segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Errnâni Sátiro, "A hora da morte"


Pavor.
Mas não da morte -  É da Hora da Morte.
É por isso que te peço, ó Morte;
Que venhas quando quiseres;
De noite ou de dia.
Mas não me deixes nunca pressentir a Chegada.
O medo é da Hora.
Não é do teu mistério, Morte,
Que o mistério da vida é maior.
O que eu temo é a Hora - o ar das pessoas na Hora da Morte.
Tu primeiro te apoderas das testemunhas,
Que aceitam e começam a ser cúmplices.
Tu desaminas e abates os que assistem
Para então desferires o golpe.
Vem, antes ou depois.
Na Hora da Morte, não.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Pedro Dantas, "Oração"


Senhor! Eu sei que tenho pecado
eu sei que sou indigno
e não mereço perdão.

Mas quero pagar por tudo
Quero sofrer por tudo
arrepender-me de tudo.

Quero ser humilhado
e sofrer no meu corpo
todas as penas eternas.

Estou por tudo e me conformo com tudo
contanto que ... Senhor! ... o telefone me chame.
Hoje e todos os sábados, esses dias sem explicação.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Carlos Drummond de Andrade













"Amar"

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho,
 e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa,
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Odylo Costa, filho, "A meu filho"


Recorro a ti para não separar-me
deste chão de sargaços mas de flores
em que há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.

Por essas mãos te peço que me ajudes
e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.

Não deixeis, filho meu, que a dor de amar-te
me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.

Que estas árvores guardam, no céu puro,
entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Euclides da Cunha, "Se acaso uma alma..."


Se acaso uma alma se fotografasse
De sorte que, nos mesmos negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face;

E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos... Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse,
Mesmo em ligeiros traços fugitivos:

Amigo, tu teria com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando - desse grupo bem no meio -

Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
Destes sujeitos é precisamente
O mais triste, o mais pálido, o mais feio.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Alejandra Pizarnik, "Encontro"


Alguém entra em silêncio e me abandona.

A solidão agora não está só.

Tu falas como a noite.

Te anuncias como a sede.



Tradução amadora minha.




"Encuentro"

Alguien entra en silencio y me abandona.

Ahora la soledad no está sola.

Tú hablas como la noche.

Te anuncias como la sed.

sábado, 29 de novembro de 2014

Eugénio de Andrade












"Com um verso da ceifeira"

Escrevo para fazer da luz
velha dos corvos
o limiar doutro verão.
Nenhuma sombra por mais nefasta
perturba o meu olhar:
tenho quinze anos, ao espaço
quadrado do pátio
regressa o canto das cigarras.
Com o sol à roda da cintura
o corpo deixa de ser hesitação,
corre ao encontro da água
ou doutro corpo, e canta,
canta sem razão.

Eugênio de Andrade refere-se poema "Ela canta, pobre ceifeira" de Fernando Pessoa, postado ontem.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Fernando Pessoa




















"Ela canta, pobre ceifeira"        

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente‘stá pensando.
Derrama no meu coração

a tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Alexei Bueno, "Suma"


Tudo é mentira, já por ser do mundo,
mentem os livros, mentem os espelhos
Que não nos mostram quanto somos velhos
Nem quanta pedra nos nossos joelhos
Gravou paisagens de um rubor profundo.

Tudo é mentir, todas as histórias,
todas as páginas encadernadas
Com as suas tramas, suas madrugadas,
tais como as nossas, lidas e deixadas
Entre as estantes às traças inglórias.

Um tiro! A morte! Temos que morrer,
Dói-nos não sermos o que nós urdimos,
Doem-nos as dores que vimos e ouvimos,
As dores de antes, e as que pressentimos,
E o tempo chove a raiva de esquecer.

Tudo é mentira, firme-se o decreto!
E após o queimem pois mente também
E queimem isto e aquilo, o mal e o bem,
E a mim não poupem, pra que mais ninguém
Minta escrevendo outro poema abjeto.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Fiama Hasse Pais Brandão, "Epístola para um bandolim sempre em cima de uma mesa"


Não sabes onde está a tua alma eterna hoje
porque te deixei mudo e imóvel, sem os dedos
de alguém ignoto, um dia, que te possuiu
e ao teu etéreo dom. Perguntas-me se estarás
para sempre ali, e eu digo: não estarei para sempre.
Podes sonhar com a melodia antiga ainda,
que trocaste com o demo pelo teu silencio aqui,
pois estas mãos apenas imitam teu som subtil,
por erro e por defeito, nas palavras destes versos.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

José Blanc de Portugal, "Camões"


Passaste fome,
Dizem alguns que de tua vida comem
Vermes parasitas que vivem de inventar as tuas histórias...
Talvez um dia neles a mutação se opere
Quando os bichos mudem de alimentação e
Passem a roer a tua obra
E não a tua morta vida terreal.

Ah Camões! Luís Vaz, se visses
Como os vermes pastam tua glória!
Por um que ame apenas tua obra
Quantos te inventam a vida passada
P'ra explicar versos que não sentem
Ou sentem tão à epiderme
Que precisam de outra história
Que não a das palavras que escreveste!

Também eu li demais a tua inventada vida:
Tudo quero esquecer p'ra mais lembrar
Que poesia é só a tua glória
Eterna vida é só tua Poesia
E a vida que viveste é morta história.


sábado, 22 de novembro de 2014

Abgar Renault, "Reza"

 
Meu Deus, tende pena
do que resta em mim:
nem o mundo é feio,
nem a vida, ruim.
 
Meu Deus, dai-me força
de amar minha sorte:
fazer luz de vida
das trevas da morte.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Ledusha Spinardi, "Cena íntima"


Outubro termina a bordo de um ventinho de cambraias,
perfeito para cílios e lábios. Ainda há borboletas soprando
o véu da primavera. Do  outro lado da rua, através dos
brincos-de-princesa na treliça que contorna a varanda,
posso sentir o coração de um sabiá pulsar ao  compasso
solitário de um assobio. A luz da tarde anuncia
subitamente escuros, abafa-se, e logo a tempestade
cai, despenteando o cenário com raios esplêndidos.
Cai estrondosa e se vai, deixando a tarde fresca
e perfumada. Nos intervalos entre gotas tardias,
pesco um  sentimento ímpar de plenitude. Mosaicos
de folhas e galhos repousam no asfalto
cravejado de granizos.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Alphonsus de Guimaraens Filho, "Louvação"


                         I

Nem sei se blasfemei. Se blasfemei,
Deus passe um pano sobre tanto sujo.
Sinto-me exausto numa torre cujo
vértice tento atingir e não verei.

Nem sei se blasfemei. Apenas sei
que muita vez suponho que em vão rujo,
que me rebelo eu, um caramujo
que nem minha própria casa salvarei.

Nem sei , nem sei se blasfemei. Apenas,
olhando agora para trás, concluo
que eu devia cantar ou ter cantado

não os meus males só, não minhas penas,
mas a Beleza em que já me diluo,
em que me integro, Deus seja louvado.


                     I I

Louvado seja Deus! Seja louvado
pelos que não merecem nem louvá-Lo.
E, de louvado, passe a ser halo
de louvação por sobre o exasperado.

E de louvado passe a ser, e a dá-lo,
um resplendor por sobre o apagado
e cego humano amor alucinado
capaz (tão triste amor!) de desprezá-Lo.

De desprezá-Lo? De esquecê-Lo, digo.
De negá-Lo também. E, sem suporte
qualquer, julga-se pleno e desbordante

de certeza e de paz, seu próprio abrigo.
Louvado seja Deus, tempo adiante.
Louvado em nossa vida. E em nossa morte.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Chacal, "Delírio puro"


quanto mais louco
lúcido estou

no fundo do poço que me banho
tem uma claridade que me namora
toda vez que eu vou ao fundo

me confundo quando boio
me conformo quando nado
me convenço quando afundo

no fim do fundo
eu te amo

domingo, 16 de novembro de 2014

Miguel Torga, "Termo de responsabilidade"


Tudo.
Menos deixar uma incerteza
No caminho.
Quem vier nesta mesma direção,
Veja as passadas dos meus pés,
E siga.
Saiba por elas que não foi traído,
Mesmo se me encontrar adormecido
De morte natural ou de fadiga.

sábado, 15 de novembro de 2014

Bruno Tolentino, "À terra provisória"


   Adeus cimos e vales e veredas,
e bosques e clareiras e campinas
soltas ao vento, sacudindo as crinas
das espigas de sol na luz de seda.
    Adeus troncos e copas e alamedas,
esmeraldas selvagens que as neblinas
salpicavam de prata, adeus colinas
que iam subindo como labaredas.
    de cobalto no ar...Adeus beleza
irrepetível, que me viu nascer
e toca-me deixar: a natureza
também é feita de deixar de ser,
    e eu levo agora a sombra e deixo a presa
à inevitável luz do amanhecer.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014