sábado, 11 de fevereiro de 2017

Alberto de Lacerda, "To nigth"


Esta noite vou embebedar os meus navios
Rasgar os meus poemas
E as minhas raras (raríssimas)
Cartas de amor

Esta noite vou ser horrível
Pior do que o costume
Vou desabobadar os céus da minha esperança
Viga por viga estrela por estrela

Esta noite vou embebedar os meus navios
Vou deixar de falar a imensa gente
Vou encontrar um sábio chinês
Que me recitará poemas muito simples
Insuportáveis de tão belos

Esta noite vou destruir mapas antigos
Abrir certas janelas e quebrar
A possibilidade de alguém mais entrar na minha vida

Esta noite vou pedir perdão aos meus amigos
E escrever uma última carta sem a mínima sombra de
                                                           [sentimentalismo

Esta noite vou embebedar os meus navios

Um comentário:

  1. Este é um dos meus poemas favoritos. Talvez pela força que as imagens me causam, além da musicalidade entre o sonoro e o silênciar da palavra que só ela é capaz de criar, como uma harmonia interna, própria dos poemas e de nenhuma outra forma literária... Só sei que me dá uma vontade imediata de tomar uma caneca de vinho...

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