sábado, 17 de outubro de 2015
Vinícius de Moraes
"Vida e poesia"
A lua projetava o seu perfil azul
Sobre os velhos arabescos das flores calmas
A pequena varanda era como o ninho futuro
E as ramadas escorriam gotas que não havia.
Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
— Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu me pus a sonhar o poema da hora.
E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez ao pressentir na carne misteriosa
A germinação estranha do meu indizível apelo
Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De que me tivesses possuído antes do amor.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
Dante Milano, "Salmo perdido"
Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade.
Um deus moderno, deus de guerra e, não, de paz.
Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.
O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.
Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Carlos Newton Júnior, "Pantera"
- o hálito quente e o frio olhar -
para além das rijas barras
que mundo nenhum retém:
encontrei-a nas palavras
precisas, que são ferro e pedra,
sangue vivo, força oculta,
veludo quase matéria.
E eram tantas as panteras
nas diversas traduções
do mesmíssimo poema.
Em todas, o vulto negro
num silêncio ditirambo
com seus coturnos de seda.
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Poesia
terça-feira, 13 de outubro de 2015
segunda-feira, 12 de outubro de 2015
Píndaro, "Sabedoria"
Melhor é desejar do céu
coisas que assentam a um espírito mortal,
sabendo o que se encontra a nossos pés,
e qual a sorte para que nascemos
Ó minh'alma, não aspires
a uma existência de imortal,
mas goza plenamente
tudo o que esteja ao teu alcance.
Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos.
Píndaro nasceu em Cinoscéfalas, na Beócia, em 522 a.C e morreu em 448.a.C.
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Poesia Lírica Grega Antiga
domingo, 11 de outubro de 2015
Emílio Moura, "Súplica"
Por que chamais: Senhor, Senhor... e
não fazeis o que eu digo?
Lucas 6,46
Os inquietos, os loucos, os que ainda não Te descobriram, e os que
[ nada compreendem,
os que pararam, e os que jamais tentaram a grande jornada,
todos eles, Senhor, estão comigo neste momento.
Comigo estão todos os que perderam a grande partida.
Comigo estão, Senhor, todos os que Te deixaram,
e os que não souberam buscar-Te.
Comigo estão, Senhor, todos os que Te deixaram,
e os que não souberam buscar-Te.
Comigo estão os que não Te amam, nem Te compreendem,
os que Te negam, porque são felizes,
e os que Te negam, porque são infelizes.
Senhor, todos eles estão, agora, em minha insônia e em minha desolação,
[como a presença da morte está na máscara dos que nada esperam.
Mata-os em mim, Senhor.
sábado, 10 de outubro de 2015
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
Henriqueta Lisboa, "A face lívida"
Não a face dos mortos.
Nem a face
dos que coram
aos açoites
da vida.
Porém, a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.
Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Odylo Costa, filho
"Soneto da fidelidade"
Não receies, amor, que nos divida
um dia a treva de outro mundo, pois
somos um só que não se faz em dois
nem pode a morte o que não pode a vida.
A dor não foi em nós terra caída
que de repente afoga mas depois
cede às forças das águas. Deus dispôs
que ela nos encharcasse indissolvida.
Molhamos nosso pão cotidiano
na vontade de Deus, aceita e clara,
que nos fazia para sempre num.
E de tal forma o próprio ser humano
mudou-se em nós que nada mais separa
o que era dois e hoje é apenas um.
Na foto, Odylo junto com sua mulher e musa, Maria de Nazareth Pereira da Silva Costa, a Nazareth.
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
terça-feira, 6 de outubro de 2015
Teógnis de Mégara, "A melhor coisa"
A melhor coisa
seria não nascer aqui no mundo,
nem contemplar jamais a luz do sol.
Se alguém nasceu, porém, melhor que viaje
para as portas da Morte, a toda pressa,
e estreitamente envolto pela terra
descanse em paz.
Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Raul Bopp, "Dona Chica"
A negra serviu o café.
- A sua escrava tem uns dentes bonitos, Dona Chica.
- Ah, o senhor acha ?
Ao sair
a negra demorou-se com um sorriso na porta da varanda.
Foi entoando uma cantiga casa a dentro:
Ai do céu caiu um galho
Bateu no chão. Desfolhou.
Dona Chica não disse nada.
Acendeu ódios no olhar.
Foi lá dentro. Pegou a negra.
Mandou metê-la no tronco.
- Iaiá Chica, não me mate!
- Ah! Desta vez tu me pagas.
Meteu um trapo na boca.
Depois
quebrou os dentes dela com um martelo.
- Agora
junte esses cacos numa salva de prata
e leve assim mesmo,
babando sangue,
pr'aquele moço que esta na sala, peste!
domingo, 4 de outubro de 2015
sábado, 3 de outubro de 2015
Cecília Meireles
"Com sua agulha sonora ..."
Com sua agulha sonora
borda o pássaro o cipreste:
rosa ruiva da aurora,
filha celeste.
E com sua tesoura sonora
termina o bordado aéreo.
Silêncio. E agora
parte para o mistério.
A ruiva rosa sonora
com sua folha celeste
imperecível mora
no cipreste.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Lila Ripoll
"Poesia"
Toda poesia do poema
não vale a outra - a verdadeira.
A que não consegue transpor
a face fria, que ficou ignorada.
A que não pode ser desprendimento,
mas apenas subir como perfume.
As palavras estão gastas
e sem cor. As palavras
são suspiros ritmados,
benevolentes fantasmas
bem vestidos.
A verdadeira poesia - a invisível,
toca de leve a fímbria
dos meus versos. Mas permanece
intacta no seu mundo.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Greta Benitez, "Cães dos jardins"
Lindos cães dos Jardins
Deitados sob as mesas
Onde seus donos estão sentados
Olhando a cidade que se move
Línguas ondulam em caimento perfeito
Olhar feito de puro ensinamento
Dignidade
Honestidade
Tudo isso mora
Dentro dos cães dos Jardins
E sobre a mesa
Um café preto, água mineral
E um jornal
Que contém todo horror do mundo.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
Pedro Paulo de Sena Madureira, "Este é um trabalho como outro qualquer..." da série "Vício Inconfessável"
Este é um trabalho
como outro qualquer.
Quem o faz, entre vários,
tem também de escolher
o melhor atalho,
o passo mais afim que o chão
a percorrer requer.
Ou, se for mar de navegar,
o rastro certeiro das ondas,
o talho que elas rasgam e logo some,
para o barco em que vai
não naufragar.
Há, porém, um avesso diverso
nesta faina e lida.
A matéria que lhe move
a fábrica não são
as coisas:
são imagens,
paina solta no ar.
Nunca se sabe quando
funcionam ou param suas máquinas,
quando estão ou não dispostas a operar,
e o combustível que usam
onde o encontrar?
Este é um ofício tão raro
que prefere por sócio,
mais que o trabalho, o ócio.
(No poema, o autor fala sobre a criação literária.)
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segunda-feira, 28 de setembro de 2015
domingo, 27 de setembro de 2015
Ovtavio Paz, "Garatuja"
Com um pedaço de carvão
com meu giz quebrado e meu lápis vermelho
desenhar teu nome
o nome de tua boca
o signo de tuas pernas
na parede de ninguém
Na porta proibida
gravar o nome de teu corpo
até que a lâmina de minha navalha
sangre
e a pedra grite
e o muro respire como um peito
Tradução de Luís Pignatelli
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Poesia
sábado, 26 de setembro de 2015
Leonor Scliar-Cabral
"Córdoba, Sevilha"
Em Córdoba vendem livros,
as cítaras em Sevilha.
Morena, morena minha,
cheirando a unguentos e mirra,
se um beijo ou cravo me atiras,
dou-te em troca meu destino.
Em Córdoba vendem livros,
as cítaras em Sevilha.
Para sentir teu sorriso,
tocar tua pele de oliva,
esconde-me em tua mantilha,
te tocarei de mansinho.
Em Córdoba vendem livros,
as cítaras em Sevilha.
Neste balcão escondidos,
trocaremos mil carícias.
Ouvirão teus gemidos,
pensam que em sonhos deliras.
Em Córdoba vendem livros,
as cítaras em Sevilha.
São cor de açafrão os bicos
que eu sugo, tão pequeninos,
e uma carola teu umbigo
e os pelos onde me aninho.
Em Córdoba vendem livros,
as cítaras em Sevilha.
Tuas entranhas são figos
que se abrem entumecidos
e se desmancham macios
colhidos no paraíso.
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Poesia
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
António Patrício, "Relíquia"
Era de minha mãe: é um pobre xale
que tem pra mim uma carícia de asa.
Vou-lhe pedir ainda que me fale
da que ele agasalhou em nossa casa.
Na sua trama já puída e lassa
deixo os meus dedos pra senti-la ainda;
e Ela vem, é Ela que me abraça,
fala de coisas que a saudade alinda.
É a minha mãe mais perto, mais pertinho,
que eu sinto quando toco o velho xale,
que guarda um não sei quê do seu carinho.
E quando a vida mais me dói, no escuro,
sinto ao tocá-lo como alguém que embale
e beije a minha sede de amor puro.
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