quinta-feira, 17 de março de 2011

Jorge Luis Borges, "On his blindness"

Com o passar dos anos me rodeia
uma constante névoa refulgente
que aos poucos reduz todo o existente
a algo informe e sem cor. Quase a uma idéia.
A vasta noite elementar e o dia
cheio de gente são essa neblina
de luz incerta e fiel que não declina
e que espreita na aurora. Gostaria
de ver um rosto algum dia. Ignoro
a inexplorada enciclopédia, o prazer
de livros que minha mão sabe ler,
as altas aves e as luas de ouro.
Aos outros todos resta o universo;
à minha penumbra, o hábito do verso.

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