domingo, 24 de abril de 2011

Abgar Renault, "Desintegração"

Eu tenho o coração cheio de coisas para dizer...
E a minha voz, se eu acaso falasse,
teria a força de uma revelação.

Meu espírito palpita ao ritmo desordenado e aflito
de asas prisioneiras que se dilaceraram
na arrancada impossível da libertação e da altura.

Minhas mãos tremem ainda ao contato
imaterial, sub-humano e fugitivo
de qualquer coisa além e acima deste mundo...

Adormeceu para sempre no fundo dos meus olhos
a saudade de paisagens estranhas e longínquas,
que nunca, nunca mais voltarão neste tempo e neste espaço.

Doem meus olhos. Tremem, ansiosas, as minhas mãos.
Meu espírito palpita! Tenho o coração cheio de coisas para dizer...
Eu estou vivo, Senhor! mas, em verdade, é como se estivesse morto.

sábado, 23 de abril de 2011

Flávio Aguiar, "Às vezes ..."

Às vezes é preciso abandonar o barco,
A luta, o carrossel, o circo inteiro,
E partir como ave migratória para o norte
Em busca de terras de verão e sol,
Mas quando isto for preciso
Que se faça com rosto limpo,
A face descoberta e voltada para a frente,
Que não haja mentiras nem tristeza.
Queimem-se as lembranças, quebrem-se
As garrafas; enterrem-se cinzas e cacos.
Seja-se até os ossos mais frágeis
Uma ave migratória: a volta existe
Mas é outra história, e não desculpa
A permanência no ponto de partida.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Gerana Damulakis, "O Suicida"

                        I

Tem os olhos cansados de paisagens
e os ouvidos repletos de mil sons.
Bebeu toda a taça doce e selvagem
e o vinho tinto e rubro não o atordoou.

Talvez esteja bêbado de amor
talvez tenha, na alma, o peso esmagador
das páginas lidas,
das músicas ouvidas; ou
o remorso dos risos que não riu
e o descaso de quem já viveu.

                        II

Sente uma angústia
imensa que amargura
a vida, essa vida,
um dia bela e hoje

sente um horror covarde;
um gesto simples e
tudo
será a paz do Nada.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Armando Freitas Filho












"Escritório irritante"

Não acho nada, nem o que não
procuro, nenhum livro se abre
e os que se abrem, raivosos
não prestam para o momento.

Se apertam nas estantes, se
embaralham, fora de ordem
se precipitam, suicidas
mortos, amarrotados, muitos.

Não os lerei mais, morri
com eles, minhas marcas
no pó das passadas páginas

se desbotam, os personagens
idem, a flor no papel de poema
se fecha, furada por traças.

terça-feira, 19 de abril de 2011

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Walt Whitman




















"Vi uma aranha silenciosa e paciente ..."

Vi uma aranha silenciosa e paciente
Isolada num pequeno promontório
Que, para explorar os amplos e desertos arredores,
Emitia filamentos e filamentos e filamentos de seu próprio
                 corpo,
Desenrolando-os sempre, sempre velozmente.
Também tu, ó minha alma, aí onde estás, esperas
Cercada, desgarrada, em imensuráveis oceanos de espaço,
Incessantemente divagando, especulando, procurando
                 esferas para a conexão,
Até que a ponte de que precisas se forme, que a âncora
                 maleável se encrave,
Que o fio da teia que lances a algo se entrelace, Ó minha
                 alma.

Tradução de Jorge Wanderley

domingo, 17 de abril de 2011

Fernando Pessoa, "Prece"

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá sopro, a aragem – ou desgraça ou ânsia-,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância-
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Rainer Maria Rilke, "Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?"

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso – e se me quebro?
Eu sou tua água – e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.

Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.

Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

Tradução de Paulo Plínio Abreu

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Paulo Mendes Campos












"Translúcido"
Rosas raras se alçavam puras.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.

Amo os danos do mundo, quero a chama
Do mundo, vós, paixões do mundo. E penso:
Estrangeiro não sou, pertenço à terra.

Um céu abriu as mãos sobre o meu rosto.
Barcos de prata cantam vagamente.

Pensando, desço então pelas veredas
Do mar, do mar, do mar !
Sinto-me errante.

Que faz no meu cortejo essa alegria ?
O tempo é meu jardim, o tempo abriu
Cantando suas flores insepultas.
Canta, emoção antiga, meus amores,
Canta o sentido estranho do verão,

Canta de novo para mim que fui
Vago aprendiz de mágico, abstrata
Sentinela do espaço constelado.
Conta que sempre sou, quem fui, menino.

A pantera do mar da cor de malva
Uivava sobre a vaga chamejante.
Eu sonho que vivi sempre exaltado.
Meu pensamento forte é quase um sonho.
Nos meus ombros, o pássaro final.

Íntimo, atroz, lirismo a que me oponho.
Quando a manhã subir até meus lábios
Suscitarei segredos novos.
Ah!Esta paixão de destruir-me à toa.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Vinícius de Moraes, "Poema de Natal"

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Ezra Pound



















"A água-furtada"

Vamos, lamentemos os que estão em melhor
          situação que a nossa.
Vamos meu amigo, e lembra-te:
          os ricos têm mordomos e não têm amigos.
E nós temos amigos e não temos mordomos.
Vamos, lamentemos os casados e os solteiros.

A aurora entra com pés pequenos,
          Pavlova dourada(*),
E estou perto do meu desejo.
E a vida não tem nada de melhor
Que esta hora de claro frescor,
          a hora de acordar juntos.

(*) Pavlova dourada - Referência à Anna Pavlova, bailarina russa muito conhecida na época.

Tradução de Mário Faustino

domingo, 10 de abril de 2011

Adélia Prado, "O vestido"

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça
meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas
à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo, volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem a minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Paulo Leminski, "Assim como os sorrisos ..."

Azuis como os sorrisos das crianças
e pesados como os provérbios das velhas,
anos cultivei a idéia do poema,
coisa inteira, ovo, ânsia e antena,
meus poemas são idéias
ontem, coisa inteira, hoje, apenas manchas

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Roberto Piva














"No Parque Ibirapuera"


Nos gramados regulares do parque Ibirapuera
Um anjo da Solidão pousa indeciso sobre meus ombros
A noite traz a lua cheia e teus poemas, Mário de Andrade,
                                                                                                [regam minha
            imaginação
Para além do parque teu retrato em meu quarto sorri
            para a banalidade dos móveis
Teus versos rebentam na noite como um potente batuque
            fermentado na rua Lopes Chaves
Por detrás de cada pedra
Por detrás de cada homem
Por detrás de cada sombra
O vento traz-me o teu rosto
Que novo pensamento, que sonho sai de tua fronte noturna?
É noite. E tudo é noite.
É noite nos pára-lamas dos carros
É noite nas pedras
É noite nos teus poemas, Mário!
Onde anda agora a tua voz?
Onde exercitas os músculos da tua alma, agora?
Aviões iluminados dividem a noite em dois pedaços
Eu apalpo teu livro onde as estrelas se refletem
            como numa lagoa
É impossível que não haja nenhum poema teu
            escondido e adormecido no fundo deste parque
Olho para os adolescentes que enchem o gramado
            de bicicletas e risos
Eu te imagino perguntando a eles:
            onde fica o pavilhão da Bahia?
            qual é o preço do amendoim?
            é você meu girassol?
A noite é interminável e os barcos de aluguel
        fundem-se no olhar tranqüilo dos peixes
Agora, Mário, enquanto os anjos adormecem devo
            seguir contigo de mãos dadas noite adiante
Não só o desespero estrangula nossa impaciência
Também nossos passos embebem as noite de calafrios
Não pares nunca meu querido capitão-loucura
Quero que a Paulicéia voe por cima das árvores
            suspensa em teu ritmo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Fernando Pessoa, "D. Sebastião, Rei de Portugal"

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Jorge de Lima, Poema XI do Canto Primeiro, da "Invenção de Orfeu.

Quem te fez assim soturno
quieto reino mineral,
escondido chão noturno ?

Que bico rói o teu mal ?
Quem antes dos sete dias
te argamassou em seu gral ?

Quem te apontou pra onde irias ?
Quem te confiou morte e guerra ?
Quem te deu ouro e agonias ?

Quem em teu seio de terra
infundiu a destruição ?
Quem com lavas em ti berra ?

Quem fez do céu o chão
quieto reino mineral ?
Quem te pôs tão taciturno ?

Que gênio fez por seu turno
antes do mundo nascer;
a criação do metal,
a danação do poder ?

domingo, 3 de abril de 2011

Natureza Morta: Aldo Bonadei e Pedro Alexandrino


Dos temas clássicos na pintura, acho a Natureza Morta um dos mais interessantes, porque indica uma característica da verdadeira Arte: a Arte é criada pelo Artista.

Nenhuma beleza ou atrativo especiais existem individualmente em objetos banais do cotidiano como garrafas, frutas, legumes, pratos, talheres, copos etc ... , e no entanto esses meros utensílios dispostos e representados artisticamente elevam-se à Arte.

Isso demonstra e explica que Arte é uma alegoria criada pelo verdadeiro artista em cima de coisas, fatos e episódios corriqueiros, cujo potencial artístico em estado bruto não é percebido pela maioria das pessoas.

No caso da natureza morta, onde o pintor tem total domínio da coisa retratada, a Arte já começa na arrumação do ambiente, com a disposição de toalhas, talheres e taças, buscando o equilíbrio ideal entre eles, numa condição diferente e muito mais difícil do que pintar uma paisagem, onde o seu objeto, além de ser, basicamente, coisa dada, já tem o seu encanto próprio de Natureza Viva.

É claro que o pintor também precisa ser um bom artesão para copiar sombras, reflexos, contrastes, mas não basta ser um "copista" da realidade, porque acima da realidade há a sua interpretação da vida ou do momento, que vai determinar o "clima" no quadro.

Essa interpretação da vida é "a sua representação alegórica do real", que pode ser alegre, triste, eufórica, melancólica ... Mas que só existe como Arte quando há genialidade no pintor; quando ele é um artista e está tecnicamente habilitado para transpô-la no quadro.

Não fosse assim, as fotos abaixo com os objetos físicos realmente utilizados por Pedro Alexandrino e Aldo Bonadei nas suas Naturezas Mortas seriam Arte:

Objetos de Pedro Alexandrino:















Objetos de Aldo Bonadei:


















E não as suas Naturezas Mortas:

Aldo Bonadei:


Pedro Alexandrino:



sábado, 2 de abril de 2011

Agatias Escolástico (530-592 d.C)

Sobre uma privada pública num subúrbio de Esmirna

Os manjares dos mortais, seus pratos caros e seletos
perdem todos, aqui, o atrativo que tinham.
Os peixes e faisões, os condimentos moídos em gral,
tantos quitudes numerosos e variados,
aqui se tornam excremento; o ventre expulsa
tudo quanto engoliu a goela faminta.
Por fim reconhece o homem que, em seu alvitre insensato
comprou, a peso de ouro, um punhado de pó.

Da Antologia Palatina

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Bertold Brecht











"A fumaça"

A pequena casa entre as árvores no lago.
Do telhado sobe fumaça.
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.

Tradução de Paulo César de Souza