sábado, 16 de janeiro de 2016

Jorge Luis Borges



















"h.o."

Em certa rua há certa firme porta
Com a campainha e o número preciso
E um sabor de perdido paraíso,
Que nos entardeceres não está aberta
A minha passagem. Finda a jornada,
Uma esperada voz me esperaria
Na desagregação de cada dia
E no sossego da noite enamorada.
Essas coisas não são. Outra é minha sorte;
As vagas horas, a memória impura,
O exagero da literatura
E no limite a indesejada morte.
Só desejo esta pedra. Meu pedido
São duas datas abstratas e o olvido.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Wilson Rocha, "Extende Manum tuam super mare"


Busca os mistérios mais sutis, esses
de que se formam as coisas mais simples
- o sortilégio do azul, por exemplo,
que é a infância das sombras,
e a tristeza do amor,
feito de solidões.
Olha profundamente a beleza fugitiva,
a forma vã, a pequenez da criatura
- essa impressentida extensão.
Guarda cada momento, que é a vida passando
- esse mover-se em distâncias.
Escuta, no teu e em cada coração,
o fluir da eternidade destilando
a densidade dos tempos.
Contempla a majestade do infinito.


Stasa Mirkovic Grujic tocando o "Clair de Lune", de Claude Debussy

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Lúcio Cardoso, "Fim de carta"


O tempo, recordo. A face era a mesma.
Amor meu, que nome atirado
ao fluir dos dias representará neste verso
o nome teu?

Que importa? Por cima,
a lua aflige uma enlutada primavera.
Os olhos com que te procuro
são escoadas luzes sem finalidade.

O que aconteceu, éramos nós.
Podemos reviver a velha chama,
as tardes de verão, o campo atormentado.
Jamais, jamais tornaremos a existir.

O que nos resta é expirar,
que o castigo, do erro, é a face iluminada.
Relembro o nome, e se o digo
é que no tempo a fidelidade
já não responde mais a ser algum.
Fomos - e o ter sido
aí - desvenda agora o tudo ter falhado.



terça-feira, 12 de janeiro de 2016

António Feijó, "Armadura"


Desenganos, traições, combates, sofrimentos, 
Numa vida já longa acumulados, vão 
— Como sobre um paul contínuos sedimentos,
Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.
 
E a cinza com o tempo atinge uma espessura
Que nem os mais cruéis desesperos abalam;
É como tenebrosa, impávida armadura
Ou couraça de bronze em que os golpes resvalam. 

Impermeável da Inveja à peçonhenta bava,
Nela a Calúnia embota os seus dentes ervados;
Não há braço que possa amolgá-la, nem clava
Que nesse duro arnês se não faça em bocados. 

E no entanto, através dessas rijas camadas,
Ou rompendo por entre as juntas da armadura,
Escorrem muita vez gotas ensanguentadas
Que o coração verteu dalguma chaga obscura... 

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

domingo, 10 de janeiro de 2016

Donizete Galvão, "Lâmpada"


                                para André Luiz Pinto

De tanto ser vista,
gasta-se a beleza
das coisas que em si
guardam a perfeição.

Quando a retina
esquece o vício,
sai da embalagem
a escultura lisa.

Bulbo leitoso,
com vidro soprado,
com frágeis hastes
em florescências.

Leve máquina
que concentra
a capacidade
de engolir sombras.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Estêvão Rodrigues de Castro, "Ausente, pensativo, e solitário"


Ausente, pensativo, e solitário,
como se vos tivera ali presente,
dou, e tomo as razões ousadamente
firme em amor, em pensamento vário.

Quando venho ante vós com um temerário
fervor renovo na alma juntamente
quantos cuidados tive estando ausente,
que tudo em tal aperto é necessário.

Uns aos outros se impedem na saída
e querem cometer, e não se abalam,
e vou para falar, e fico mudo.

Porém, meus olhos, minha cor perdida,
meu pasmo, meu silêncio, por mim falam,
e não dizendo nada, digo tudo.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Donizete Galvão, "Nem o corpo"


No seu bangalô,
sob o viaduto,
uma estrela
nunca salpicou o chão.
As balas dos revolveres
furaram o zinco.
Só restaram o abandono,
em sua nudez,
e umas roupas
penduradas no varal.
Ali permanecem,
tesas e encardidas,
em meio à fumaça
dos escapamentos.

Não,
ninguém as reivindicou
como herança.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Lúcio Cardoso, "Repente"


Preciso do repente, como quem abre
a fresta de um relâmpago.
Ah céu anoitecido onde vivo,
que importa o desalinho
se a febre é o meu sistema?
Descerrem-se portas, retinam
momentos de luz, trevas feridas,
missas proibidas, primaveras.

Tudo serve à fome que me impele.


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Lúcio Cardoso, "Testamento de Lúcio Cardoso feito em nome de Liliane Lacerda de Meneses"


Tenho um casaco escuro. Um baú
onde guardo coisas que não interessam a ninguém.
Um pássaro  - mas de palha. Um dedal.
Uma velha medida de prata
que nunca serviu para pesar nem o bem nem o mal.
Uma gravata de seda que quando o vento dá
infla e voa - e é bela como se eu mesmo voasse -
um sorriso que vem mas é sempre como se acabasse.
Tenho uns livros: escritos quando?
E esses outros que trago, e vão andando comigo,
e flores que são sempre desse porão vedado
onde vivo
mais do que vivo essa vida de inventado?
Que espírito me fez nestas coisas
onde nunca me acho?
Que alma alucinada ditou o meu tesouro?
Que ouro assina no fim a ata deste livro?
Que impuro desejo atira o guardado
deste bem-estar de que me privo?
Ai, é que a hora não é a do sinal.
O amarelo do crivo inventa sua usura;
tenho mais - mas é tão pouco o que ainda tenho.
Tenho um amigo. Se for mais longe, um rio
de menino escorre o seu passar no vento.

Há sempre de mim um desmandado desmedido,
nesse amargor que me sucede quando, impotente,
dançando vou ao fim do muro.
Tenho sempre guardado um tempo de doente.
Às vezes, calmo, tenho de repente meu espanto:
não sei quem sou e nem a que me avenho.
Ah, ia esquecendo: tenho um assovio antigo,
que nos quintais eu chamo os cães que já passaram.
Tenho - e quem não tem? - um traje de marinheiro azul e manso.
(O traje é morto: há nele um ranço de madrugada que já não existe
                                                                                                 [ mais.)

Outras coisas tenho, e não sei a quem doá-las.
Um travesseiro de menino, feito de fustão vermelho,
onde muitas vezes chorei a minha escolha de ser vivo.
Essas miudezas a que ninguém liga - uma paisagem,
um céu que dei de presente a uma amiga tão pobre como eu,
uns botões que foram de roupas já sem identidade,
rosas. Essas rosas tão desmerecidas na sua invenção de flor
no seu símbolo usado até ao não-entendimento.
Outras coisas tenho, e nenhuma delas tem nome.
Fica o dom sem especificar o objeto.
E se me for antes que o tempo seja de partida,
não quero esse preto sem alma
que se chama outro -
quero apenas vivo, quando o vinho cintilar num copo branco
e a hora for propícia. O nome - CARDOSO,
LÚCIO - virá de súbito em meio a conversa sem sentido
e será como uma coisa muito antiga,
- aquele tempo - e tudo, mesmo usado,
recomeçará a ficar moço de repente.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Leis estranhas no Arizona (EUA)


-- É proibido fabricar imitação de cocaína.
-- Quando atacado por um criminoso ou assaltante, a pessoa só pode se defender com a mesma arma que a outra pessoa possui.
-- É proibido mentir sobre o seu signo astral.
-- É ilegal fotografar nus antes do meio-dia, no domingo.
-- Caçar camelos é ilegal.
-- É um delito de classe 2 colocar um símbolo em uma bandeira que irá, provavelmente, provocar uma retaliação física.
-- É ilegal recusar um copo de água a uma pessoa.
-- E proibido ter mais de dois “consolos” em casa.
-- Qualquer delito cometido, enquanto se usa uma máscara vermelha, é considerado um crime.
-- A pena de prisão para quem cortar um cacto é de até 25 anos.
-- Macacos não podem dormir em banheira.
-- Em Globe: é proibido jogar cartas com índios na rua.
-- No Condado de Mohave: Quem for pego roubando sopa, deve ser esfregado com ela até que acabe.
-- Em Nogales: É proibido usar suspensórios.
-- Em Prescott: É proibido subir de cavalo as escadarias do tribunal.

Copiado do site Consultor Jurídico

sábado, 2 de janeiro de 2016

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Francisco Sá de Miranda, "O sol é grande, caem com a calma as aves..."


O sol é grande, caem com a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria,
esta água que de alto cai acordar-meia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração que em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam de amores.

Tudo é seco e mudo, e, de mesura,
também mudando eu me fiz de outras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Ivo Barroso, "Ronda das minhas quatro volúpias"


A tua boca se abre como um fruto rasgado ao meio
- escarlata e purpurina -
pomo de ouro dos jardins de Hespérides
granada dos milenários pomares babilônicos
maça dos primeiros dentes paradisíacos do pecado

Os teus seios possuem a arrogância das quilhas
demandando a sombria terra dos Latófagos
esporão guerreiro dos vikings legendários
proa aprumes de Argonautas
- Cólquida -
no mar Tritão, no mar antro e sorvedouro
E ó Mitilene, ó Lesbos, ó desgraçado amor
que assim tão forte nos atém às ilhas,
teu sexo
- ó concha e nácar, ó coral e escama -
pontificando entre as mediterrâneas
os jogos de púbis e fálus

E - angra, falésia, morno recorte e ondulação
                 de montes -
o vale, ó nádegas, na erótica reentrância dos lóbulos
dividindo as róseas carnaduras - Fídias -
ó cidades antigas que as vozes do Senhor petrificaram.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Adélia Prado











"Fluência"

Eu fiz um livro, mas oh meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de pão.
O fio indesmanchável da vida seguia seu curso.
Persistindo a necessidade dos relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Alphonsus de Guimaraens, "Cantem outros a clara cor virente"


Cantem outros a clara cor virente*
Do bosque em flor e a luz do dia eterno... 
Envoltos nos clarões fulvos do oriente, 
Cantem a primavera: eu canto o inverno. 


Para muitos o imoto céu clemente 
É um manto de carinho suave e terno: 
Cantam a vida, e nenhum deles sente 
Que decantando vai o próprio inferno. 

Cantem esta mansão, onde entre prantos 
Cada um espera o sepulcral punhado 
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos... 

Cada um de nós é a bússola sem norte. 
Sempre o presente pior do que o passado. 
Cantem outros a vida: eu canto a morte... 


* Virente -  adj. Que verdeja, verdejante, florescente, próspero.

sábado, 26 de dezembro de 2015

Lúcio Cardoso, "Morangos selvagens"


Era há muito tempo. Eu apenas sabia
que em mim havia acabado esse dom
de inventar a amizade
e sentava-me tão triste, olhando
essa estrada que não tem começo nem fim
e passa por entre nós
sugerindo carência e fragilidade.
Era há muito tempo. Mas não havia
estrada, nem havia distância e nem voz.
Achei-me de repente sem dom algum.
Foi quando as frutas cresceram nos seus galhos
e eu descobri essas ácidas pitangas
que, através do seu vermelho,
ensinaram-me de novo a continuar,
indiferente e sozinho.
Fora, o mundo me arrebatava o poder
de crucificado - no entanto,
sem dom, alguma coisa em mim
resplandecia.
Assim eu ia, mas há muito tempo.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Lya Luft













"Tanto"                 

                                    Para Lygia F. Telles

Nada entendo de signos:
se digo flor é flor, se digo água
é água. (Mas pode ser disfarce de um segredo)
Se não podem sentir, não torçam
a árvore-de-coral do meu silêncio:
deixem que eu represente meu papel.
Não me queiram prender como a um inseto
no alfinete da interpretação:
se não me podem amar, me esqueçam.
Sou uma mulher sozinha num palco,
e já me pesa demais todo esse ofício.
Basta que a torturada vida das palavras
deite seu fogo ou mel na folha quieta,
num texto qualquer com o meu nome embaixo.