quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Juan Ramón Madariaga, "Verticalmente"
te distanciastes verticalmente para sempre
tão decidida como a espada estendida no mar
agora sou como um desses velhos pássaros
que não podem emigrar de teu coração.
Tradução de Angela Caon Pieroccini.
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Poesia
terça-feira, 17 de setembro de 2013
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Roberto Piva, "Abandonar tudo ..."
abandonar tudo. conhecer praias. amores novos.
poesia em cascatas floridas com aranhas
azuladas nas samambaias.
todo trabalhador é escravo. toda autoridade
é cômica. fazer da anarquia um
método & modo de vida. estradas.
bocas perfumadas. cervejas tomadas
nos acampamentos. Sonhar Alto.
domingo, 15 de setembro de 2013
Alexei Bueno
"Glória"
Bêbado, às duas da manhã,
Parei na loja de ovos e aves.
Subi na grade e, em grande afã,
Cacarejei, de ecoar nas traves.
Os galos todos acordaram
Cheios de brio e, num só coro,
Com seu cacarejo enfrentaram
O meu, mais forte, mais sonoro.
Saltavam todas as galinhas.
Penas voavam loja afora.
Ligavam luzes nas vizinhas
Casas. Parti. Criara a aurora.
sábado, 14 de setembro de 2013
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Jorge Luis Borges, "Os enigmas"
Eu que sou o que agora está cantando
serei em breve o misterioso, o morto,
o morador de um mágico e deserto
orbe sem antes nem depois nem quando.
Assim afirma a mística. Não julgo
que mereça o Inferno nem a Glória,
porém nada prevejo. Nossa história
se altera como as formas de Proteu*.
Que errante labirinto, que brancura
cega pelo fulgor será minha sorte,
quando me entregue o fim desta aventura
essa curiosa experiência, a morte?
Quero beber seu cristalino Olvido,
ser para sempre; mas nunca ter sido.
* Proteu - Fig. Indivíduo que facilmente muda de opinião.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
William Shakespeare, "Por que meus versos ..."
Por que meus versos são tão nus de ornato novo?
Por que é que em não mudar se mostram persistentes?
Por que, com o nosso tempo, o meu olhar não movo
Para combinações e métodos recentes?
Por que é que uma só coisa escrevo, sem varia-la,
E guardo em vestes tão notórias a invenção
Que cada termo meu quase o meu nome fala,
Mostrando onde nasceu e qual a sua intenção?
Só escrevo sobre ti, meu amor, não vês?
Somente tu e o meu amor formais meu argumento;
O que já está usado usando ainda uma vez,
Dou veste nova ao verbo antigo, eis meu talento.
Pois como o sol é velho e novo cada dia,
Coisas já ditas meu amor reenuncia.
Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos
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quarta-feira, 11 de setembro de 2013
terça-feira, 10 de setembro de 2013
José Saramago, "Receita"
Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado.
Uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz dum corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
Alexei Bueno, "Vidência"
Se os nossos olhos te enxergassem, rosa,
E não só: “É uma rosa” nos dissessem
Na vulgar gradação que nunca esquecem,
Que epifania na manhã tediosa!
Se eles vissem, ao vê-la, cada coisa
E não seu nome, se afinal pudessem
Fugir da furna abstrata onde destecem
A vida, um morto partiria a lousa
Maciça de aqui estar. Flor, nuvem muro,
Árvore, que é uma só e não tal nome,
Se tudo entrasse o corredor escuro
Se tudo entrasse o corredor escuro
Que há em nós, algo de exato se ergueria,
Algo que para o tempo ou que o consome,
Que alveja a noite e entenebrece o dia.
domingo, 8 de setembro de 2013
sábado, 7 de setembro de 2013
Carlos Drummond de Andrade, "Relógio do Rosário"
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva
pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,
que se entrelaça no meu próprio chôro,
e compomos os dois um vasto côro.
Oh dor individual, afrodisíaco
sêlo gravado em plano dionisíaco,
a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,
dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,
convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,
prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,
dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,
dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa
tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,
dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,
dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!
Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?
Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?
O amor elide a face... Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta
que não macule ou perca sua essência
ao contacto furioso da existência.
Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,
a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário
já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
José Fernandez De La Sota, "Fidelidade"
Não são os que tivemos
entre os braços úmidos
uma noite, há muito tempo.
Nem são os que quisemos
para toda a vida
enquanto durou o verão.
Não podem ser tampouco
os que reconhecemos
com sua sombra na nossa.
A esses atraiçoamos
pois só ao desejo
podemos ser fiéis.
Não são os que tivemos.
São os corpos pensados
os que nunca abandonamos.
Tradução amadora minha.
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quinta-feira, 5 de setembro de 2013
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Mario Quintana, "Nunca"
Nunca ninguém sabe se estou louco para rir ou para chorar...
Por isso o meu verso tem
esse quase imperceptível tremor...
A vida é triste, o mundo é louco!
Nem vale a pena matar-se por isso.
Nem por ninguém.
Por nenhum amor...
A vida continua, indiferente.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Fabrício Carpinejar, "Meu filho comigo"
Meu filho, não terminamos
de conversar mesmo dormindo.
Nossas tosses continuam o assunto.
Uma responde à outra.
Uma completa a outra.
São tosses educadas,
que não ofendem a noite.
Somos tremendamente
felizes na doença.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
domingo, 1 de setembro de 2013
João Cabral de Melo Neto
"Conselhos do Conselheiro"
1
Temer quedas sobremaneira
(não as do abismo, da banheira).
Andar como num chão minado,
que se desmina, passo a passo.
Gestos há muito praticados,
melhor seria ressoletrados.
2
A coisa mais familiar
já pode ser o patamar
onde um corredor conhecido,
que se caminha ainda tranquilo,
leva a uma certa camarinha*
que ninguém sabe o que continha.
3
Uma porta qualquer que se abre
só ao fechá-la é que se sabe
que não foi afinal a porta
que só abre do lado de fora:
embora como porta se abra
é só de um lado sua bisagra*
4
De cada cama em que se sobe
se descerá? E que se pode?
E cada cama em que se deita
não será acaso a derradeira,
que tem tudo de cama, quase;
menos a tampa em que fechar-se.
*Camarinha - Quarto pequeno, geralmente de dormir; pequena câmara.
* Bisagra - Dobradiça
sábado, 31 de agosto de 2013
Adélia Prado, "Objeto de amor"
De tal ordem é e tão precioso
o que devo dizer-lhes
que não posso guarda-lo
sem que me oprima a sensação de um roubo:
cu é lindo!
Fazei o que puderdes com esta dádiva.
Quanto a mim dou graças
pelo que agora sei
e, mais que perdoo, eu amo.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Eucanaã Ferraz, "Papel tesoura e cola"
Dia de verão na Vista Chinesa. Eu, sozinho,
era um mandarim frio; mas vendo tudo
do alto, tomado pela beleza, achei que
em meu coração a tristeza era mesquinha;
pensar em mim e em você me pareceu avareza,
tendo em vista que nós somos bem menores
vistos do Alto da Boa Vista. Janeiro bicicletas
bem-te-vis entraram pelos meus olhos
abrindo em cheio meu peito; que sombra
demoraria à luz de tantas lanternas?
Mesmo a noite mais profunda logo se incendiara
e, decerto, morreríamos só depois da madrugada.
Era uma tarde chinesa, tarde de mim sem você,
quando vi que nós dois juntos não valíamos
a cena.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Cesário Verde, "Heroísmos"
Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.
Eu temo o mar rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
os ruídos dum túmulo disforme.
Contudo num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n'água quase assente.
E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!
terça-feira, 27 de agosto de 2013
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Hilma Ranauro, "Não-ser"
Tal como a folha amassada
do poema não escrito
e o esboço do quadro
não concluído
e o bocejo do sono
interrompido pelo relógio
o indício do não fecundo
se apresenta no alvo absorvente.
domingo, 25 de agosto de 2013
Kabir
"Há uma lua no meu corpo ..."
Há uma lua no meu corpo e eu não consigo ver.
Uma lua e um sol.
Um tambor intacto, rufando, e eu não consigo ouvir.
Enquanto o homem se preocupa com a sua morte
[e com aquilo que possui
O seu esforço é inglório.
Quando o sentimento de si e daquilo que possui se desvanece
É porque conquistou o conhecimento.
A flor da macieira existe para criar frutos.
Quando o fruto sobrevém as pétalas caem.
O almíscar existe dentro do veado mas o veado não o procura;
vagueia procurando erva.
Kabir foi um sábio e poeta indiano que viveu no século XV.
Tradução de Jorge de Sousa Braga.
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