outra palavra? "Alheamento".
Outra? "Presença" ou sua igual "Ausência".
Esquecimento de si mesmo: olvido.
Quantas vezes morri sem ter morrido,
Sem sentir ao morrer nenhuma dor.
Nem a morte é culpada de tal morte,
Até a deseja o amante em seu transporte:
Só ela é eterna como o seu amor.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Antônio Carlos Secchin, "A Ilha"

E olhamos a ilha assinalada
pelo gosto de abril que o mar trazia
e galgamos nosso sono sobre a areia
num barco só de vento e maresia.
Depois, foi a terra. E na terra construída
erguemos nosso tempo de água e de partida.
Sonoras gaivotas a domar luzes bravias
em nós recriam a matéria de seu canto,
e nessas asas se esparrama nossa glória,
de um amor anterior a todo estio,
de um amor anterior a toda história.
E seguimos no caminho de ser vento
onde as aves vinham ver se havia maio,
e as marcas espalmadas contra o frio
recobriam de brancura nosso rumo.
E abrimos velas alvas que se escondem
dos mapas de um sonho pequenino,
do início de uma selva que se espraia 
na distância entre mim e o meu destino.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Juan Ramón Jimenez








Eu não serei eu, morte,
até que te unas com a minha vida
e assim me completes todo;
até que a minha metade de luz se feche
com minha metade de sombra
- e eu seja equilíbrio eterno
no espírito do mundo:
umas vezes, meu meio eu, radiante;
outras, meu outro meio, no esquecimento, -

Eu não serei eu, morte,
até que tu, em teu labor, vistas
de ossos pálidos minha alma.

Tradução de José Bento


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Jorge de Lima, "Essa pavana ..."


Essa pavana é para uma defunta
infanta, bem-amada, ungida e santa,
e que foi encerrada num profundo
sepulcro recoberto pelos ramos


de salgueiros silvestres para nunca
ser retirada desse leito estranho
em que repousa ouvindo essa pavana
recomeçada sempre sem descanso,

sem consolo, através dos desenganos,
dos reveses e obstáculos da vida,
das ventanias que se insurgem contra

a chama inapagada, a eterna chama
que anima esta defunta infanta ungida
e bem-amada e para sempre santa.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Juan Ramón Jimenez, "Com as rosas"


Não, esta doce tarde
não poderei ficar;
esta tarde livre
tenho que ir na aragem.

Na aragem que ri
ao abrir das árvores,
amores aos milhares,
profunda, ondulante.

Esperam-me as rosas,
banhando sua carne.
Não ponha limites;
não quero ficar-me.

Tradução de José Bento

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Camões, "Quando de minhas mágoas a comprida ..."


Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que para mim foi sonho nesta vida.

Lá numa saudade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro para ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: - Não me fujais, sombra benigna ! -
Ela, os olhos em mim c'um brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser,

Torna a fugir-me; e eu gritando: - Dina ...,
Antes que diga: -  mene -, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.

domingo, 8 de janeiro de 2012

sábado, 7 de janeiro de 2012

Florbela Espanca













"Ser poeta"

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Camões, "O céu, a terra, o vento ..."


O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela praia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia *...
O nocturno silêncio repousado...

O pescador Aónio que, deitado
onde co vento a água meneia,
chorando, o nome amado em vão nomeia,
que não pode ser mais que nomeado:

- Ondas - dizia -, antes que Amor me mate,
torna-me a minha Ninfa, que tão cedo
me fizestes à morte estar sujeita.

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate,
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita ...


* enfreia - pôr freios.



quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Vinícius de Moraes, "Do amor à pátria"


São doces os caminhos que levam de volta à pátria. Não à pátria amada de verdes mares bravios, a mirar em berço esplêndido o esplendor do Cruzeiro do Sul; mas a uma outra mais íntima, pacífica e habitual - uma cuja terra se comeu em criança, uma onde se foi menino ansioso por crescer, uma onde se cresceu em sofrimentos e esperança canções, amores e filhos ao sabor das estações.
Sim, são doces as rotas que reconduzem o homem à sua pátria, e tão mais doces quanto mais ele teve, viu e conheceu outras pátrias de outros homens. Assim eu, ausente pela segunda vez de uma ausência de muitos anos quando, dentro da noite a bordo, os dedos a revirar o dial do ondas-curtas, aguardava o primeiro balbucio de minha pátria como um pai à espera da primeira palavra do seu filho. O coração batia-me como batera um dia, à poesia sonhada, ou como uma outra vez, diante de uns olhos de mulher.
- O sr. tem certeza de que isso é mesmo um ondas-curtas?
O camareiro norueguês, grande e tranqüilo, limitou-se a sorrir misteriosamente. Depois, humano, inclinou-se sobre o aparelho, o ouvido atento, e pôs-se a tentar por sua vez. As ondas sonoras iam e vinham verrumando a minha angústia.
Onde estava ela, a minha pátria que não vinha falar comigo ali dentro do mar escuro?
E de repente foi uma voz que mal se distinguia, balbuciando bolhas de éter, mas pensei no meio delas distinguir um nome: o nome de Iracema. Não tinha certeza, mas pareceu-me ouvir o nome de Iracema entre os estertores espásmicos do aparelho receptor.
Deus do Céu! Seria mesmo o nome de Iracema?
Era sim, porque logo depois chegou a afirmar-se, mas quase imperceptível, como se pronunciado por um gnomo montado em minha orelha. Era o nome de Iracema, da Rádio Iracema, de Fortaleza, a emissora dos lábios de mel, que sai mar afora, enfrentando os espaços oceânicos varridos de vento para trazer a um homem saudoso o primeiro gosto de sua pátria.
Adorável prefixo noturno, nunca te esquecerei! Foste mais uma vez essa coisa primeira tão única como o primeiro amigo, a primeira namorada, o primeiro poema. E a ti eu direi: é possível que o padre Vieira esteja certo ao dizer que a ausência é, depois da morte, a maior causa da morte do amor. Mas não do amor à terra onde se cresceu e se plantou raízes, à terra a cuja imagem e semelhança se foi feito e onde um dia, num pequeno lote, se espera poder nunca mais esperar.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Luísa Dacosta, "Apelo"


Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

domingo, 1 de janeiro de 2012

Ruy Belo, "Algumas proposições com pássaros e árvores que o poeta remata com uma referência ao coração"


As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
Deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
Quando o Outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
Mas deixo essa forma de dizer ao romancista
É complicada e não se da bem na poesia
Não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração