terça-feira, 31 de dezembro de 2013
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
Miguel Torga, "Ressurreição"
Porque a forma das coisas lhe fugia,
O poeta deitou-se e teve sono.
Mais nenhuma ilusão lhe apetecia,
Mais nenhum coração era seu dono.
Cada fruto maduro apodrecia;
Cada ninho morria de abandono;
Nada lutava e nada resistia,
Porque na cor de tudo havia outono.
Só a razão da vida via mais:
Terra, sementes, caules, animais,
Descansavam apenas um momento.
E o vencido poeta despertou
Vivo como a certeza de um rebento,
Na seiva do poema que sonhou.
domingo, 29 de dezembro de 2013
José Gomes Ferreira, "Quando eu morrer..."
Quando eu morrer não compliquem o mistério
Com pios de coruja.
Nem me levem para o cemitério
Da Morte da Nuvem Suja.
Queimem-me, queimem-me numa pira
Ao som do Sol azul
Para que ninguém simule
Lágrimas de mentira.
Que bom ver subir no ar,
Nitidamente, a prumo,
Este charco a sonhar
Uma nuvem de fumo.
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sábado, 28 de dezembro de 2013
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Mário de Sá-Carneiro, "Estátua Falsa"
Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...
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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
Américo Cortês Pinto, "Aquário"
Para que serve a Inquietação? Oh, alma inquieta
E em fogo!
Peixe vermelho de aquário
Que tem o mundo
sem fim
Só na ilusão dos meus olhos!
Tenta varar a vida lado a lado.
E corta em frente
O aquário transparente...
Mas anda à roda, à roda,
Teimosamente à roda,
Inutilmente à roda.
Desesperado e iludido,
- Porque o mundo, adonde mora
Seu sonho, fica de fora
Do seu aquário de vidro...
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quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
terça-feira, 24 de dezembro de 2013
Alexei Bueno, "Tanto por nós..."
Tanto por nós os deuses se interessam
Quanto nós pelos vermes detestáveis
Que rondam nossos pés. Quase os não vemos,
E, vendo-os, os matamos.
Portanto, nunca aos deuses atribua,
Mortal, o teu claro dia, ou teu suplício,
Já que ambos, quando vêm, não nos vêm deles,
E nem do fado ao menos.
Pois este é a própria ausência, e a ela se curvam
Os imortais, e o mundo, e os céus, e os homens,
E é bem por nossa sorte que os do olimpo
Não reinam sobre nós.
Pois se assim, como julga o vulgo, fosse
Desgraças muito mais nós sofreríamos
Pois em nós os de lá descontariam
Seu tédio, ou sua dor.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Armindo Rodrigues, "Liberdade"
Ser livre é querer ir e ter um rumo
E ir sem medo,
Mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
Transformar o fumo
Do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
Só ver portas fechadas e pessoas hostis
E arrancar teimosamente do caminho
Sonhos de sol
Com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
E, mesmo assim,
Só de pensar gritar
Gritar.
E só de pensar ir
Ir e chegar ao fim.
domingo, 22 de dezembro de 2013
sábado, 21 de dezembro de 2013
Heinrich Heine, "Os grandes deuses..."
Os grandes deuses ora dormem,
Envoltos numa nuvem cinza;
Escuto como roncam forte,
A tempestade se aproxima.
Que tempo atroz! A tempestade
Quer destroçar a embarcação -
No vento e no escarcéu quem há de
Pôr sela, arreio e bridão?
Não tenho culpa se a procela
Empurra os barcos para o fundo,
Então me enrosco nas cobertas
E, como um deus, enfim eu durmo.
Tradução de André Vallias
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Thomas Hoccleve (1369-1426), "Lamento"
Depois que a colheita reuniu as espigas e molhos,
E que a estação trigueira da festa de S. Miguel
Chegou, começando a roubar às árvores as suas folhas
Que verdes tinham sido e de vigorosa frescura,
E que debruando-se de cor amarela
Morreram e caíram sob os nosso pés,
Tal mudança, enterrada no meu coração, criou raízes.
Tradução de Cecília Rego Pinheiro
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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Bruno Tolentino, "Baixa os olhos à terra ..."
Baixa os olhos à terra que trocaste
pelo ouro de um rosto: veio o outono
que haveria de vir a cada haste
- alta, ereta, solar - perdeu o sono,
as pétalas pesadas de abandono
já mal sustêm a pose que imitaste;
baixa os olhos também e pede ao sono,
às pétalas do sono, que te baste
essa consolação de aparentar-te,
tu também, resignado, á flor solar
que baixa o rosto quando o dono parte.
Para não presumir do teu lugar
no reino iluminado, aprende a arte
do girassol e vai baixando o olhar.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
Natália Correia, "Rebis"
Oh a mulher como é côncava
de teclas ter no abdómen
de sua porção de seda
ser o curso do rio homem
como é mina espadanar de água
na cama abobadada de homem
gargalhada de lustre se sentada
dique de nuvens estar de dólmen*!
Oh o homem como é ângulo
aberto de procurar
o sítio onde nasce o oiro
na salmoura da mulher mar
como é cúpula de copular
nadador de braçadas de mirto
como é nado de a nado formar
o quadrado da mulher círculo!
Oh os dois como se fundem
na preia-mar dos lençóis
despidos como fogo e água
deus de dois ventres ferozes
e quatro olhos de fava!
* Dólmen - s.m. Monumento pré-histórico formado por uma grande pedra achatada, colocada sobre outras em posição vertical.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
domingo, 15 de dezembro de 2013
Alexei Bueno, "Um hábito"
Esta roupa mal cortada,
Curta aqui, ali comprida,
Aqui frouxa, ali apertada,
Esta roupa idiota é a vida.
Se a enlamearem, se a rasgarem,
Se furar muito depressa,
Que dirão os que a envergarem
Se foi ganha sem promessa?
Suja e incomoda a portamos,
Que se esgarce toda, que arda!
Vai ao lixo, e ao lixo vamos
Que ora é próximo, ora tarda.
sábado, 14 de dezembro de 2013
Antonio Cicero, "Solo da Paixão"
O solo da paixão não dura mais
que um dia antes de afundar, não mais
que esta noite ou esta noite e um dia
e o clarão da noite antes de amargar.
Um dia solar eu vou lhe entregar;
Que ele sequestre o mundo por um dia
(um dia só será que já vicia?)
Depois devolva tudo: terra céu e mar.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Cecília Meireles, "Canção"
Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto.
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona alegria na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Nuno de Sampayo, " Conheço as partes altas..."
Conheço as partes altas da minha alma
Onde o silêncio chove das horas pálidas,
O meu jardim morre, o Teu jardim começa,
A Tua eternidade flutua como uma bandeira
E as Tuas aves tem espaço para voos sem orlas.
Nesta fronteira as brisas desfolham as florestas
E ouve-se o rumor do grande país longínquo.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Carlos Maria de Araújo, "Porque nunca foste nostalgia..."
porque nunca foste nostalgia
porque nunca foste insônia
febre de aventura
navio
porque nunca foste a lua
vento nocturno
agonia
porque nunca foste desatino
luzir de faca
cilício
porque és penumbra e quietude
capela nua
vigília
és tu esta poesia
minha amiga
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domingo, 8 de dezembro de 2013
Miguel Torga
"Prece"
Senhor, deito-me na cama
Coberto de sofrimento;
E a todo cumprimento
Sou sete palmos de lama:
Sete palmos de excremento
Da terra-mãe que me chama.
Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição:
Onde era sim, digo não.
Onde era não, digo sim.
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.
Senhor, acaba comigo
Antes do dia marcado;
Um golpe bem acertado,
O tiro dum inimigo...
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo.
sábado, 7 de dezembro de 2013
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