domingo, 15 de abril de 2018
Abgar Renault, "A Ela"
São frios os meus versos como Tu:
como os teus dedos lívidos de gelo,
como esse olhar sem órbitas, nem pálpebras,
como a lâmina dessa foice fria
que, fria, Tu manejas friamente.
Nos escassos parênteses que deixas
entre meu mim e teus abraços de ossos
eu mal me encontro e mal consigo ver-me
no mesmo espelho em que me via outrora
e mal me sei como sabia quando
teu vulto ainda não aparecera
tal a segunda sombra do meu corpo.
Não sei que forma e fundo me darás,
não sei para que quando e para que onde
carregarás minha alma e minha carne;
só sei ser impossível meu fugir-Te,
como impossível é meu esperar-Te
sem de frio tremer e de pavor,
e meu desejo é apenas esquecer-Te
para esquecer que não me esquecerás.
sábado, 14 de abril de 2018
sexta-feira, 13 de abril de 2018
Cecília Meireles, "Entre lágrimas se fala..."
Entre lágrimas se fala
- e Deus sabe o que se sente!
Mas de longe não se escuta
nem se entende.
A voz é rouca e dorida
e a distância, tão penosa...
Quem sofre já não se espanta:
cala e chora.
Apenas, uma pergunta
às vezes, tímida, ocorre:
para que, noites e dias,
chora e sofre?
Quando amanhã todos formos
a mesma terra perdida,
ninguém saberá das dores
que sofria.
Onde o lábio sem resposta?
Onde, os olhos ainda cheios...?
Onde, o coração que havia?
Onde o peito?
De tão longe, não se escuta.
Não se escuta e não se entende.
Deus, entre as lágrimas fala:
- não se sente.
quinta-feira, 12 de abril de 2018
António Ramos Rosa, "Desmancha-se o cavalo ? Jamais..."
Desmancha-se o cavalo ? Jamais.
A resposta vem da força dele.
Corre por cima dos desastres.
É fogo e pedra alta bem talhada.
Impossível quebrar-lhe a linha aérea.
que tem a terra toda nos seus cascos.
Pesa por si e pelo campo em torno.
E o tácito apelo do risco em frente.
Vive, portanto, mais alto que o tempo.
Ele próprio é bandeira sem bandeira.
o cavalo que nunca o é para si mesmo.
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quarta-feira, 11 de abril de 2018
terça-feira, 10 de abril de 2018
Iacyr Anderson Freitas, "Oráculo de eros"
Para que não seja o teu corpo
a parte proibida do horto.
Mas a volúpia que marcasse,
entre volutas, tua face.
Somente a tua: mais nenhuma
com tamanho langor de espuma.
Com tamanha extensão de chama,
que até a memória se inflama
a cada letra do teu nome
(pois todas as outras consome).
Que seja o teu corpo o instrumento
tocado em pelo contra o vento
e por ele, vento, encarnado,
a salvo de teu próprio achado,
por fim tão senhor quanto escravo
: corpo de onde eu mesmo me escavo.
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segunda-feira, 9 de abril de 2018
Luiz de Camões e Antônio Carlos Secchin .
O soneto abaixo do Secchin é quase uma atualização dos impulsos e do vocabulário de um homem contemporâneo, feito sobre o conhecido soneto de Camões, transcrito no final.
"Sete anos de pastor "
Penetro Lia, mas Raquel é quem me move,
e faz meu corpo desatar toda alegria.
Se tenho Lia, minha pele não navega
nada além de nada em névoa fria.
Sete anos galopando em Lia e tédio,
sete anos condenado ao gozo escuro.
Raquel me tenta, e se me beija Lia
minha boca é não, e minha mão é muro.
Labão, o puto, perdoai-me nesse instante,
adoro a dor que doer em minha amante.
Vou cravar-lhe um punhal exausto e certo,
doar seu sangue ao livro e à ventania.
Quieta Lia será terra em que os cavalos
vão pastar, sob a serra e o deus do dia.
"Sete anos de pastor Jacob servia..."
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.
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domingo, 8 de abril de 2018
sábado, 7 de abril de 2018
Cecilia Meireles, "Venturosa de sonhar-te ..."
Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)
-Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!
Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para lever-te comigo
é suspiro e pensamento.
-Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!
sexta-feira, 6 de abril de 2018
Eugénio de Andrade, "Lisboa"
Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. Tu sabias?
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quinta-feira, 5 de abril de 2018
quarta-feira, 4 de abril de 2018
Soror Violante do Céu, "Soneto em diálogo"
Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.
Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.
Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.
Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento
Para ser mais capaz de tal Monarca.
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Sóror Violante do Céu
terça-feira, 3 de abril de 2018
Francisca Júlia, "À noite"
Eis-me a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
Olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso,
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
Em serra, ecoa, longo, um réquiem doloroso.
No alto uma estrela triste as pálpebra descerra,
Lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
Um mórbido langor de calma e de repouso...
Em noite assim, de repouso e de calma,
É que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
A alma cheia de dor, a dor cheia de alma...
É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
Antegozando já quimeras pressentidas
Que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos.
segunda-feira, 2 de abril de 2018
domingo, 1 de abril de 2018
Antônio Carlos Secchin, "Paisagem"
Pela fresta
um naco do verão de copa
ataca o exército vermelho dos caquis.
Pedaço fino de sol
esgueirado entre esquadrias.
Mandíbulas da fome. A procissão solene
de formigas insones. No mármore
o açúcar Pérola explode em dádiva.
Mosquitos baratos
beijando-se aos pares nos pratos.
Zumbem abelhas vesgas
na mesa onde o abacaxi
oferta sua flor feroz.
Lingüiça, preguiça e sábado
ensaboando-se nas mãos.
Boca sôfrega
frente ao sossego do pêssego.
E a paz. Só de leve o nada
um pouco se move.
Brasil, Barata Ribeiro, ano mil
novecentos e cinqüenta e nove.
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sábado, 31 de março de 2018
Leis estranhas em Nevada (EUA)
-- Andar de camelo em rodovia é ilegal.
-- Enforcar alguém por atirar eu seu cachorro, em sua propriedade, é permitido.
-- Em Eureka: Homem com bigode viola a lei se beijar uma mulher.
-- Em Nyala: Um homem é proibido de comprar drinques para mais de três pessoas, além de si mesmo, a qualquer hora do dia.
-- Em Reno: Deitar na calçada é contra a lei. Também: Bancos não podem ser colocados no meio de qualquer rua. Ainda: Brinquedos sexuais são proibidos.
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sexta-feira, 30 de março de 2018
quinta-feira, 29 de março de 2018
Murilo Mendes, "A destruição"
Morrerei abominando o mal que cometi
E sem ânimo para fazer o bem.
Amo tanto o culpado como o inocente.
Ó Madalena, tu que dominaste a força da carne,
Estás mais perto de nós do que a Virgem Maria,
Isenta, desde a eternidade, da culpa original.
Meus irmãos, somos mais unidos pelo pecado do que pela Graça:
Pertencemos à numerosa comunidade do desespero
Que existirá até a consumação do mundo.
quarta-feira, 28 de março de 2018
Cecília Meireles, "Canção"
Eras um rosto
na noite larga
de altas insônias
iluminada.
Serás um dia
vago retrato
de quem se diga:
“o antepassado”.
Eras um poema
cujas palavras
cresciam dentre
mistério e lágrimas.
Serás silêncio,
tempo sem rastro,
de esquecimentos
atravessado.
Disso é que sofre
a amargurada
flor da memória
que ao vento fala.
terça-feira, 27 de março de 2018
segunda-feira, 26 de março de 2018
Murilo Mendes, "A danação"
Há fortes iluminações sem permanência.
A parte da Graça é tão pequena
Que me vejo esmagado pelo monumento do mundo.
Quem me ouvirá? Quem me verá? Quem me há de tocar?
Chorai sobre mim, sobre vós e sobre vossos filhos.
A fulguração que me cerca vem do demônio.
Maldito das leis inocentes do mundo
Não reconheço a paternidade divina.
Eu profanei a hóstia e manchei o corpo da Igreja:
Os anjos me transportam do outro mundo para este.
domingo, 25 de março de 2018
Hilda Machado, "Miscasting"
“So you think salvation lies in pretending?”
Paul Bowles
estou entregando o cargo
onde é que assino
retorno outros pertences
um pavilhão em ruínas
o glorioso crepúsculo na praia
e a personagem de mulher
mais Julieta que Justine
adeus ardor
adeus afrontas
estou entregando o cargo
onde é que assino
há 77 dias deixei na portaria
o remo de cativo nas galés de Argélia
uma garrafa de vodka vazia
cinco meses de luxúria
despido o luto
na esquina
um ovo
feliz ano novo
bem vindo outro
como é que abre esse champanhe
como se ri
mas o cavaleiro de espadas voltou a galope
armou a sua armadilha
cisco no olho da caolha
a sua vitória de Pirro
cidades fortificadas
mil torres
escaladas por memórias inimigas
eu, a amada
eu, a sábia
eu, a traída
agora finalmente estou renunciando ao pacto
rasgo o contrato
devolvo a fita
me vendeu gato por lebre
paródia por filme francês
a atriz coadjuvante é uma canastra
a cena da queda é o mesmo castelo de cartas
o herói chega dizendo ter perdido a chave
a barba de mais de três dias
vim devolver o homem
assino onde
o peito desse cavaleiro não é de aço
sua armadura é um galão de tinta inútil
similar paraguaio
fraco abusado
soufflé falhado e palavra fútil
seu peito de cavalheiro
é porta sem campainha
telefone que não responde
só tropeça em velhos recados
positivo
câmbio
não adianta insistir
onde não há ninguém em casa
os joelhos ainda esfolados
lambendo os dedos
procuro por compressas frias
oh céu brilhante do exílio
que terra
que tribo
produziu o teatrinho Troll colado à minha boca
onde é que fica essa tomada
onde desliga
sábado, 24 de março de 2018
sexta-feira, 23 de março de 2018
Dora Ferreira da Silva, "Agora, as coisas simples"
Agora, as coisas simples
antes cegas em nossos olhos.
E nada tocamos
mãos sobre as cordas mudas.
Se o som desperta é dele
o ouvido em flor. Mas corre o sangue
porque tudo é vivo sob as folhas mortas.
Sozinho se arma o acorde no piano
há surpresas na colheita deste ano, novos grãos na seara.
Sobre o braço em ângulo a fronte repousa
e o olhar reflete
uma flor.
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Dora Ferreira da Silva,
Poesia
quinta-feira, 22 de março de 2018
Alexei Bueno, "Enigma"
Certo mistério existe, indesvendado,
Escrito há eras sem conta, sobre os céus,
Por uma mão, talvez a mão de Deus,
Ressoando no criado e no incriado.
Para entendê-lo, deste e do outro lado
De tudo, angustiados como réus,
Demônios e anjos chocam-se nos seus
Vórtices, sem nenhum outro cuidado.
À volta dele os seres e as esferas
Inutilmente orbitam pelas eras
Na ânsia de desvelar a eles imposta.
Revolvem-se em legiões desamparadas,
Enquanto aqui, na noite, entre as calçadas,
És, e somente tu, sua resposta.
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