sexta-feira, 17 de abril de 2015
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Ivan Junqueira, "Cena dominical"
Meu pai, absorto, à cabeceira,
rodeado de fármacos e receitas,
mira o vazio de sua vida inteira
e degusta o que mais o deleita:
o pôquer, os cavalos, a roleta,
a garrafa de tinto na mesa,
o charuto de módico preço,
a baforada lenta e espessa
que se enovela entre os esguios dedos.
O almoço de domingo vai a meio,
sem brindes ou inúteis atropelos.
Na travessa, as usuais guloseimas
que minha mãe prepara com esmero.
fala-se pouco. Uma úmida tristeza
embebe os talheres, molha as paredes
da acanhada sala burguesa.
Após o café, meu pai, sorrateiro,
conta as raras cédulas da carteira.
E sai. Chove. Ágil, ele se esgueira
por entre as gotas que o golpeiam.
Quase em frente, o hipódromo o espreita:
os potros, a lama da pista de areia,
a multidão, os chapéus de feltro,
a dupla, o placê, o colorido das jaquetas.
Meu pai aposta. Uma, duas, muitas vezes.
E deixa ali o seu último dinheiro.
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Ana Cristina Cesar, "Fagulha"
Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando
Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
terça-feira, 14 de abril de 2015
segunda-feira, 13 de abril de 2015
Saulo Ramos, "Poema a meu pai"
Meu pai, eu sou a tua ressureição:
herdei, de ti, feições e sentimentos,
e trago na alma o que tu tens no fundo.
No caminharmos para a perfeição
tenho a impressão de que, certo momento,
fomos um só, na criação do mundo.
Viemos de geração em geração,
no mesmo sangue; ao mesmo amor ardente,
multiplicados a nos renascer,
sentindo a cada nova criação
o outro querendo ser eternamente
o que não teve tempo de ser.
Somos tão nós, que o tempo nos reflete
como dois incansáveis andarilhos
através da velhice e mocidade...
... e é tão imenso o amor que nos repete
que nasceremos juntos em meus filhos
e chegaremos um, na eternidade.
domingo, 12 de abril de 2015
Emílio Moura, "Três tempos"
Futuro:
Desassossego no escuro.
Medo.
Presente:
Revoada de nada,
simplesmente.
E tu, passado:
que fizeste deste
coração frustrado?
sábado, 11 de abril de 2015
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Charles Bukowski
"Pássaro azul"
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?
Desconheço o nome do tradutor.
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quinta-feira, 9 de abril de 2015
Raimundo Gadelha, "Escultura"
Mutilados os braços,
os pés tentarão, passo a passo,
imprimir uma emoção
Decepadas as pernas,
o caminho não terá sido em vão
Cortada a cabeça,
por instantes ainda pulsará o coração
e enterrado o coração e todo o resto
restará ainda e para sempre
a marca cósmica e imperecível
de tudo o que se tentou ser
E numa fração de segundo
o Ser simplesmente será
Puro
Rápido
Eterno.
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Billie Holiday, "Fine and mellow"
"Fine and Mellow" foi escrita pela própria Billie.
No vídeo, ela canta acompanhada por:
Sax-tenor : Ben Webster, Lester Young e Coleman Hawkins
Sax-barítono : Gerry Mulligan
Trombone: Vic Dickenson
Pistom : Roy Eldridge e Doc Cheatham
Guitarra : Danny Barker
Baixo : Milt Hinton
Piano : Mal Waldron
Bateria: Osie Johnson
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terça-feira, 7 de abril de 2015
Caio Fernando de Abreu, "Fever 77 ⁰ "
Deixa-me entrelaçar margaridas
nos cabelos de teu peito.
Deixa-me singrar teus mares
mais remotos
com minha língua em brasa.
Quero um amor de suor e carne
agora:
enquanto tenho sangue.
Mas deixa-me sangrar teus lábios
com a adaga de meus dentes.
Deixa-me dilacerar teu flanco
mais esquivo
na lâmina de minhas unhas.
Quero um amor de faca e grito
agora:
enquanto tenho febre.
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segunda-feira, 6 de abril de 2015
Maria do Rosário Pedreira, "Se o vires..."
Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se
o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não de mais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,
diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.
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domingo, 5 de abril de 2015
sábado, 4 de abril de 2015
Luís de Camões, "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades..."
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soia.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Ivan Junqueira
"Despedida"
Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia,
por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico,
os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios,
com suas patas de veludo, silenciosas,
que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis.
Os tapetes abafam seus passos ociosos,
como se faz quando se acolhem os órfãos.
Doze anos se passaram, e estamos indo embora.
A brisa do mar, com seus úmidos braços, nos envolve
e empurra para um outro promontório,
uma outra dimensão de nossa breve história,
de que somos, se tanto, transitórios hóspedes,
peças de um tabuleiro onde o tempo se desloca,
alheio à inútil engrenagem dos relógios,
cujas horas se dissolvem numa névoa incorpórea.
Tanto aqui se escreveu em verso e prosa:
romances, elegias, baladas, novelas e toda uma prole
de rascunhos que iam da perífrase ao apólogo.
Tanto aqui se ouviram o lamento de um fagote,
uma ária de ópera, a lenta pulsação de um órgão,
a inquieta truta de um quinteto de cordas,
essa insistente música que ecoa na memória
e que não pode (nem quer ) ir-se embora.
Como estancar as vozes e os acordes
do Réquiem em que Mozart brindou à própria morte?
Como esquecer, Palestrina, teu Kyrie, teu Sanctus, teu Glória?
Como calar esse jorro de notas, essa clave de sol
na partitura de uma noite em que faz frio e chove?
Estamos indo embora. Passem o trinco nas portas
r tranquem as janelas pelas quais rompia a aurora.
Apaguem-se a lua, as estrelas e o monólogo
do sabiá na varanda, as nervosas
mãos do vento a sacudir os vitrais da abóbada.
Levem tudo: quadros, taças, santos barrocos, oratórios,
todo esse insólito e cediço espólio.
Bebeu-se aqui o álcool da vida até o último gole.
Não se esqueçam da arca que ficou no sótão.
Desliguem a luz (e o gás, senão tudo explode).
Que fique um resto como esmola. Paguem um óbolo
ao barqueiro que nos leva rio afora.
Estamos indo embora.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
quarta-feira, 1 de abril de 2015
Roberto Piva
"Stenamina boat" *
Prepara tu esqueleto para el aire
Garcia Lorca
Eu queria ser um anjo de Piero della Francesca
Beatriz esfaqueada num beco escuro
Dante tocando piano ao crepúsculo
eu penso na vida sou reclamado pela contemplação
olho desconsolado o contorno das coisas copulando no caos
Eu reclamo uma lenda instantânea para o meu Mar Morto
Tempo e espaço pousam no meu antebraço como um ídolo
há um osso carregando uma dentadura
Eu vejo Lautréamont num sonho nas escadas de Santa Cecília
ele me espera no largo do Arouche no ombro de um santuário
hoje pela manhã as árvores estavam em Coma
meu amor cuspia brasas nas bundas dos loucos
havia tinteiros
medalhas esqueletos vidrados flocos dálias
explodindo no cu ensanguentado dos órfãos
meninos visionários arcanjos de subúrbio entranhas em êxtases alfinetados
nos mictórios atômicos
minha loucura atinge a extensão de uma alameda
as árvores lançam panfletos contra o céu cinza
O título do poema - Stenamina boat - poderia ser traduzido como "Barco de stenamina", sendo que stenamina é um tipo de droga, uma anfetamina.
terça-feira, 31 de março de 2015
João Cruz e Souza, "Aparição"
Por uma estrada de astros e perfumes
A Santa Virgem veio ter comigo:
Douravam-lhe o cabelo claros lumes
Do sacrossanto resplendor amigo.
Dos olhos divinais no doce abrigo
Não tinha laivos de Paixões e ciúmes:
Domadora do Mal e do perigo
Da montanha da Fé galgara os cumes.
Vestida na alva excelsa dos Profetas
Falou na ideal resignação de Ascetas,
Que a febre dos desejos aquebranta.
No entanto os olhos dela vacilavam,
Pelo mistério, pela dor flutuavam,
Vagos e tristes, apesar de Santa!segunda-feira, 30 de março de 2015
domingo, 29 de março de 2015
Mauro Mota, "O cão"
A Edson Nery da Fonseca
É um cão negro. É talvez o próprio Cão
assombrado e fazendo assombração.
Estraçalha o silêncio com seus uivos.
A espada ígnea do olhar na escuridão
separa a noite, abre um canal no escuro.
Cão da Constelação do Grande Cão,
tombado no quintal, espreita o pulo:
duendes, fantasmas de ladrão no muro.
O latido ancestral liberta a fome
de tempo, e o cão, presa do faro, come
o medo e a treva. Agita-se, devora
sua ração de cor. Pois, louco e uivante,
lambe os pontos cardeais, morde o levante
e bebe o sangue matinal da aurora.
sábado, 28 de março de 2015
Sônia de Barros, "Aos 35"
Para meu filho Bruno
Após frias noites sem sol
um feixe de céu
escorre
percorre veias
falésias
incide
no abismo
agudo azul
perfura de luz
o escuro mar de meus olhos
aquece meus ossos soterrados
e inflama
de imenso sol
o ventre
que explode em raios de águas vivas
- o abismo se faz fonte -
e agarrada ao choro do sol
eu posso
enfim
nascer
(16 de agosto de 2004 à 1h 34)
sexta-feira, 27 de março de 2015
quinta-feira, 26 de março de 2015
Eucanaã Ferraz, "Lhe"
Não era uma víscera qualquer.
Se o que boiava no sangue era só
gordura e nervos, invisíveis lá
subsistiam mitos cartas de suicidas
madrigais canções de amigo.
Pus - cuidadosamente - nessa bandeja
e lhe entreguei, Salomé
que degolasse a si mesma,
por que às vezes é preciso ser literal:
trazer a imagem mais recôndita
ao chão que descalço pisa o pé da letra.
Mas você
você não sabe sequer a diferença
entre um coração e uma almôndega.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Carlos Newton Júnior, "A leoa (Museu Britânico)"
A leoa, ferida, ruge e avança
enquanto a morte a ronda com três flechas
(mas não será a morte, posto que ela
a ignora e a morte não a alcança).
O seu olhar é fero e doido instante
que não esmoreceu e ainda aferra;
a pupila dilata-se no transe
do êxtase profundo que a encerra.
Quem fez brotar da pedra essa beleza?
Onde se oculta a sua força estranha?
Se atrás eu vejo as patas esmagadas,
as da frente sustentam-lhe as entranhas.
A espinha dorsal dessa leoa:
talvez ali esteja a chama ardente
da vida que se espalha e que escoa
pelos poros da pedra, pela boca,
pelo rugir da fera e os seus dentes.
Creio que este relevo Assírio, exposto no Museu Britânico tenha inspirado o autor.
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