domingo, 24 de julho de 2011

Cassiano Ricardo, "Poema Implícito"

O que a vida nos faz
supor esteja atrás dos objetos.
A presença do oculto,
o que a fotografia não nos diz.

As coisas
que não chegou a me dizer Lenora,
a que foi
morar no reino dos pássaros mudos.
E que mais me feriram justamente
porque não chegaram a ser ditas.

Os gritos, esculpidos na boca
das figuras de pedra.
Tudo o que é implícito.
Tudo o que é tácito.
Não gosto dos explícitos.

Gosto dos tácitos.
Daqueles que me dizem tudo
sem me dizer uma única palavra.
Não amo os lógicos,
os socráticos.

Amo os lunáticos,
os de cabeça virgem
e lírica.

Não amo os pássaros que cantam,
amo os pássaros mudos.

sábado, 23 de julho de 2011

Miguel Torga











"Penélope"

Ulisses desterrado
No mar da vida,
Digo o teu nome e encho a solidão.
Mas pergunto depois ao coração
Por quanto tempo poderás ainda
Tecer e destecer a teia da saudade ...
Vê se não desesperas
E me esperas
Até que eu volte, e à sombra da velhice
Te conte, envergonhado,
A indignas façanhas
Que cometi
Na pele do semi-deus que nunca fui…
Sê tu divina, de verdade, aí,
Nessa ilha de esperança,
Fiel ao nosso amor
De humanas criaturas.
Faz que seja bonito
O mito
Das minhas aventuras.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Eugenio Montale


















"Imitação do trovão"

Todo mundo, parece,
imita um modelo
sem o saber, empresa descabida.
Mas o pior ocorre com quem pensa
ver o seu por diante como uma estátua.
Não imitai o mármore, senhores. Se não podeis
conter-vos, modelai-vos do pó,
dos cabelos do vento, do raspar
das cigarras, do inverossímel
ribombar do trovão, no céu sereno.
Modelai-vos, digo, até do nada
se a ilusão tendes ainda de poder
roçar sequer a cópia daquela plenitude
de que estais vazios.

Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Mário Quintana, "Pequeno Poema Didático"

O tempo é indivisível. Dize,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vário.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre…
Todas as horas são horas extremas!

terça-feira, 19 de julho de 2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Luís Miguel Nava, " Os nós da escrita"

Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o
que na realidade acabo sempre por fazer seja embrulhar
ainda mais os fios. A própria caligrafia é sufocada.
Há, todavia, um momento em que as palavras são
cuspidas, saem em borbotões, e o sangue e a saliva
impregnam o sentido. É impossível separá-los.
Por trás talvez não haja mesmo nada. São palavras que
não estão ginasticadas, que secam e encarquilham como
folhas por que a seiva já não passe.
Oprimem toda a página, através da qual deixa de ser
possível respirar. Tapam-lhe os poros. A própria chuva
que neles caia não se escoa.

domingo, 17 de julho de 2011

Hilda Hilst, "Se me viessem à boca ..."

Se me viessem à boca
As palavras foscas
Para te abrandar.
Se levez e sopro
Habitassem a casa
Do meu corpo
Não seria eu aquela do teu gosto
E amaria lírios
Ao invés de ostras.
Se comedimento
Mornidão, prudência
Me dourassem a carne
E o coração
Tu me dirias rouco
Que a bem do Desejo
Desfez-se o Paraíso
E inventou-se a Paixão.

Bem porisso preserva
Quem te sabe inteiro.
Cala teu instante
De um ciúme que repete
Que devo ser repouso
E contenção.

sábado, 16 de julho de 2011

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Armando Freitas Filho, "Sobre uma foto de Edward Weston"

Sobre uma foto de Edward Weston

Nua, anônima, 1923. Vinte anos presumíveis
branca, em decúbito dorsal, com o tronco
arqueado (talvez pela respiração presa
no instante único da foto, ou melhor:
foi a foto que a sustou, a suspendeu
para sempre), e mais o cheiro, parado
do grosso cabelo preto do púbis
do pouco que aparece nas axilas não raspadas
que saboreio, degusto, engulo em seco
sinto o gosto, agora, porque a pele
do corpo é de hoje, setenta e oito anos depois
e brilha, lisa, morena de sol, sem nenhum sinal
de vida, porém. Teus olhos fechados te encerram.

Creio que foi esta foto:
Nude (México - 1923)
Foto de Edward Weston.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Adélia Prado, "Dolores"

Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

terça-feira, 12 de julho de 2011

Jorge de Sena, "Aviso de porta de livraria "

Não leiam delicados este livro,
sobretudo os heróis do palavrão doméstico,
as ninfas machas, as vestais do puro,
os que andam aos pulinhos num pé só,
com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante,
enquanto com a terceira vão tapando a boca
dos que andam com dois pés sem medo das palavras.

E quem de amor não sabe fuja dele:
qualquer amor desde o da carne àquele
que só de si se move, não movido
de prémio vil, mas alto e quase eterno
.
De amor e de poesia e de ter pátria
aqui se trata:que a ralé não passe
este limiar sagrado e não se atreva
a encher de ratos este espaço livre
onde se morre em dignidade humana
a dor de haver nascido em Portugal
sem mais remédio que trazê-lo n'alma.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Alice Ruiz













"tem os que passam ..."

tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados

tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido

e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado

domingo, 10 de julho de 2011

sábado, 9 de julho de 2011

Eucanaã Ferraz, "Rimas para Suzana"

O amor com que Suzana
rega as plantas do jardim.

Segue o mundo, segue a rua,
seque tudo até ao fim.

Suzana persiste, atenta; mais,
concentrada; mais, amorosa,

como se o universo fora
a erva, a orquídia, a rosa.

O amor com que Suzana
planta, replanta, vela,

como se cuidasse do tempo
e a água viesse dela.

Ao redor de seus cuidados
se ajunta de tudo a sede:

o alecrim, a bromélia,
um verde que não se mede.

O amor com que Suzana
se faz mãe e matinal,

matando a sede de azul
da montanha, do animal,

sede de água e carinho,
sede de tudo o que esteja

na quadra de seu jardim
ainda que seu jardim seja

a memória, o mundo todo.
O amor é o seu modo.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Jorge de Lima, Poema XII do Canto VII - Audição de Orfeu, da INVENÇÃO DE ORFEU.

Com todo o amoroso ódio e a angústia mansa
há na face um desânimo latente;
qualquer coisa exaurida na distância
para dar à paixão outra vertente.

Entristeço-me ao ruído persistente
do tempo para trás como a memória,
permaneço ora ileso ora ilusório.
Que segredo tão árduo eu esse doente.

E entre temeridades e temores
dou às coisas irreais nova constância
sob o peso dos seres meus e vossos.

Pois de todos os grandes desatinos
que possuem densidades diferentes,
diante de muitos sou sózinho e ossos.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Íbico, "Eros, de novo, sob pálpebras sombrias ..."

Eros, de novo, sob pálpebras sombrias
lança-me olhares molhados
de manhas mil.
E me enreda nas malhas cerradas
da deusa da beleza.
À sua aproximação,
tremo
como um cavalo atrelado,
antes pronto a vencer,
agora hesitante
ante carros mais rápidos.

Tradução de Décio Pignatari

Íbico viveu no século IV a.C.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Drummond, "A máquina do mundo"

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

domingo, 3 de julho de 2011

Cecília Meireles, "Pequena Flor"

Como pequena flor que recebeu uma chuva enorme
e se esforça por sustentar o oscilante cristal das gotas
na seda frágil, e preservar o perfume que aí dorme,

e vê passarem as leves borboletas livremente,
e ouve cantarem os pássaros acordados sem angústia,
e o sol claro do dia as claras estátuas beijando sente,

e espera que se desprenda o excessivo, úmido orvalho
pousado, trêmulo, e sabe que talvez o vento
a libertasse, porém a desprenderia do galho,

e nesse temor e esperança aguarda o mistério transida
- assim repleto de acasos e todo coberto de lágrimas
há um coração nas lânguidas tardes que envolvem a vida.

sábado, 2 de julho de 2011

Jorge de Lima, Poema XIII do Canto VII- Audição de Orfeu, da INVENÇÃO DE ORFEU.

E esse velho e atroz poema?
Quem acaso o arquitetou?
Que mão sem braço o escreveu?
Que Leonora o mereceu?
Que mulheres vivem nele?
Que loucura o escureceu?
Ó tecido de memórias
recuadas de meu tempo
que a eternidade comeu!

Ó noites claviculares,
epopéia sem guerreiro,
humana sobrevivência
das lembranças recalcadas,
cem avós en cada cântico
prévio nunca amanhecido.

Deixai-me nele.

sexta-feira, 1 de julho de 2011