sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

David Mourão-Ferreira, " Nocturno"


Eram, na rua, passos de mulher.
Era meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim o gelo;
além do gelo a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era, no gira disco, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy...
Era na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Eugénio de Andrade, "Eles voltaram ..."


Eles voltaram, com o rumor da chuva
aquecem as mãos.
Aos lábios de pouca idade
volta o sorriso extraviado.

A verdade é que nunca soube o nome
dessa flor que nalguns olhos
abre logo de madrugada.
Agora para saber é tarde.

O que sei é que mesmo no sono
há um rumor que não dorme,
um jeito da luz pousar, um rasto
de lágrima acesa.

É sobre meu corpo que chove.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Eucanaã Ferraz, "Terceto"


Não há matéria para se fazer tristeza
nesta manhã, manhã perfeita
se a mão que me deu maio fosse a tua.

domingo, 20 de janeiro de 2013

José Saramago














"No silêncio dos olhos"

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de ventos, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, caladas,
No silêncio dos olhos confessamos?

Miroslav Antic, "Marcha fúnebre dos clows"


Quando eu morrer,
tenho ao menos a certeza:
ninguém há de arrastar-se para cuspir-me na face.

Todos hão de tornar-se amigos de uma só vez
e buscarão ainda prestar-me uma homenagem qualquer.

Compreendo-vos perfeitamente:
as pessoas mortas não são malfeitores,
tampouco são nojentas,
ou assassinas.

A morte é absolvição.

A morte é a forma mais adequada de partir,
sem aperos de mão, sem promessas,
em paz.

A morte é a invalidez para os heróis
de crânios cortados,
e a insônia das cinzas
em que as almas pedem ventos de gramados.

Com a partida lucra-se bastante:
emplacam o nome e sobrenome das pessoas
pelos cantos
em papéis finos,
e todos leem o vosso nome,
leem,
como se de uma só voz tomássemos exposição de relevo,
concerto
ou pré-estreia de teatro.

Tradução de Aleksandar Jovanovic

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Murilo Mendes













"Impenitente"

Não acho consolo no meio dos outros.
Homens, tenho convosco a relação da forma.
Nuvem sólida, água virginal, água branca
E tu, grande sinfonia aérea,
Pertenceis aos anjos, não a mim.
Eu digo ao pecado: Tu és meu pai.
Eu digo à podridão: Tu és minha irmã.

A presença real do demônio 
É meu pão de vida cotidiano.
Minha alma comprime a aleluia gloriosa.

Hóstias puras, 
Inutilmente vos ergueis sobre mim.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Raul Bopp, "Negro"


Pesa em teu sangue a voz de ignoradas origens.

As florestas guardaram na sombra o segredo da tua história.
A tua primeira inscrição em baixo relevo foi chicoteada no lombo.

Um dia atiraram-te no bojo de um navio negreiro.

E durante noites longas vieste ouvindo o barulho do mar
Como um soluço dentro do portão soturno.

O mar era um irmão da tua raça.


Um dia de madrugada, uma nesga de praia e um porto.

Armazéns com depósitos de escravos
E o gemido dos teus irmãos amarrados numa coleira de ferro.

Principiou aí a tua história.

O resto, o Congo longínquo, as palmeiras e o mar
Ficou se queixando no bojo do urucungo*.

* urucungo - o mesmo que berimbau.

Zuenir Ventura, "Como tenho inveja das amendoeiras"


Telefonei um dia para Rubem — o Velho Braga, que hoje faria 100 anos — perguntando-lhe por que tinha feito das amendoeiras uma de suas musas inspiradoras, se nem brasileiras elas eram, mas indianas, como eu acabara de saber.

Discutia-se então a revelação de que, das 600 mil árvores existentes no Rio, 84% eram de origem exótica, e apenas 16%, nativas. Daí que a Fundação Parques e Jardins, à medida que as estrangeiras fossem morrendo, iria substituí-las por espécimes da Mata Atlântica. Não se tratava de xenofobia, como podia parecer; era para poupar o ecossistema da cidade, que, segundo os técnicos, se ressentia com a invasão estrangeira. O exotismo no caso era nocivo.

Eu sabia que o flamboyant tinha vindo da França, que a casuarina era africana e a palmeira imperial, portuguesa, não era verdade? Não, não era. A primeira é oriunda de Madagascar, a segunda da Austrália e a terceira do Caribe.

Rubem Braga não caía nessas pegadinhas. Não usava as plantas apenas para fazer crônicas poéticas. Era amante e grande conhecedor de sua alma e humores. Não é à toa que plantou um dos mais surpreendentes jardins suspensos da cidade que o filho Roberto e a nora Maria do Carmo fazem questão de manter e cuidar até hoje.

Sua resposta foi que as amendoeiras eram “árvores desentoadas”. Nunca estão de acordo entre si. Não se vestem nem se despem por igual. Eram como a gente: cada uma envelhecia com a idade, conforme o dia de nascimento — com a vantagem de que a cada ano fenecem, mas também renascem.

A partir de então passei a olhar as amendoeiras de minha rua com inveja. Fiquei imaginando como seria bom chegar a cada junho, mês em que nasci, com o cabelo caindo, a pele enrugada, mas podendo me refugiar em casa aguardando a muda.

Um ano depois faria minha rentrée triunfal, novinho em folha, pronto para admirar as mulheres que, segundo Rubem, em janeiro, sob a influência do verão, “sentem o coração lânguido, e se espreguiçam de um modo especial; começam a dizer uma coisa e param no meio, seus olhos brilham devagar, elas ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de descobrir um estranho passarinho”.

Meu sonho não seria a imortalidade. Nada de estender a vida, como muitos desejam. Se eu pudesse escolher, eu preferiria esticar a juventude. Que a existência humana continuasse limitada aos 70/80 anos, tudo bem, mas que, durante o tempo de duração, eu pudesse compartilhar com as amendoeiras de minha rua o milagre da renovação — todos os anos.

 (Publicada no blog do Noblat).

sábado, 12 de janeiro de 2013

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Fernando Pessoa, "Natal"


Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procure nem creias: tudo é oculto.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Maria Bethânia e Nana Caymmi cantando "Sussuarana", de Heckel Tavares e Luiz Peixoto.


Federico Garcia Lorca














"Ai!"

O grito deixa no vento
uma sombra de cipreste.

        (Deixai-me neste campo
chorando.)

        Tudo se partiu no mundo.
Não resta mais que o silêncio.

        (Deixai-me neste campo
chorando.)

         O horizonte sem luz
está mordido de fogueiras.

         (Eu já vos disse que me deixeis
neste campo
chorando.).



quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Dámaso Alonso, "Como era"


A porta, aberta. 
                        Veio calma e suave.
Nem matéria nem espírito. Trazia
uma ligeira inclinação de nave
e uma luz matinal de claro dia.

De ritmo não era, ou de harmonia,
nem de cor. O coração a sabe,
mas dizer como era não poderia
pois não é forma, nem na forma cabe.

Língua, barro mortal, cinzel inepto,
deixa a flor intacta do conceito
na clara noite desta minha boda,

e canta mansamente, humildemente,
a sensação, a sombra, o acidente,
enquanto Ela me enche a alma toda.

Tradução de José Bento.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

João Cabral de Melo Neto, "Num monumento à aspirina"


Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

 
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Juan Ramón Jimenez












"Tarde última e serena..."

Tarde última e serena,
breve como a vida,
fim de tudo que amei;
eu quero ser eterno!

- Atravessando as folhas,
o sol, já cobre, vem
ferir-me o coração.
Eu quero ser eterno!

Ó beleza que vi,
não te apagues jamais!
Pra que sejas eterna,
eu quero ser eterno!

Tradução de José Bento.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Eucanaã Ferraz



"O coração"
 
Quase só músculo a carne dura.
É preciso morder com força.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Luís Miguel Nava











"Retrato"

A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurava protecção.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Paulo Henriques Britto












 
"Horácio no Baixo"
(Odes I, 11)

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer, O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último -
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanha, o que vier é lucro.

O "Baixo" do título, se refere ao "Baixo Leblon", pedaço boêmio do bairro na zona sul carioca.
O poema conversa com a Ode de Horácio, conhecida como "Carpe Dien", postada em 05.08.2012
http://leiovejoeescuto.blogspot.com.br/2012/08/horacio.html