quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Lêdo Ivo, "O jumento"


No alto da crestada ribanceira
pasta o jumento. Seus grandes dentes amarelos
trituram o capim seco que restou
de anta primavera.
A terra é escura. No céu inteiramente azul
o sol lança os fulgores que aquecem
tomates, alcachofras e berinjelas.
O jumento contempla o dia trêmulo
de tanta claridade
e emite um relincho, seu tributo
à beleza do universo.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Donizete Galvão, "Diálogo"


-
Imagine o toque da navalha
trilhas abertas na pele da cara.

-
pense no corte da gilete
rompendo o tecido das veias
rastro de sangue
na areia
mar azul tinto de vermelho

-
e a possibilidade do salto
do edifício da Sears
gosto de abismo na boca
no voo reto para o asfalto?

-
e por que não a roleta russa
a bala exata zumbindo no ouvido?

-
e por aí foram
até que se quedaram
                                mortos
de tédio

domingo, 19 de outubro de 2014

Edson Cruz












"Bibliotecas"

A biblioteca do pai de Borges
foi o fato capital de sua vida.
Ele nunca saiu dela, disse.

Em minha casa nunca tive
livros.
O fato capital de minha vida
é não ter tido pai.

Minha mãe foi minha biblioteca.
Ensinou-me tudo.
Nunca saí dela.
Era analfabeta e deveria
ter se chamado Alexandria.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Moacir de Almeida


















"Desesperação de cinzas"

No martírio das minhas esperanças,
Tive raivas, blasfêmias, desvarios...
E ergui meus braços, hirtos como lanças,
Contra os astros sonâmbulos e frios.  

Porque jamais os sóis, em noites mansas,
Rasgassem luz nos meus fatais transvios,
Abri-me em ódios e desesperanças,
Como um vulcão se abre em clarões bravios.  

E - cratera de anátemas e assombros —
Tudo queimei em brasas de tormentos...
E, hoje, que o amor despenha em lama e escombros,

- Contra as constelações, a escurecê-las,
Arrojo as cinzas do meu tédio aos ventos
E a fumaça dos sonhos às estrelas...
 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Marly de Oliveira, "Retrato"

 
Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece
essa é a face necessária.

Escuto quando me falam,
de alma longe e rosto liso,
e os lábios vão sustentando
indiferente sorriso.

A força heróica do sonho
me empurra a distantes mares,
e estou sempre navegando
por caminhos singulares.

Inquiri o mundo, as nuvens
o que existe e não existe,
mas, por detrás das mudanças,
permaneço a mesma, e triste.
 

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Alexei Bueno, "Tróia"


Tudo houve aqui, e aqui era tão pouco...
Nem portais nem palácios, nem muralhas
Viram tais blocos de adobes e palhas,
Nem mesmo Aquiles rouco

De dor, nem um estranho cavalo oco...
Só ele, o Cego, os viu. Tantas batalhas
De após, entre milhões, foram migalhas
Junto a este sonho louco.

Vós, mortos de outras guerras, sois as lendas
Perto desses que nunca guerrearam.
Mortal nunca te prendas

Demais ao que achas que é. Quem faz o mundo
É o sonho. Os olhos do cego fitaram
o humano sol mais fundo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Jorge Wanderley

 

"Poesia"

Nem sempre está disponível
(agora mesmo não está)
mas às vezes diante de muita provocação,
fica: é preciso
estar com a cabeça boa
e cabeça também nem sempre está disponível,
como agora.

É preciso ter bom fígado
bons amigos - ou pelo menos um -
mulheres para lembrar ou praticar
decentemente. Nem sempre estão,
sem sempre. Como agora.
Versos que ecoam, alheios e próprios,
ajudam. Certa nervura que aparece
depois de arranhada, vergão
na pele da asa.

Asa é preciso.
mesmo quando pesa chumbada
ao chão, mortiça e torpe.
Algumas até propiciam, do peso, o sopro.

Sopro é preciso.
Quase sempre vem de fora.
E às vezes não vem ou vem do inferno
como agora.

sábado, 11 de outubro de 2014

Eugénio de Andrade, "Cala-te..."


Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não comtempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra dorme.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Micheliny Verunschk












"O livro"

Havia de encontrar
alguma velha ferida
e nela, supurando ainda,
teu rosto:
outonos e infinitos
esquecidos
entre páginas amareladas
e a dor,
essa inútil traça.

Antônio Carlos Secchin, "Margem"


Vou andando para a beira desse porto,
entre cheiros de cigarro e de sardinha
e um desejo líquido de partir.
Meu olhar desliza no horizonte, querendo saber
a que distância um nome deixa de doer.
Teu nome, marcado em minha boca
como a polpa de uma pera.
O navio enorme avisa que vai embora.
Escrevo a palav4ra salto,
e paro no sal, e não chego ao alto.
A noite está boiando
num óleo grosso de silêncio e luz.
Molho os pés, penso em teu nome: gozo
de um poço tampado. Perfil de musgos
na beira das águas redondas.
me vejo na ponta do cais,
cacos de luz
abrindo a cara do mar.
Destroços de palavras, pedaços de teu nome,
sílabas que batem contra os cascos.
Estou parado na beira de um porto,
azul e morte no oco do ar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Angela Melim, "Não sinto..."


Não sinto
(muito mais)
falta
nem saudade.

Estou tomando gosto das coisas.

Figuras e linguagem.

Uma laranja
diminutivo
sopinha quente
um sorriso
uma boa chuveirada.

O verão!
Como é colorido
Super.

O Rio de Janeiro.
Uma viagem.
Contradições. Sinônimos.

Que boa a mão da idade.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Lêdo Ivo, "Primeira lição"


Na escola primária
Ivo viu a uva
e aprendeu a ler.

Ao ficar rapaz
Ivo viu a Eva
e aprendeu a amar.

E sendo homem feito
Ivo viu o mundo
seus comes e bebes.

Um dia num muro
Ivo soletrou
a lição da plebe.

E aprendeu a ver.
Ivo viu a ave?
Ivo viu o ovo?

Na nova cartilha
Ivo viu a greve
Ivo viu o povo.

domingo, 5 de outubro de 2014

Antonio Cicero, "Eco"


A pele salgada daquele surfista
parece doce de leite condensado.
Como seu olhar, o mar é narcisista
e, na vista de um, o outro é espelhado.
E embora, quando ele dança sobre as cristas,
goste de atrair olhares extraviados
de banhistas distraídos ou artistas,
e claro que o mar é seu único amado.
Ei-lo molhado em pé na areia; folgado,
ao pôr-do-sol tem de um lado a prancha em riste
e usa do outro uma gata e um brinco e assiste
serenamente ao horizonte inflamado
e a brisa o alisa e enfim ele não resiste
à beleza e diz "sinistro" e ouve eco ao lado.

sábado, 4 de outubro de 2014

Judith Teixeira, "Volúpia", dito por Luis Gaspar.



Era já tarde e tu continuavas
entre os meus braços trémulos, cansados...
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!

Passaram horas!… Nossas bocas flavas,
Muito unidas, em haustos repousados,
Queimavam os meus sonhos macerados,
Como rescaldos de candentes lavas.

Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho...

Mas deslumbrou-se... e em rúbidos* adejos**
Ajoelhou-se... e numa luz vencida,
Sorveu…sorveu o mel dos nossos beijos!


*Rubido - adj. Que tem cor vermelha, rubra.

**Adejos - subst. Voos, voleios,

Ivo Barroso, "Icástico*"


Foi-se o tempo em que eras uma caveira
              e a foice
Vejo-te agora como tubos
              máscara de oxigênio
num quarto de hospital

Mas o horror ainda é o mesmo
nessa passagem para o nada

* icástico - adj. Que representa com clareza, sem artifícios, objetos ou ideias.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Neide Archanjo












"Do amor"

Não pude ser
o teu amor perfeito
antes esta ferida.
Por isso para ti
não serei a pele
- poro a poro teu alumbramento -
serei apenas cicatriz.

Perfeita.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Olga Savary












"Outra cena"

Sentada estavas quando ele entrou
seguido de uma princesa ou uma serpente.
Só sabes que teu rosto não mudou
mas em turvo mudou-se o transparente
riso de antes, pesados os gestos.
Viraste uma mulher que acordada
e de frente vê um sonho mau
se sonho e distante já nem sente
e que já não amando é como se amasse
e, perdido o amor, é como se o tecesse.

terça-feira, 30 de setembro de 2014