quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Jorge Luis Borges, "de que nada se sabe"
A lua ignora que é tranquila e clara
E nem ao menos sabe que é a lua;
A areia, que é areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
Tão alheias são as peças de marfim
Ao abstrato xadrez como a mão
que os rege. Talvez o fado humano
De breves sortes e penas sem fim
Seja instrumento de Outro. Nós o ignoramos;
Dar-lhe nome de Deus não traz defesa.
Vãos também são o temor, a incerteza
E a truncada oração que iniciamos.
Que arco terá lançado esta seta
Que sou? Que cume pode ser a meta?
Tradução de Josely Vianna Baptista.
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Leis estranhas na Carolina do Sul (EUA)
-- É um crime capital matar alguém inadvertidamente, ao tentar um suicídio.
-- Mulheres solteiras não podem comprar calcinhas comestíveis.
-- A pessoa tem de ter 18 anos ou mais para brincar em fliperama.
-- Todos os homens adultos devem levar um rifle à igreja no domingo, para repelir ataques indígenas.
-- Ao se aproximar de um cruzamento de quatro vias ou uma interseção cega, o veículo não puxado a cavalo deve parar a 30 metros e disparar tiros para advertir o tráfego de cavalos.
-- É proibido bater na mulher nas escadarias do tribunal no domingo.
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
domingo, 21 de fevereiro de 2016
Lúcio Cardoso, "Há um momento onde um silêncio enorme desce"
Há um momento onde um silêncio enorme desce
e as ilhas cativas submergem - o oceano respira
na lenta convulsão de um mundo em transe,
face a face com o céu que a noite ordena.
Algas, faúlhas, frêmitos de luz vagueiam
em torno a essas colunas que se arqueiam
sob a imensa abóboda das águas
- medonho céu onde as anêmonas rutilam.
Há um momento de pausa - um iris passa,
glauco, solene, em meio à solidão profunda.
Outros monstros sucedem, olhos que fitam,
astros, dedos de luz, corpos que se desenlaçam,
verdes sereias montando o dorso dos corais,
torres, sinos, mastros, bandeiras que estremecem,
uma cidade inteira que viaja
na insondável penumbra dos abismos...
Há um momento onde qualquer coisa se abre.
sábado, 20 de fevereiro de 2016
Myriam Fraga, "Esfinge"
Revesti-me de mistério
Por ser frágil,
Pois bem sei que decifrar-me
É destruir-me.
No fundo, não me importa
O enigma que proponho.
Por ser mulher e pássaro
E leoa,
É destruir-me.
No fundo, não me importa
O enigma que proponho.
Por ser mulher e pássaro
E leoa,
Tendo forjado em aço
As minhas garras,
É que se espantam
E se apavoram.
Não me exalto.
Sei que virá o dia das respostas
E profetizo-me clara e desarmada.
E por saber que a morte
É a última chave,
As minhas garras,
É que se espantam
E se apavoram.
Não me exalto.
Sei que virá o dia das respostas
E profetizo-me clara e desarmada.
E por saber que a morte
É a última chave,
Adivinho-me nas vítimas que
estraçalho.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Odylo Costa, filho, "O Testamento de Dom Sebastião"
Não foi para esquecer minha
fraqueza carnal que vim à guerra
mas para retomar a visão do
Imperador:
a vitória virá com o Sinal
da Cruz nos céus.
Mas, se Deus não me julgar
digno,
quero findar, no campo de
batalha,
comigo mesmo e o grande
sonho do Esperado,
ouvindo ainda, dentro de
mim,
o ressoar do grito de
alegria do povo quando nasci,
homens e mulheres correndo
nas ruas de Lisboa, acordadas noite
[ alta, rumo à Sé:
— O Desejado! O Desejado!
Sei que os Embaixadores de
Espanha murmuram
porque nunca levantei olhos
para dona,
esqueço-me no jogo de canas
todo um dia,
mas nem por um instante
espio as janelas,
e só me prometem a Infanta
por ser muito menina.
Meu corpo não se fez para
corpo delicado de mulher,
nem permito que toquem
minhas mãos com suas mãos
- quando me servem o vinho
nas copas de louça -
para não tentar minha
castidade cristã, prometida em confissão.
Nos dedos de minha Mãe,
nesses confiaria,
repousaria,
me esqueceria,
mas minha Mãe partiu e não
a conheci:
tinha eu cem dias, de nada
me lembro,
tinha eu cem dias: pela
última vez lhe suguei o leite do seio.
Nunca mais a vi — e era
homem feito e rei quando morreu.
Nem ao menos recordo seus
cabelos, seus olhos, seu rosto.
Fui órfão de mãe viva
mas sei, por ouvir toda
manhã, com o Padre Nosso,
e à tarde, com a Ave Maria
das vésperas,
que era louçã, perfeita na
carne e no espírito.
Sei também que nunca deixou
de pensar em mim
e mandou médicos de Castela
para cuidar desta minha timidez
[ diante das mulheres.
Sua presença é que me libertaria,
pobre de Minha Mãe,
filha do Imperador,
princesa de Espanha — e sempre viúva!
Sozinha até na morte
dolorosa.
Quanto a mim, sou belo e
forte mas desconforme,
tenho cabelos louros e
olhos azuis,
a assimetria dos
escolhidos, o belfo e os sangues dos Austrias,
e às vezes atravesso as
noites sem dormir,
sonhando sem sono o Mundo e
os novos mundos.
Se me canso na caça não é
por sede de sangue
mas para que o cansaço mate
a insônia.
Não vim para possuir ou ser
possuído,
pois as mulheres
enfraquecem o Herói
e não quero morrer de amar
— como meu Pai.
Não me imagino Rei,
sentado,
imóvel,
doméstico,
brincando como o príncipe
francês,
adoçado por presenças
infantis.
Nem quero gerar filhos
porque sei que os teria de
matar:
meu próprio primo conheço
como foi que morreu.
Sei também
que é no papel que agora se
criam impérios,
mas detesto o papel e as
artes da escrita
porque distraem as mãos que
mudam a História.
Neto de João Terceiro e
Carlos Quinto,
sou o Capitão de Cristo.
Somente? Somente.
Mas haverá missão maior?
Mando mais alto?
Sonho África não pelos
escravos
mas pelo areal sem árvores.
Hei de ajoelhar os mouros
diante da Cruz de Nosso
Senhor.
Mandei a meu tio Filipe,
num casco de ouro puro,
meu desprezo pelas riquezas
do mundo, manejadas
[dos gabinetes,
meu amor da glória nos
combates.
Meus soldados trouxeram
guitarras na bagagem,
eu, uma coroa cerrada de
César
para quando a vitória me
coroar Imperador,
— só, entre os meus, Eu,
puro, diante de Deus!
Espero o sinal de Sua
vontade.
Ele, só Ele, pode o milagre
e a conquista do Gral.
Não sou homem do mar mas da
peleja em terra
e da armadura de prata.
Confio na mão de Deus!
Se perder, pelo peso e
culpa dos meus pecados,
não pela pouca fé do meu
povo,
capaz de preferir os
cilícios de ferro às roupas de seda,
se perder, meu Deus!…
a morte não me reconhecerá
de tão mudado que estarei.
Montado em meu cavalo
sabedor,
investirei contra os homens
e a sorte,
para mergulhar no
desconhecido.
Sei que nenhum português
ficará vivo
vendo seu Rei morrer.
Caladas as violas do
acampamento,
desaparecerei banhado em
sangue que não será somente meu.
Ressurgirei num touro
manso.
desfeito em areias brancas,
do outro lado do Oceano.
Dom Sebastião, rei de Portugal, desapareceu em 1578, aos 24 anos, na batalha de Alkacer Quibir, no Marrocos. Na ilha de Lençóis, no litoral do Maranhão, terra do autor, há uma lenda que ele reaparece de noite, cavalgando nos areais.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
Ferreira Gullar
"Fim"
Como não havia ninguém
na casa aquela
terça-feira tudo
é suposição: teria
tomado seu costumeiro
banho
de imersão por volta
de meio-dia e trinta e
de cabelos ainda
úmidos
deitou-se na cama para
descansar não
para morrer
queria
dormir um pouco
apenas isso e
assim não lhe
terá passado pela
mente - até
aquele último segundo
antes de
se apagar no
silêncio - que
jamais voltaria
ao ruidoso mundo
da vida
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
Lúcio Cardoso, "O demônio no terraço"
Às noites, no terraço, plantas ardiam:
begônias crivadas de fulgores,
dálias amedrontadas pelo luxo,
folhas de azul e de carmim:
às noites.
Músicas se armavam nos andantes
onde uma pausa destoava do frêmito
feito de espera e aquiescência:
o violino era de ouro
e vogava em mar de Irlanda:
no terraço, em torno às plantas, noites ardiam.
Menino tecido em açúcar e avelã:
dono do espaço,
em certas horas cintilavam as begônias no terraço.
Noite foi, não é manhã:
sobre as telhas acorda um bocejo de jasmim.
baixo e pequeno, canta
um demônio vestido de morte e cetim.
O luxo se distende e torna-se espaço.
domingo, 14 de fevereiro de 2016
Aleilton Fonseca, "Moças e garças"
O rio mergulhava em nossas tardes
e nos vinha inundar os olhos,
enquanto olhávamos as garças
que pousavam nas pedras baixas,
com suas asas talhadas:
chegássemos mais perto delas,
voejavam no lençol corrente,
e só as águas sobravam.
O rio se afogava em nossas noites
e nos vinha inundar os sonhos,
enquanto olhávamos as moças
que escoavam nas pedras baixas,
com suas curvas molhadas:
chegássemos mais perto delas,
diluíam-se na água corrente
e só os desejos sobravam.
sábado, 13 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Xue Tao, "Peônia"
Deixaste-me no ano passado, no fim da primavera
Minhas lágrimas molham o papel vermelho* só de pensar nessa lembrança
Muitas vezes eu temi que estivéssemos separados para sempre
Porque nos revemos hoje, com uma alegria inesperada?
Tu me cercas de teus carinhos e do teu perfume que embriaga
Não precisamos de palavras, pois nos compreendemos ao menor sinal
Vamos colocar nossas almofadas perto da balaustrada
Cochicharemos nosso amor até altas horas.
* Na China, as cartas de amor são escritas geralmente em papel de cor vermelha.
Peônia, o título do poema, é uma planta que se cultiva pelas suas flores vermelhas. rosadas ou brancas.
Xue Tao (768-834) nasceu numa família rica e recebeu boa educação literária. Depois que a desgraça se abateu sobre seu pai, tornou-se prostituta, mas nunca abandonou a poesia. Alguns poetas e mandarins a ajudaram a sair da prostituição.
O poema foi traduzido do chinês para o francês por Shi Bo, e dai para o português por Sérgio Caparelli.
* Na China, as cartas de amor são escritas geralmente em papel de cor vermelha.
Peônia, o título do poema, é uma planta que se cultiva pelas suas flores vermelhas. rosadas ou brancas.
Xue Tao (768-834) nasceu numa família rica e recebeu boa educação literária. Depois que a desgraça se abateu sobre seu pai, tornou-se prostituta, mas nunca abandonou a poesia. Alguns poetas e mandarins a ajudaram a sair da prostituição.
O poema foi traduzido do chinês para o francês por Shi Bo, e dai para o português por Sérgio Caparelli.
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Leis estranhas na Carolina do Norte (EUA)
Carolina do Norte
-- O casamento é declarado anulado se uma das duas pessoas se tornar fisicamente impotente.
-- Sexo oral é um crime contra a natureza.
-- É ilegal fazer sexo no pátio de uma igreja.
-- Sexo só é permitido na “posição missionária” (papai-mamãe) e sem óculos escuros.
-- Se um homem e uma mulher, solteiros, forem a um hotel ou motel, no momento em que se registrarem serão considerados legalmente casados.
-- Todos os casais que pernoitarem em hotéis são obrigados a ter um quarto com duas camas, a pelo menos 61 centímetros de distância. Fazer amor no espaço entre as duas camas é estritamente proibido.
-- É ilegal cantar desafinado.
-- Pessoas em posse de substâncias ilegais devem pagar impostos sobre elas.
-- Organizações não podem fazer reuniões quando seus membros estão fantasiados.
-- Em Chapel Hill: É um delito urinar ou defecar em público.
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
António Nobre
"Soneto"
Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios:
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.
Nunca desperto de manhã, contente.
Pálido sempre com os lábios frios,
Ora, desfiando os meus rosários pios...
Fora melhor dormir, eternamente!
Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter como têm os mais rapazes,
Olhos boiados em sol, lábio vermelho!
Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, então, depois de velho.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Lúcio Cardoso, "O Tempo"
Sentou-se, e já partia olhando a bruma.
Havia copos brilhando na manhã.
Errava um cheiro de incenso.
Quem era, o coração apaziguado?
Levantou-se, e toda luz
arrastou-se aos seus pés. Inerme,
luz vencida, hora transposta,
além do jardim, além.
Havia bruma.
Nem ficou nem partiu. Olhando
continuou a desmantelar-se.
Não era real; viveu o segundo
e floresceu alto como uma rosa.
Desfez-se virgem.
domingo, 7 de fevereiro de 2016
sábado, 6 de fevereiro de 2016
Paulo Henriques Britto, "2ª Epifânia trivial"
As coisas que te cercam, até onde
alcança tua vista, tão passivas
em sua opacidade, que te impedem
de enxergar o (inexistente) horizonte,
que justamente por não serem vivas
se prestam para tudo, e nunca pedem
nem mesmo uma migalha de atenção,
essas coisas que você usa e esquece
assim que larga na primeira mesa —
pois bem: elas vão ficar. Você, não.
Tudo que pensa passa. Permanece
a alvenaria do mundo, o que pesa.
O mais é enchimento, e se consome.
As tais Formas eternas, as Idéias,
e a mente que as inventa, acabam em pó,
e delas ficam, quando muito, os nomes.
Muita louça ainda resta de Pompéia,
mas lábios que a tocaram, nem um só.
As testemunhas cegas da existência,
sempre a te olhar sem que você se importe,
vão assistir sem compaixão nem ânsia,
com a mais absoluta indiferença,
quando chegar a hora, a tua morte.
(Não que isso tenha a mínima importância.)
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Luís Antonio Cajazeira Ramos,"Nunca mais serei eu mesmo"
Cada último poema é o último, pois
nada há mais a dizer depois, pra nunca mais,
que sempre, se me entrego ao verso, é totalmente
- mais nada sobra em mim, vazado, mais que sempre.
Toda em cada verso, a poesia (que mistério)
nunca se esgota ou esvai, pois, com seu próprio lastro,
está pra sempre inteira, pronta a um novo verso
- e cada novo poema é o novo! ... e eu sou o resto.
Se me dou por inteiro, o que sobra de mim?
Se me fluí no verso, perdi-me de vez...
- vez que, na alma do verso, só está quem o lê.
Sendo assim (que destino, esse meu!), pra me ter,
devo ler-me a mim mesmo no verso que fiz
- eu, que tenho essa imensa poesia a viver!...
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Maria do Rosário Pedreira, "Mãe, eu quero ir-me embora..."
Mãe, eu
quero ir-me embora - a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.
Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.
Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-m
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.
Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.
Mãe, eu quero ir-me embora - os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim - tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.
Mãe, eu quero ir-me embora - nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-m
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.
Mãe, eu vou-me embora - esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua - a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste que um dia chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.
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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
José Cândido de Carvalho, "Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon"
Lulu Bergantim veio de longe, fez
dois discursos, explicou por que não atravessou o Rubicon, coisa que ninguém
entendeu, expediu dois socos na Tomada da Bastilha, o que também ninguém
entendeu, entrou na política e foi eleito na ponta dos votos de Curralzinho
Novo. No dia da posse, depois dos dobrados da Banda Carlos Gomes e dos versos
atirados no rosto de Lulu Bergantim pela professora Andrelina Tupinambá, o novo
prefeito de Curralzinho sacou do paletó na vista de todo mundo, arregaçou as
mangas e disse:
- Já falaram, já comeram biscoitinhos de
araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!
E sem mais aquela, atravessou a
sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua
do Cais. O povo, de boca aberta, não lembrava em cem anos de ter acontecido um
prefeito desse porte. Cajuca Viana, presidente da Câmara de Vereadores, para
não ficar por baixo, pegou também no instrumento e foi concorrer com Lulu
Bergantim nos trabalhos de limpeza. Com pouco mais, toda a cidade de
Curralzinho estava no pau da enxada. Era um enxadar de possessos! Até a
professora Andrelina Tupinambá, de óculos, entrou no serviço de faxina. E
assim, de limpeza em limpeza, as ruas de Curralzinho ficaram novinhas em folha,
saltando na ponta das pedras. E uma tarde, de brocha na mão, Lulu caiu em
trabalho de caiação. Era assobiando "O teu-cabelo-não-nega, mulata,
porque-és-mulata-na-cor" que o ilustre sujeito público comandava as
brochas de sua jurisdição. Lambuzada de cal, Curralzinho pulava nos sapatos,
branquinha mais que asa de anjo. E de melhoria em melhoria, a cidade foi
andando na frente dos safanões de Lulu Bergantim. Às vezes, na sacada do
casarão da prefeitura, Lulu ameaçava:
- Ou vai ou racha!
E uma noite, trepado no coreto da
Praça das Acácias, gritou:
- Agora a gente vai fazer serviço
de tatu!
O povo todo, uma picareta só,
começou a esburacar ruas e becos de modo a deixar passar encanamento de água. Em
um quarto de ano Curralzinho já gozava, como dizia cheio de vírgulas e crases o
Sentinela Municipal do "salutar benefício do chamado precioso
líquido". Por força de uma proposta de Cazuza Militão, dentista prático e
grão-mestre da Loja Maçônica José Bonifácio, fizeram correr o pires da
subscrição de modo a montar Lulu Bergantim em forma de estátua, na Praça das
Acácias. E andava o bronze no meio do trabalho de fundição, quando Lulu
Bergantim, de repente, resolveu deixar o ofício de prefeito. Correu todo mundo
com pedidos e apelações. O promotor público Belinho Santos fez discurso. E
discurso fez, com a faixa de provedor-mor da Santa Casa no peito, o Major
Penelão de Aguiar. E Lulu firme:
- Não abro mão! Vou embora para
Ponte Nova. Já remeti telegrama avisativo de minha chegada.
Em verdade Lulu Bergantim não foi
por conta própria. Vieram buscar Lulu em viagem especial, uma vez que era
fugido do Hospício Santa Isabel de Inhangapi de Lavras. Na despedida de Lulu
Bergantim pingava tristeza dos olhos e dos telhados de Curralzinho Novo. E ao
dobrar a última rua da cidade, estendeu o braço e afirmou:
- Por essas e por outras é que não
atravessei o Rubicon!
Lulu foi embora embarcado em nunca-mais. Sua estátua
ficou no melhor pedestal da Praça das Acácias. Lulu em mangas de camisa, de
enxada na mão. Para sempre, Lulu Bergantim!
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José Cândido de Carvalho
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
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