sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Eugénio de Andrade, "Canção de Laga"


Era em Laga, setembro e as suas águas
ardiam na nossa boca. Passou
tanto tempo que para morrer
só me faltou voltar àquela praia.
Tu tinhas vinte anos, roías
as unhas, sujavas a camisa
com o molho das ameijoas, eu pouco
mais tinha, nenhum de nós sabia
como é monstruoso amar assim
com os dias contados pelos dedos.
Hoje o verão entrou de rompante
pela casa dentro, vinha do mar,
trazia a luz molhada do teu corpo,
o difícil amor que dói ainda.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Paulo Henriques Britto, "Para um Monumento ao antidepressivo".



Um pequeno sol de bolso
que não propriamente ilumina
mas durante seu percurso
dissipa a espessa neblina

que impede o outro sol, importátil,
de revelar sem distorção
dura, doída, suportável,
a humana condição.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Camilo Pessanha, "Imagens que passais ..."


Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...

Fica sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
Estranha sombra em movimentos vãos.

domingo, 12 de agosto de 2012

Miguel Torga, "Conselho"


Salta, discretamente, a página do amor
No Livro das Horas.
Não leias mal o que já leste bem.
Emocionado, choras
A cada passo,
E tornas baço
O brilho que ela tem.

Deixa o texto arquivado na lembrança.
Passa adiante e cobre-o de pudor.
No jardim resta ainda tanta flor
Que podes desfolhar
Sem lágrimas na voz!...
Quem soube ter, sabe renunciar...
Há laudas de silêncio em todos nós.

sábado, 11 de agosto de 2012

Lêdo Ivo



"A Armadilha"

Muda o tempo e o diamante
cresce num pudor de alba.
Antigamente meus amigos
jogavam pôquer à tarde.

O que é vida, esvoaça. A erva hesita
diante das covas abertas.
De tempo me fala o postal
onde te ergues, Cidade.

Responde-me, ó chuva que seca
o duro encanto das calçadas.
A bicicleta na praia
é a morte ou é a viagem?



quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Jorge de Lima, "Agora os girassóis entardecidos ..."


Agora os girassóis entardecidos,
e esse lírio e essa rosa tão exangue
e essa mancha de símbolos sombrios
quase como um desmaio ou leve sangue.

Sobre os bosques caiu a tarde cinza
e a estrela temporária se augurou;
pendem das hastes cálices noviços,
e a cansada corola se esboroou.

E os cílios baixam gotejando chuvas
sobre os vidros das horas enterradas
com os momentos dos crimes e virtudes.

Algum arroio corre com essas lágrimas
mas tão ligeiro pela escarpa aguda
que os olhos de quem vê nunca vêem nada.

Foto, "Mulher"



quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Antonio Cicero, "O poeta marginal"


Em meio às ondas da hora
e as tempestades urbanas
conectarei as palavras
que trovarão novas trovas.
Lerei poemas na esquina.
darei presentes de grego;
a cochilar com Homero,
farei negócios da China.
Exporei tudo na rede
sem ganhar nem um vintém:
a vaidade, a fome a sede,
certo truque, rara mágica.
Que não se engane ninguém:
ser um poeta é uma África.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

João Cabral de Melo Neto, "A lição de pintura"


Quadro nenhum está acabado,
disse certo pintor;
se pode sem fim continuá-lo,
primeiro, ao além do quadro

que, feito a partir de tal forma,
tem na tela, oculta, uma porta
que dá a um corredor
que leva à outra e a muitas outras.

domingo, 5 de agosto de 2012

Horácio













"Não indaques, Leucónoe"

Não indagues, Leucónoe, ímpio é saber,
          a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônicos:
          melhor é suportar
          tudo o que acontecer.

Quer Júpiter te dê muitos invernos,
          quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
          cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
          corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.

          Enquanto conversamos,
          foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.


Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos.

É a ode mais conhecidas de Horácio.
O original em latim do penúltimo verso "Desfruta o dia de hoje" é  "Carpe Diem".


sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Italo Moriconi, "Copacabana"


Meu novo amor é gente simples do povo.
Tem 19 anos, negro rutilante.
Entre a ultima vez que nos vimos (tempos atrás)
e hoje cedo
já trocou o nome para Rick.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Antonio Cicero, "Onze e meia"


Quando a noite vem
um verão assim
abrem-se cortinas varandas
janelas prazeres jardins

Onze e meia alguém
concentrado em mim
no espelho castanho dos olhos
vê finalidades sem fim

Não lhe mostro todos os bichos que tenho de uma vez
Armo o circo com não mais do que uns cinco ou seis
leão camelo garoto acrobata
e não há luar
e os deuses gostam de disfarçar


terça-feira, 31 de julho de 2012

Miguel Torga, "Esperança"


Quero que sejas
A última palavra
Da minha boca.
A mortalha de sol
Que me cubra e resuma.
Mas como à despedida só há bruma
No entendimento,
E o próprio alento
Atraiçoa a vontade,
Grito agora o teu nome aos quatro ventos.
Juro-te, enquanto posso, lealdade
Por toda a vida e em todos os momentos.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Manuel Bandeira, "Visita"


Fui procurar-te à última morada,
Não te encontrei. Apenas encontrei
Lousas brancas e pássaros cantando...
Teu espírito, longe, onde não sei,
Da obra na eternidade assegurada,
Sorri aos amigos que te estão chorando.

sábado, 28 de julho de 2012

Bertha Worns, "Moça dormindo"



Julia Uceda


















"Nota ao pé de uma história"

                                                              Variação da "Bachiana Brasileira nº 5",
                                                                                  de Villa-Lobos.


Começou já o último
adeus. Vão dizer-se
as fórmulas do fim. Hei de deixar
tudo quanto ouça: "Consumatum
est". Compreendo agora
e por fim a alegria
de estar entre vós, ásperas sombras,
seres que me atravessais
em cidades, de noite.
Árvores, rochas, rosas, compreendo a alegria
de que estejais junto de mim com vossa equívoca
presença que, em menina,
não pude compreender e convosco
brincava. Não sois para brincar: para dizer-me
adeus e voltar em outras primaveras
do mundo recordando-me
talvez, a vosso modo. (Ser um dia
lembrança de uma rocha; memória
de uma rosa num jardim
na lua habitada, é ser).

Acreditei que tinha vindo para sempre
e estava
triste. Agora descobri
a morte nos abismos
e a vida nas cristas
da pele. Agora é tudo
diferente: preparo-me
com tédio para a partida e estou mais perto
dos que ainda não sabem, dos que vão a caminho.
A minha identidade
não ma deu o amor, mas só a morte
- amor é uma sombra por trás das claras janelas,
o grito de uma hora
que morre,
o bater violento de uma porta -,
e o gozo do espaço, da luz, dos ares
de cristal, dos longos
silêncios, dos rios
que passam:
de toda a formosura que agora é minha e que vivo.
A catedral de sombra ainda tem luz.

Tradução de José Bento.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

David Mourão-Ferreira, "Nudez"


A pressa
com que se despe

nem na alma lhe apetece
qualquer veste

A pressa com que se despe

Até da carne e da pela
se pudesse

quinta-feira, 26 de julho de 2012

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Manuel Bandeira, "Maçã"


Por um lado te vejo como um seio murcho
Pelo outro como um ventre de cujo umbigo pende ainda
                                                      [o cordão placentário
És vermelha como o amor divino

Dentro de ti em pequenas pevides
Palpita a vida prodigiosa
Infinitamente

E quedas tão simples
Ao lado de um talher
Num quarto pobre de hotel.