segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sophia de Mello Breyner, "Meditação do Duque de Gandia sobre a Morte de Isabel de Portugal"


Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitiva
Se poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser. Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossos
Tomando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viver
Sempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser,
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência,
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Nunca mais te darei o tempo puro
Que em dias demorados eu teci
Pois o tempo já não regressa a ti
E assim eu não regresso e não procuro
O deus que sem esperança te pedi.



O poema se refere a um episódio acorrido com Francisco de Borja e Aragão, o Duque de Gandia.
Após servir à Imperatriz Isabel de Portugal por muitos anos, ele escoltou seu corpo de Lisboa até Granada, onde ela foi enterrada.
Quando viu o efeito da morte sobre aquela que fora uma grande e bela imperatriz, decidiu nunca mais servir a um senhor que pudesse morrer antes dele.
 

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