quinta-feira, 19 de abril de 2018
Fagundes Varela, "Enojo"
Vem despontando a aurora, a noite morre,
desperta a mata virgem seus cantores,
medroso o vento no arraial das flores,
mil beijos furta e suspirando corre.
Estende a névoa o manto e o val pecorre,
cruzam-se as borboletas de mil cores,
e as mansas rolas choram seus amores
nas verdes balsas onde o orvalho escorre.
E pouco a pouco se esvaece a bruma,
tudo se alegra à luz do céu risonho
e ao flóreo bafo que o sertão perfuma.
Porém minh'alma triste e sem um sonho
murmura olhando o prado, o rio, a espuma:
como isto é pobre, insípido, enfadonho!
quarta-feira, 18 de abril de 2018
Ivan Junqueira, "Ladainha"
Pois agora que estais
sob essa tábuas frias
entre os vermes da terra
e os cravos da agonia:
agora que a lembrança
da carne se esfarinha
e o pó vos tinge as tíbias
no fundo do jazigo;
agora que dormis,
no jardim das delicias,
esse sono sem fim
que dormem os espíritos;
agora que jazeis
alheios ao suplício
em que se consumiu
vossa esquálida vida
- agora é que vos choro
junto à lápide estrita
da eterna desvalia.
Amém. Amém vos digo.
terça-feira, 17 de abril de 2018
segunda-feira, 16 de abril de 2018
Antônio Carlos Secchin, "Poema do infante"
É a noite.
E tudo escava tudo
na língua ambígua que desliza
para o esquivo jogo.
Amargo corpo,
que de mim a mim se furta,
não recuso teu percurso
no hálito das pedras
que me existem em ti
- estéril dorso entre águas
estancadas.
O nada, o perto, o pouco,
não posso dividir
do que se espera o que me habita,
ao fazer fluir a via antiga
de um menino que mediu o lado impuro.
Operário do precário,
me limito nesse corpo amanhecido,
asa e gozo onde a morte mora.
Minha vida, mapeada e descumprida,
está pronta para o preço dessa hora.
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domingo, 15 de abril de 2018
Abgar Renault, "A Ela"
São frios os meus versos como Tu:
como os teus dedos lívidos de gelo,
como esse olhar sem órbitas, nem pálpebras,
como a lâmina dessa foice fria
que, fria, Tu manejas friamente.
Nos escassos parênteses que deixas
entre meu mim e teus abraços de ossos
eu mal me encontro e mal consigo ver-me
no mesmo espelho em que me via outrora
e mal me sei como sabia quando
teu vulto ainda não aparecera
tal a segunda sombra do meu corpo.
Não sei que forma e fundo me darás,
não sei para que quando e para que onde
carregarás minha alma e minha carne;
só sei ser impossível meu fugir-Te,
como impossível é meu esperar-Te
sem de frio tremer e de pavor,
e meu desejo é apenas esquecer-Te
para esquecer que não me esquecerás.
sábado, 14 de abril de 2018
sexta-feira, 13 de abril de 2018
Cecília Meireles, "Entre lágrimas se fala..."
Entre lágrimas se fala
- e Deus sabe o que se sente!
Mas de longe não se escuta
nem se entende.
A voz é rouca e dorida
e a distância, tão penosa...
Quem sofre já não se espanta:
cala e chora.
Apenas, uma pergunta
às vezes, tímida, ocorre:
para que, noites e dias,
chora e sofre?
Quando amanhã todos formos
a mesma terra perdida,
ninguém saberá das dores
que sofria.
Onde o lábio sem resposta?
Onde, os olhos ainda cheios...?
Onde, o coração que havia?
Onde o peito?
De tão longe, não se escuta.
Não se escuta e não se entende.
Deus, entre as lágrimas fala:
- não se sente.
quinta-feira, 12 de abril de 2018
António Ramos Rosa, "Desmancha-se o cavalo ? Jamais..."
Desmancha-se o cavalo ? Jamais.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea.
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira.
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
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quarta-feira, 11 de abril de 2018
terça-feira, 10 de abril de 2018
Iacyr Anderson Freitas, "Oráculo de eros"
Para que não seja o teu corpo
a parte proibida do horto.
Mas a volúpia que marcasse,
entre volutas, tua face.
Somente a tua: mais nenhuma
com tamanho langor de espuma.
Com tamanha extensão de chama,
que até a memória se inflama
a cada letra do teu nome
(pois todas as outras consome).
Que seja o teu corpo o instrumento
tocado em pelo contra o vento
e por ele, vento, encarnado,
a salvo de teu próprio achado,
por fim tão senhor quanto escravo
: corpo de onde eu mesmo me escavo.
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segunda-feira, 9 de abril de 2018
Luiz de Camões e Antônio Carlos Secchin .
O soneto abaixo do Secchin é quase uma atualização dos impulsos e do vocabulário de um homem contemporâneo, feito sobre o conhecido soneto de Camões, transcrito no final.
"Sete anos de pastor "
Penetro Lia, mas Raquel é quem me move,
e faz meu corpo desatar toda alegria.
Se tenho Lia, minha pele não navega
nada além de nada em névoa fria.
Sete anos galopando em Lia e tédio,
sete anos condenado ao gozo escuro.
Raquel me tenta, e se me beija Lia
minha boca é não, e minha mão é muro.
Labão, o puto, perdoai-me nesse instante,
adoro a dor que doer em minha amante.
Vou cravar-lhe um punhal exausto e certo,
doar seu sangue ao livro e à ventania.
Quieta Lia será terra em que os cavalos
vão pastar, sob a serra e o deus do dia.
"Sete anos de pastor Jacob servia..."
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.
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domingo, 8 de abril de 2018
sábado, 7 de abril de 2018
Cecilia Meireles, "Venturosa de sonhar-te ..."
Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)
-Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!
Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para lever-te comigo
é suspiro e pensamento.
-Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!
sexta-feira, 6 de abril de 2018
Eugénio de Andrade, "Lisboa"
Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. Tu sabias?
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quinta-feira, 5 de abril de 2018
quarta-feira, 4 de abril de 2018
Soror Violante do Céu, "Soneto em diálogo"
Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.
Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.
Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.
Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento
Para ser mais capaz de tal Monarca.
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Sóror Violante do Céu
terça-feira, 3 de abril de 2018
Francisca Júlia, "À noite"
Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um réquiem doloroso.
No alto uma estrela triste as pálpebra descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...
Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma...
É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.
segunda-feira, 2 de abril de 2018
domingo, 1 de abril de 2018
Antônio Carlos Secchin, "Paisagem"
Pela fresta
um naco do verão de copa
ataca o exército vermelho dos caquis.
Pedaço fino de sol
esgueirado entre esquadrias.
Mandíbulas da fome. A procissão solene
de formigas insones. No mármore
o açúcar Pérola explode em dádiva.
Mosquitos baratos
beijando-se aos pares nos pratos.
Zumbem abelhas vesgas
na mesa onde o abacaxi
oferta sua flor feroz.
Lingüiça, preguiça e sábado
ensaboando-se nas mãos.
Boca sôfrega
frente ao sossego do pêssego.
E a paz. Só de leve o nada
um pouco se move.
Brasil, Barata Ribeiro, ano mil
novecentos e cinqüenta e nove.
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sábado, 31 de março de 2018
Leis estranhas em Nevada (EUA)
-- Andar de camelo em rodovia é ilegal.
-- Enforcar alguém por atirar eu seu cachorro, em sua propriedade, é permitido.
-- Em Eureka: Homem com bigode viola a lei se beijar uma mulher.
-- Em Nyala: Um homem é proibido de comprar drinques para mais de três pessoas, além de si mesmo, a qualquer hora do dia.
-- Em Reno: Deitar na calçada é contra a lei. Também: Bancos não podem ser colocados no meio de qualquer rua. Ainda: Brinquedos sexuais são proibidos.
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Leis estranhas,
Reportagem
sexta-feira, 30 de março de 2018
quinta-feira, 29 de março de 2018
Murilo Mendes, "A destruição"
Morrerei abominando o mal que cometi
E sem ânimo para fazer o bem.
Amo tanto o culpado como o inocente.
Ó Madalena, tu que dominaste a força da carne,
Estás mais perto de nós do que a Virgem Maria,
Isenta, desde a eternidade, da culpa original.
Meus irmãos, somos mais unidos pelo pecado do que pela Graça:
Pertencemos à numerosa comunidade do desespero
Que existirá até a consumação do mundo.
quarta-feira, 28 de março de 2018
Cecília Meireles, "Canção"
Eras um rosto
na noite larga
de altas insônias
iluminada.
Serás um dia
vago retrato
de quem se diga:
“o antepassado”.
Eras um poema
cujas palavras
cresciam dentre
mistério e lágrimas.
Serás silêncio,
tempo sem rastro,
de esquecimentos
atravessado.
Disso é que sofre
a amargurada
flor da memória
que ao vento fala.
terça-feira, 27 de março de 2018
segunda-feira, 26 de março de 2018
Murilo Mendes, "A danação"
Há fortes iluminações sem permanência.
A parte da Graça é tão pequena
Que me vejo esmagado pelo monumento do mundo.
Quem me ouvirá? Quem me verá? Quem me há de tocar?
Chorai sobre mim, sobre vós e sobre vossos filhos.
A fulguração que me cerca vem do demônio.
Maldito das leis inocentes do mundo
Não reconheço a paternidade divina.
Eu profanei a hóstia e manchei o corpo da Igreja:
Os anjos me transportam do outro mundo para este.
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