quinta-feira, 17 de abril de 2014
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Jorge de Sena
"Aos cinquenta anos"
Aos cinquenta anos sou um ser perplexo,
não como aos vinte, aos trinta, ou aos
quarenta,
mas radicalmente perplexo. Não sei
se amo a vida ou a detesto. Se desejo
ou não desejo continuar vivendo.
Se amo ou não amo aqueles que amo,
se odeio ou não odeio os que detesto.
Se me quero patriarca, pai de família,
como acabei sendo,
ou se me quero livre pelas ruas
nocturnas
como quando não acabei de descobri-las
em décadas de andá-las, perseguindo
sequer o amor mas corpos, corpos,
corpos.
Sou de Europa ou de América? De Portugal
ou Brasil? Desejo que toda a humanidade
seja feliz como queira, ou quero que ela
morra
do cogumelo atómico prometido e
possível?
Não sei. Definitivamente, não sei.
Julgas que estou deitado num leito de
rosas?
— perguntava ao companheiro de tortura Cuauhtemoc
*.
Mas, mesmo destituído, preso e torturado,
ele era o Imperador, descendente dos
deuses.
Eu não descendo dos deuses. O corpo
dói-me,
que envelhece. O espírito dói-me de um
cansaço físico.
As belezas de alma, seja de quem forem,
deixaram
[de interessar-me.
Resta a poesia que me enoja nos outros
a não ser antigos, limpos agora do
esterco
de terem vivido. E eu vivi tanto
que me parece tão pouco. E hei-de morrer
desesperado por não ter vivido. Aos 50
anos
nem sequer a raiva dos outros ainda me
sustenta
o gosto e a paciência de estar vivo.
Outros que tentem e descubram:
que digam ou não digam é-me indiferente.
* Cuauhtemoc foi o último imperador dos Astecas.
Em 1520, foi preso, torturado e morto por Hernán Cortés.
terça-feira, 15 de abril de 2014
Ingmar Heytze, "Primeira meditação"
És a única árvore no mundo que recusa
crescer em direcção à luz. Em vez disso enterras-te
com raízes cada vez mais profundas,
camada de terra após camada, tempo passado,
rumo ao calor, e calculas já estar a meio caminho.
Depressa deixas de sentir as toupeiras, minhocas
ou raízes de outros seres, tetra-cego das cavernas
na sua noite infinita. O frio é cada vez maior.
Não sabes se consegues crescer a distância necessária
para encontrares o magma. Estás só, mas a caminho.
Tradução de Maria Leonor Raven-Gomes.
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segunda-feira, 14 de abril de 2014
domingo, 13 de abril de 2014
Eucanaã Ferraz, "O doido"
Diziam, verdade ou não, que fora rico e são
e que a despeito dos bens que possuíra
acabara endividado, falido e torto. Talvez
por isso, embora miserável a cabeça
reta, o andar
de quem governa e pisa terra extensa e sua
em perambular sob o sol absoluto,
absorvido sabe-se lá por que delírios.
Absolvido sabe-se lá por que delírios,
insultava o vento e o vazio numa agitação
de cabelos e palavras e era comum
vê-lo penteando com seus dedos
encardidos a água das praias,
como se província sua,
como sua líquida mulher ou filha.
Viveu assim, entre feridas e piolhos,
até que desceu anoite
e uma pedra veio busca-lo.
sábado, 12 de abril de 2014
Mário de Sá-Carneiro, "Aquel'outro"
O dúbio mascarado - o mentiroso
Afinal, que passou na vida incógnito.
O Rei-lua postiço, o falso atónito -
Bem no fundo, o covarde rigoroso.
Em vez de Pajem, bobo presunçoso.
Sua Alma de neve, asco dum vómito.
Seu ânimo, cantado como indómito,
Um lacaio invertido e pressuroso.
O sem nervos nem ânsia – o papa-açorda*,
(Seu coração talvez movido a corda...)
Apesar de seus berros ao Ideal.
O raimoso, corrido, o desleal,
O balofo arrotando Império astral:
O mago sem condão - o Esfinge Gorda.
* Papa-açorda - s.m. Pessoa indolente, mole, palerma.
* Papa-açorda - s.m. Pessoa indolente, mole, palerma.
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sexta-feira, 11 de abril de 2014
quinta-feira, 10 de abril de 2014
António Osório, "Os cães"
Os cães, tantos. Sem cuidarem
da torpeza
lambem as nossas mãos.
Misteriosa religião a deles.
O rosto do seu Deus não temem
e contemplam lado a lado.
Nem a Moisés tal foi consentido.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
José Gomes Ferreira, "Serenata cínica para o Bettencourt cantar"
Menino que vais na rua,
não cantes nem chores: berra!
Cospe no céu e na lua
e aprende a pisar a terra.
Aprende a pisar o mundo.
Deixa a lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.
Aprende a pisar a vida.
Deixa a lua às costureiras
- pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.
Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.
Pisa a lua sem remorsos,
estatelada no solo...
Não hesites! quebre os ossos
dessa criança de colo.
Pisa-a, frio, com coragem,
sem olhos de serenata;
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.
Menino que vais na rua,
não chores, nem cantes: berra!
ou então, salta pra lua
e mija de lá na terra.
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terça-feira, 8 de abril de 2014
segunda-feira, 7 de abril de 2014
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Camões e a tença"
Tu irás ao paço. Irás pedir que a tença*
Seja paga na data combinada
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce
Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou mais ser que a outra gente
E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto
Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência
Este país te mata lentamente
* tença - Pensão dada em remuneração de serviços.
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domingo, 6 de abril de 2014
Sidônio Muralha, "Romance"
Depois daquela noite os teus seios incharam;
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, e falaram...
Por que falaram duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural?
Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval...
Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
- Os teus seios desincharam;
só a tristeza ficou.
Ficou a tristeza duma coisa tão bela,
tão simples, tão natura...
- Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval...
sábado, 5 de abril de 2014
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Herberto Helder, "Não sei como dizer-te..."
Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima,
– eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.
– E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes caem no meio do tempo,
– não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço –
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.
quinta-feira, 3 de abril de 2014
Antônio Carlos Secchin
"Arte"
a Antônio Cicero
Poemas são palavras e presságios,
pardais perdidos sem direito a ninho.
Poemas casam nuvens e favelas
e se escondem após no próprio umbigo.
Poemas são tilápias e besouros,
ar e água à beira de anzóis e riscos.
São begônias e petúnias,
isopor ou mármore nas colunas,
rosas decepadas pelas hélices
de voos amarrados ao chão.
Resto do que foi orvalho,
poema é carta fora do baralho,
milharal virando cinza
pelo fogo do espantalho.
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quarta-feira, 2 de abril de 2014
terça-feira, 1 de abril de 2014
Carlos Machado, "Garrafa de náufrago"
não procures
teus objetos perdidos
nas gavetas
do implausível
tua aliança de ouro
que caiu no mar
(ou no bar?)
o guarda-chuva esquecido
no ônibus
o bibelô de estimação
que abriu a terra e sumiu
não busques a sombra
desses fantasmas:
os ácidos do tempo
diluíram tudo
guarda apenas
em tua caderneta de campo
que um dia tiveste
um anel
um guarda-chuva ou
um bibelô de estimação
e se quiseres terminar
a história com
um toque melodramático
escreve um bilhete
e lança no Tietê
uma garrafa de náufrago
segunda-feira, 31 de março de 2014
Konstantinos Kaváfis, "A cidade"
Disseste: "Irei à outra terra, irei a outro mar.
Uma outra cidade há de achar-se melhor que esta.
Cada esforço meu é uma condenação fatal;
e está no meu coração — como morto — enterrado.
Meu espírito até quando ficará neste marasmo?
Para onde volte meu olhar, para qualquer lugar que atente
ruínas negras de minha vida vejo aqui,
onde tantos anos passei, e a destruí e arruinei".
Novos lugares não encontrarás, não encontrarás outros mares.
A cidade te seguirá. Às mesmas ruas voltarás.
E nos mesmos bairros envelhecerás;
e nestas mesmas casas encanecerás.
Sempre a esta cidade chegarás. Quanto a outros
[lugares — não tenhas esperanças —
não há navio para ti, não há caminho.
Assim como destruíste tua vida aqui
neste pequeno recanto, em toda a terra arruinaste-a.
Tradução de Isis Borges da Fonseca.
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domingo, 30 de março de 2014
sábado, 29 de março de 2014
Anna Akhmátova, "A verdadeira ternura..."
A verdadeira ternura não se confunde
com coisa alguma. É silenciosa.
Em vão envolves com cuidado
os meus ombros e meu colo nesta estola.
Em vão palavras carinhosas
dizes sobre o nosso primeiro amor.
Como conheço bem esses insistentes
e insatisfeitos olhares teus.
sexta-feira, 28 de março de 2014
Edwin Morgan
"Um Cigarro"
Não há fumo sem ti, meu fogo.
Depois de teres partido,
O teu cigarro cresceu no meu cinzeiro
E enviou uma linha de uma cinza muito calma.
E sorri a quem iria acreditar no seu sinal
de tanto amor. Um cigarro
no cinzeiro do não-fumador.
Enquanto a última espiral
estremece, uma pequena corrente de ar
sopra o seu caminho no meu rosto.
É cheiro, é gosto?
Tu estás aqui de novo, e eu estou bêbado no teus
lábios de tabaco.
Fora com a luz.
Deixa o fumo esconder-se no escuro.
Até eu ouvir a mesma cinza
Suspirar entre as flores de bronze.
Respirarei, após a meia-noite, o teu último beijo.
Tradução de Pedro Calouste.
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quinta-feira, 27 de março de 2014
quarta-feira, 26 de março de 2014
Donizete Galvão, "Mundo mudo"
salta, mundo,
desse caroço
de pedra
em que estás aprisionado
toda rua termina
em muro
toda palavra representa
uma falha
salta, mundo,
desse caroço
de pedra
vence
as camadas de aluvião
para que aflore
um grão
um broto
um grito
para quem está exausto
de auscultar teu corpo
ferido
terça-feira, 25 de março de 2014
Bastos Tigre, "Eterna incógnita"
Não sei quem sou nem sei por que motivo
Vim ao mundo e o que nele vim fazer.
Sei que penso e, portanto, sei que vivo,
Neste anseio instintivo de viver.
Porque procedo do homem primitivo,
Há rugidos de fera no meu ser.
Bom e mau, triste e alegre, humilde e altivo,
Não me posso, a mim mesmo, compreender.
Pois se, de mim, não sei causa e destino,
Que dos outros, do mundo, saberei?
Que definir, se a mim não me defino?
E sigo, ao léu da vida, a ignota lei,
Descrendo das verdades que imagino
E acreditando em tudo o que não sei.
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