quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Neide Archanjo, "Da poesia"


Esculpo a página a lápis
e um cheiro de bosque
então me aparece.
Que a poesia é feita de romãs
daquilo que é eterno
e de tudo que apodrece.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Manuel Bandeira, "Na rua do sabão"











"Na Rua do Sabão"

Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!


O que custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor,

                                           [compôs os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame.


Ei-lo agora que sobe - pequena coisa tocante na escuridão do céu.
Levou tempo para criar fôlego.
Bambeava, tremia todo e mudava de cor.
A molecada da Rua do Sabão
Gritava com maldade:
Cai cai balão!


Subitamente, porém, entesou, enfunou-se e arrancou das
                                                                   [mãos que o tenteavam.
E foi subindo...
                            para longe...
                                                    serenamente...
Como se o enchesse o soprinho tísico do José.


Cai cai balão!

A molecada salteou-o com atiradeiras
                        assobios
                        apupos
                        pedradas.


Cai cai balão!

Um senhor advertiu que os balões são proibidos pelas posturas
                                                                                     [municipais.
Ele foi subindo...
                                  muito serenamente...
                                                                         para muito longe...


Não caiu na Rua do Sabão.
Caiu muito longe... Caiu no mar - nas águas puras do mar alto.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Olga Savary, "Nome"


Tu, em tudo presença,
vibrar de asa,

eu, que nem nome tenho,
jamais nua de água,

tu, felicidade do corpo
embasado em brasa,

eu, sequer lembrança,
mero eco na sala.

tu, veneno curare
- e eu é que me chamo naja?

domingo, 9 de novembro de 2014

Ruy Castro














"O falso Fla-Flu"

RIO DE JANEIRO - Vários analistas tacharam de "Fla-Flu" a campanha presidencial. Referiam-se à troca de acusações, mentiras, calúnias, rasteiras e golpes baixos, equiparando-a em ferocidade à que supostamente se dá entre as torcidas mais tradicionais do Brasil: as de Flamengo e Fluminense. Como Flamengo que sou, discordo. Em 102 anos de rivalidade, rubro-negros e tricolores nunca se rebaixaram ao nível que observamos nos últimos três meses.

O Fla-Flu não é uma guerra. É uma celebração, uma festa, um Carnaval comum às duas torcidas. É um embate de adversários, não de inimigos. Pela riqueza de suas cores e bandeiras nas arquibas, o Fla-Flu é também o mais belo espetáculo de futebol do mundo –segundo todos os turistas que já levei ao Maracanã para assisti-lo. E essa afinidade não é de hoje.

O Flamengo nasceu em 1895 como um clube de regatas; o Fluminense, em 1902, como um de futebol. O presidente do Flamengo assinou a ata de fundação do Fluminense; pouco depois, um fundador do Fluminense foi presidente do Flamengo. Os clubes eram vizinhos na rua Paissandu. O futebol do Fluminense torcia pelo Flamengo no remo e vice-versa. Em fins de 1911, um grupo de jogadores do Fluminense rebelou-se contra sua diretoria, deixou o clube e levou seu futebol para o Flamengo. A 12 de julho de 1912, os dois se enfrentaram pela primeira vez. Surgia o Fla-Flu.

A maior crônica sobre o Flamengo, "Flamengo sessentão", de 1955, foi escrita por um tricolor: Nelson Rodrigues, cujo segundo clube era o Flamengo. O Fla-Flu de 1963 reuniu 177.020 pagantes no Maracanã, sem uma briga, um bofetão. Eu próprio sou casado há 24 anos com uma tricolor, e também sem uma briga, um bofetão. E por aí vai.

Se disserem que a guerra Dilma x Aécio lembrou um Vasco x Flamengo ou Flamengo x Botafogo, não terei nada a opor.

Crônica publicada no jornal "Folha de S. Paulo" em 09/11/2014.

 

Alejandra Pizarnik, "Revelações"


De noite a teu lado
as palavras são códigos, são chaves,
o desejo reina.

Que teu corpo seja sempre
um amado espaço de revelações.


Tradução amadora minha.
 


"Revelaciones"

En la noche a tu lado
las palabrs son claves, son llaves,
el deseo es rey.
 
Que tu cuerpo sea siempre
un amado espacio de revelaciones.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Ruy Espinheira Filho, "O morto"


O morto vem no sonho
claro e completo.
Com seu jeito próprio
de lidar com crianças.
De beber.
                   Com o rosto
cheio de manhã.

Reconheço a praça
de onde ele me fita.
Mas a noite desce
e tudo se apaga.

Só ele continua
luminosamente
como se viesse da praia.
O ensolarado morto.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

António Osório









"Mãe que levei à terra"

Mãe que levei á terra
como me trouxeste no ventre,
que farei destas tuas artérias?
Que medula, placenta,
que lágrimas unem aos teus
estes ossos? Em que difere
a minha da tua carne.

Mãe que levei à terra
como me acompanhaste à escola,
o que herdei de ti
além de móveis, pó, detritos
da tua e outras casas extintas?
Porque guardavas o sopro de teus avós?

Mãe que levei á terra
como me trouxeste no ventre,
vejo os teus retratos,
seguro nos teus dezenove anos,
eu não existia, meu pai já te amava.
Que fizeste do teu sangue,
como foi possível, onde estás?

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

John Cage, "Trecho da "Conferência sobre o nada", com Augusto de Campos".





"Eu estou aqui e não há nada a dizer.
Se algum de vocês quiser ir a algum lugar,
pode sair a qualquer momento.
O que nós requeremos é silêncio, 
mas o que o silêncio requer
é que eu continue falando.

Dê ao pensamento de alguém um empurrão;
ele cai logo...
Mas o que empurra e o empurrado
produzem esse entre-tenimento chamado dis-cussão. 

Vamos ter uma daqui a pouco?
Ou podemos decidir não ter uma dis-cussão?   
Como vocês quiserem...

Mas...

                agora     há       silêncios.

E as palavras fazem,

ajudam         
                   a fazer os silêncios...

Eu não tenho nada a dizer 
                                          e estou dizendo.

E isto é Poesia, como eu quero agora".


Pescado na internet:

Em agosto de 2011, no TUCA, em São Paulo, Vanderley Mendonça gravou num celular Augusto de Campos lendo sua tradução de um texto que John Cage leu na sua "Conferência sobre o nada".

Música: "In a Landscape (1948)", de Cage, por Stephen Drury
 

Aquarela de Ismael Nery. "Adalgisa e o artista"



terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ivan Junqueira, "Indagações"


Na manhã fria e nevoenta,
inesperada dádiva neste verão que calcina
até mesmo a áspera pele das pedras,
pergunto-me afinal se valeu a pena
a aposta que fiz no infinito e na beleza,
em deus e na eternidade, na poesia
que me abandona agora à própria sorte
na extrema fronteira entre a vida e a morte.
E um pássaro pousado em meu ombro
responde: não há vida nem morte, mas apenas
o sonho de alguém que, numa viagem,
julgou estar em busca do eterno,
sem saber que o que nos cabe
(e o que somos, tão fugazes)
é, se tanto, uma escassa chama que arde
e se apaga ao fim da tarde.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Antônio Carlos Secchin


"No que toca à circulação da poesia,
as noites de autógrafo se transformam
em rituais simultâneos
de batismo e óbito de um livro,
que, fora dali,
não será mais visto
em lugar nenhum."

sábado, 1 de novembro de 2014

Adriano Espínola, "Insônia"


Virá. Terrível e branca.
Não importa o que eu faça.

Toda esperança é vã.
Implacável, sob a porta

e entre as frestas da janela,
ela - a luz da manhã.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Johannes Brahms, "1º movimento da Sinfonia nº 4, com a Orquestra Filarmônica de Berlim, sob regência do maestro Herbert von Karajan"


Donizete Galvão, "Caros amigos"


Não ter amigos.
Ansiar por tê-los.
E dispensá-los.
Recriá-los, outros,
na imaginação.
Estar com todos
e com nenhum.
Beijá-los agora,
adeus depois,
amá-los sempre,
ateu,
que a solidão
não dura mais
que uma vida.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Mário Faustino














"Auto-retrato"

Oh não passar somente sugerido!
Desespero de nunca ver o anjo
Não conhecer nem mesmo a rosa e o lírio
Ter medo e ter vergonha ajoelhado
Querer ser puro e sempre ver-se impuro
A espera da morte a incerteza
A secreta esperança de ficar
A pétala da rosa sob a cota
O endereço guardado sobre o peito
Ver navios que chegam e vão sozinhos
E depois de tanta dor e tanta angústia
Pensar ter dado a luz a algo vivo
E levantar-se apenas com o poema.
 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Lêdo Ivo












"Recife, poesia"

Amar mulheres, várias.
Amar cidades, só uma - Recife.
E assim mesmo com as suas pontes,
e os seus rios que cantam,
e seus jardins leves como sonâmbulos
e suas esquinas que desdobram os sonhos de Nassau.

Amar senhoras, muitas. Cidade,
só uma, e assim mesmo com o vento amplo do Atlântico
e o sol do Nordeste entre as mãos.

Felizes os jovens poetas que recebem em seus corações
antes do amor e depois da infância
a palavra, a cidade Recife.
Felizes os poetas que podem lembrar-se eternamente
das pontes que separavam: ia-se a noite
no Capibaribe, e as águas do Beberibe
te davam, ó Madalena
o meu primeiro verso.

Corola diante do mar,
bares da arte poética,
bondes, navios, aviões.
Cidade, meus pés transportam as tuas pontes
para margens versáteis.

Igrejas nos postais, namorados nos portais.
Recife de meu pai,
Recife que me deu a poesia sem que eu pedisse nada,
cidade onde se descobre Rimbaud,
a maresia de antigamente em meus olhos abertos.
Mulheres, inúmeras. Cidade, só uma
e assim mesmo diante do mar.


Lêdo Ivo fez este poema homenageando o Recife, embora seja alagoano.
Talvez por isso não o tenha publicado em seus livros.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

domingo, 26 de outubro de 2014

Jorge Luis Borges, "A volta"


Ao fim dos anos de desterro
voltei à casa da minha infância
e ainda estranho seu ambiente.
Minhas mãos tocaram as árvores
como quem acaricia alguém que dorme
e repeti antigos caminhos
como se resgatasse um verso esquecido
e vi ao esparramar-se a tarde
a frágil lua nova
que se apoiou no abrigo soturno
da palmeira de altas folhas,
como ao seu ninho o pássaro.

Que caterva de céus
conterá entre seus muros o pátio,
quantos poentes heroicos
militarão nas profundezas da rua
e quantas luas novas quebradiças
derramarão no jardim sua ternura,
antes que a casa me reconheça
e de novo seja um hábito !

Tradução amadora minha.

sábado, 25 de outubro de 2014

Alejandra Pizarnik





















"Amantes"

Uma flor
              na lonjura da noite
              meu corpo calado
        se abre
à delicada urgência do orvalho


Tradução amadora minha.



Amantes

Una flor
            no lejos de la noche
            mi cuerpo mudo
       se abre
a la delicada urgencia del rocío

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Adriano Espínola, "O coqueiro"


                                                                                          A Waly Salomão

Altivo,
ergue-se frente ao mar.
Com as palmas agitadas,
quer ser um pássaro.
 
Por um momento,
detém-se em pleno voo;
a copa verde
abraçada ao vento largo.
A memória do tronco
se volta,
porém,
longa-
mente,
para a
terra,
sugando
a seiva
salgada
dos sonhos.
 
O coqueiro
é um verso vegetal posto de pé.