quarta-feira, 29 de julho de 2009

Jorge Luiz Borges



"1964"

                             I

Já não é mágico o mundo. Te deixaram.
Já não partilharás a lua clara
Nem os lentos jardins. Já não há uma
Lua que não seja espelho do passado,
Cristal de solidão, sol de agonias.
Adeus às mútuas mãos e às têmporas
Que o amor aproximava. Hoje, só tens
A memória fiel e os dias desertos.
Ninguém perde (repetes inutilmente)
Senão o que não tem nem teve.
Nunca. Mas não basta ser valente
Para aprender a arte do esquecimento.
Um símbolo, uma rosa, te destroça
E te pode matar o som de um violão.

                          II

Já não serei feliz. Talvez não importe.
Há tantas outras coisas no mundo;
Um instante qualquer é mais profundo
E rico do que o mar. A vida é curta
E ainda que as horas sejam tão longas, uma
Obscura maravilha nos espreita:
A morte, esse outro mar, essa outra flecha
Que nos libera do sol e da lua
E do amor. A ventura que me deste
E que me tiraste deve ser apagada.
O que tudo era tem que ser nada.
Só me resta o gozo de estar triste,
Esse costume inútil que me inclina
Ao Sul, a certa porta, a certa esquina.

Tradução amadora minha

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