quarta-feira, 6 de junho de 2018
Manuel Bandeira
"Quando perderes o gosto humilde da tristeza..."
Quando perderes o gosto humilde da tristeza,
Quando, nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;
Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
- A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;
Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,
E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:
Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:
Então sorri pela última vez, tristemente,
A tudo que outrora
Amaste. Sorri tristemente...
Sorri mansamente... em um sorriso pálido... pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe... Sobre a sua fronte morte...
terça-feira, 5 de junho de 2018
Eucanaã Ferraz, "Les romanciers étrangers"
Ela implorou por um beijo.
Sabia que um só beijo
e tudo estaria bem,
que outro beijo viria,
mais um, outro e tudo mais.
Sim, ela implorou chorando
que lhe desse um beijo e só.
Mas ele disse que não.
Firme e frio, disse que não.
Ele sabia, sem dúvida,
que se cedesse ao pedido
tudo estaria bem e
que outro beijo viria
e ele, decididamente,
não queria. Foi por isso
que ficou daquele modo,
firme, frio. Ela implorava,
olhos inchados, vermelhos,
estava dessa maneira
quando saíram à rua
e ele fingia que nada,
nada havia acontecido.
Mas como ele conseguia
ser assim, intransponível?
Diante dela, parecia
que se convertera em pedra,
pedra inteiramente não,
muro inteiramente muro.
Que fazemos quando alguém
que amamos se faz assim
diante de nosso desejo,
frente a nosso desespero?
Hoje os olhos estão secos.
Ela lembra. E ela entende
que tudo foi bem pior:
porque a pedra não era ele,
porque a pedra era ela mesma,
apesar de toda lágrima.
Sim, ela era a pedra dele,
em que ele a transformara.
segunda-feira, 4 de junho de 2018
domingo, 3 de junho de 2018
Hilda Hilst, "Do amor contente e muito descontente"
Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor,
Infância,
Sóis e sombras.
Vou dizer coisas terríveis à gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me.
(Em todos os lugares o mundo se comprime.)
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar de tédio.
As casas estão cheias. As mulheres parindo sem cessar,
Os homens amando sem amar, ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor… Serei eu só
A revelar o escuro das janelas, eu só
Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo?
Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos. Intentemos,
Meu pai, o poema desigual e torturado.
E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo.
sábado, 2 de junho de 2018
Cecília Meireles, "1º Noturno da Holanda"
O rumor do mundo vai perdendo a força,
e os rostos e as falas são falsos e avulsos.
O tempo versátil foge por esquinas
de vidro, de seda, de abraços difusos.
A lua que chega traz outros convites:
inclina em meus olhos o celeste mapa,
desmorona os punhos crispados do dia,
desenha caminhos, transparente e abstrata.
Arvores da noite... Pensamento amante...
- Transporta-me a sombra, na altura profunda,
aos campos felizes onde se desprende
o diurno limite de cada criatura.
É a noite sem elos... Inocência eterna,
isenta de mortes e natividades,
pura e solitária, deslembrada, alheia,
mudamente aberta para extremas viagens.
Eu mesma não vejo quem sou, na alta noite,
nem creio que SEJA: perduro em memória,
à mercê dos ventos, das brumas nascidas
nos dormentes lagos que ao luar se evaporam.
Recebo teu nome também repartido,
quebrado nos diques, levado nas flores...
Quem sabe teu nome – tão longe, tão tarde,
tão fora do tempo, do reino dos homens...?
sexta-feira, 1 de junho de 2018
Vitorino Nemésio, "Outro testamento"
Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.
Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.
Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.
Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Deem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.
quinta-feira, 31 de maio de 2018
quarta-feira, 30 de maio de 2018
Teixeira de Pascoaes, "A dor e o medo"
Quando sozinho, noite morta, rezo,
E a minha voz dos medos me defende,
E a tudo, à terra e ao céu, me sinto preso.
Vejo que a dor é a força que nos prende.
Enlouquecido de alma, canto e rezo.
Aflige-me o silêncio. Quem no entende?
A sombra me sufoca. É negro peso;
E, em fumo, do meu corpo se desprende.
Ó noite triste, noite que apavora,
Golpeada de estrelas, a sorrir...
Desnorteado, o vento clama e chora !
E quem sou eu? Quem sou? Na noite escura.
— O medo à morte certa que há-de vir
E a dor de ser humana criatura.
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terça-feira, 29 de maio de 2018
Luís de Camões, "Este amor que vos tenho, limpo e puro..."
Este amor que vos tenho, limpo e puro
De pensamento vil nunca tocado,
Em minha tenra idade começado
Tê-lo dentro nesta alma só procuro.
De haver nele mudança estou seguro,
Sem temer nenhum caso ou duro Fado,
Nem o supremo bem ou baixo estado,
Nem o tempo presente nem futuro.
A bonina e a flor asinha passa;
Tudo por terra o Inverno e Estio deita;
Só pera meu amor é sempre Maio.
Mas ver-vos pera mim, Senhora, escassa,
E que essa ingratidão tudo me enjeita,
Traz este meu amor sempre em desmaio.
segunda-feira, 28 de maio de 2018
domingo, 27 de maio de 2018
Ferreira Gullar
"No corpo"
De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.
sábado, 26 de maio de 2018
Donizete Galvão, "O poço"
I
O poço não é um buraco com água a céu aberto,
mas cristal líquido, cravado no tijuco cinza.
Cada dia o poço é um e está mudado em outro:
à custa de tanto uso, cada manhã mais novo.
Sempre outra é a dança dos círculos até a borda,
que pouca pedra basta para infinitos movimentos.
A primeira água do poço não serve para o pote,
pois sempre há cisco, insetos ou pele de ferrugem.
Entretanto, o fundo do poço tem belezas de parto:
a mina lança brotos de água e insufla areia fina.
Se à noite chove, o poço turva-se como quem morre.
Não amanhece espelho e sim buraco com água suja.
II
Beber água do poço, direto, sem caneca, exige tento,
pois a concha da mão não basta para quem tem sede.
Um modo elegante de para o poço fazer reverência
é tirar o chapéu e mergulhá-lo, agora mudado em copo.
O suor pode botar gosto de sal na água doce do chapéu,
mas o que refresca a garganta, também a cabeça esfria.
Outro modo, é quando há por perto folhas de inhame.
A água desliza no verde com sua película de prata.
E as gotas, na corda bamba, quais aquáticas bailarinas,
bailam tão puras, que a gente sente pena de bebê-las.
Mais um modo, é como o papa deitar-se de corpo inteiro:
a boca beija a água e, do fundo, outro olho nos enxerga.
Enquanto se engole a água, as costelas roçam o chão.
Não se sabe se o pulsar é dela, terra, ou dele, coração.
sexta-feira, 25 de maio de 2018
quinta-feira, 24 de maio de 2018
Eucanaã Ferraz, "Sem poder dizer de si mesmo"
O Alentejo não tem caroço nem casca,
não tem paredes nem teto; certa vez
um velho deixou suas memórias sobre a mesa
todas queimaram, porque os fantasmas lá
não resistem à luz que se lança de altas espigas
para o pátio onde cada faísca risca e dança
entre sobreiros junhos girassóis e dura
mesmo noite adentro. Sente o cheiro
da madeira queimada? São fantasmas, nada.
O mundo é pequeno, o Alentejo é imenso
e lá estava o homem depois de todas as viagens
sem poder dizer de si mesmo algo como:
o dono e seu retorno. Afinal, onde a casa
o relógio a mulher o cachorro o nome?
O retrato da Virgem a lâmpada a cama onde?
Desdobra-se o horizonte em céus em dunas
de poeira em túnicas no vento em fios
e não há nunca filhos ou amigos ou espelho.
Que lugar a cidade a fidelidade urdindo
desfazendo e outra vez os anéis sem fim
da espera? Indaga os livros os mortos
até que as areias do mar, do mar que
parecia distante,
lentamente - não, de repente - cobrem-lhe
a voz e o tempo. O mundo
é pequeno, o Alentejo é imenso.
quarta-feira, 23 de maio de 2018
Adriano Espínola, "O cavalo e o mar"
A Fernando Py
Na praia, um cavalo azul
imita o mar.
Com as crinas espumantes,
ondula sobre a areia.
Arremessa-se, furioso,
contra as dunas.
(Na sua garupa de alga,
El-Rei Dom Sebastião,
encantado, já cavalga
com a espada na mão.)
Veloz,
busca asas:
mito trespassado
de sonhos e sargaços.
O mar com suas líquidas patas
cavalga na praia.
Com os músculos retesados
de maré cheia,
investe,
resfolegante,
contra a areia.
Com as crinas de algas,
escoiceia
a manhã.
Encrespa-se todo,
buscando o cavalo:
mito ondulado de sal e tempo.
Ali,
os dois se enfrentam:
o cavalo-marinho
& o mar-eqüestre.
Indiferente,
o sol assiste
à peleja perene das criaturas.
terça-feira, 22 de maio de 2018
segunda-feira, 21 de maio de 2018
Fernando Pessoa, "A minha alma ajoelha ante o mistério..."
A minha alma ajoelha ante o mistério
Da sua íntima essência e próprio ser,
Faz altar do sentido de viver
E cálice e hóstia do seu grave etéreo
Senso de se iludir. Corpo funéreo
Doente da vida. Alma a aborrecer
O que nela é corpo… Vida a arder
Tédio, (e) as sombras são seu fumo aéreo.
Sombra de sonho… Hálito de mágoa…
Alma corpo de Deus, disperso e frio
Boiando sobre a morte como em água…
Indecisão… Penumbra do pensar.
Fonte oculta tornada claros rio…
Rio morrendo-se no imenso mar…
domingo, 20 de maio de 2018
Antônio Carlos Secchin, "Poema do infante"
É a noite.
E tudo escava tudo
na língua ambígua que desliza
para o esquivo jogo.
Amargo corpo,
que de mim a mim se furta,
não recuso teu percurso
no hálito das pedras
que me existem em ti
- estéril dorso entre águas
estancadas.
O nada, o perto, o pouco,
não posso dividir
do que se espera o que me habita,
ao fazer fluir a via antiga
de um menino que mediu o lado impuro.
Operário do precário,
me limito nesse corpo amanhecido,
asa e gozo onde a morte mora.
Minha vida, mapeada e descumprida,
está pronta para o preço dessa hora.
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sábado, 19 de maio de 2018
sexta-feira, 18 de maio de 2018
Ascânio Lopes, "Sanatório"
Logo, quando os corredores ficarem vazios,
e todo o Sanatório adormecer,
a febre dos tísicos entrará no meu quarto,
trazida de manso pela mão da noite.
Então minha testa começará a arder,
e todo meu corpo magro sofrerá.
E eu rolarei ansiado no leito
com o peito opresso e de garganta seca.
E lá fora haverá um vento mau
e as árvores sacudidas darão medo.
a Morte que quer entrar no meu quarto.
Os meus olhos brilharão como os de uma fera
que defende a entrada da sua morada.
quinta-feira, 17 de maio de 2018
Cecília Meireles, "Convite melancólico"
Vinde todos, e contemplai-nos:
que somos os da terra fatigados,
de cabelos hirsutos
e de joelhos sem força,
com palavras, paisagens, figuras humanas
pregadas para sempre em nossa memória.
Já nem queremos nada,
tanto estamos desgostosos:
nem água nem ouro nem beijo.
Para nunca mais – o horizonte e a sua flor!
Podeis vir, que já se extinguiram as revelações.
Nada vos custa o espetáculo.
Rasgou-se o traçado em que nós gastamos em sonho,
e a arquitetura que trazíamos
voa de novo, em números celestes.
Vinde e contemplai-nos, que entardece.
Nossas sombras caminham para o reino da Sombra.
Nunca mais sabereis como foram os nossos olhos:
vinde vê-los para (se isto ainda se repetir)
vossos filhos reconheceram prontamente
os modos e o destino dos que apenas amaram,
e passaram,
amarrados,
eles, que tinham vindo
mostrar apenas o divino dinamismo!
quarta-feira, 16 de maio de 2018
terça-feira, 15 de maio de 2018
Leis estranhas em New Jersey (EUA)
-- Quando, no trânsito, um policial fizer a pergunta padrão “você sabe por que mandei você encostar?” e o motorista responder “se você não sabe, não sou eu que vai lhe dizer”, este será automaticamente multado em US$ 300.
-- Motoristas devem advertir a quem quiser ultrapassar nas estradas, antes de fazê-lo.
-- Tintas de spray não podem ser vendidas, sem uma placa advertindo aos jovens sobre as penalidades para pichação.
-- Usar coletes à prova de bala ao cometer um crime é ilegal.
-- É obrigatório emprestar o telefone a uma pessoa que tiver uma emergência.
-- Um homem não pode tricotar durante a estação de pesca.
-- É proibido fechar a cara para um policial.
-- Maio é designado o “Mês da Conscientização da Bondade”.
-- Quem for condenado por dirigir intoxicado nunca mais receberá uma placa de veículo personalizada.
-- É proibido consumir sopa ruidosamente.
-- Em Blairstown: É proibido jogar cinzas na calçada.
-- Em Newark, é ilegal vender sorvete depois das 18h, a não ser que o cliente tenha uma autorização de seu médico.
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Consultor Jurídico,
Estados Unidos,
Leis estranhas,
Reportagem
segunda-feira, 14 de maio de 2018
Adriano Espínola, "Lixeira"
As cascas de ovo
& de banana
a folha de jornal
da semana
pedaços de couve
& de tomate
a palavra que sal-
tou suja de chão
o gesto que ficou
pela metade
a história que não
houve:
tudo isso úmido
tudo isso ido
doídoamassado
dentro de ti
e do saco de lixo.
domingo, 13 de maio de 2018
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