segunda-feira, 17 de outubro de 2016
Giacomo Leopardi, "A si mesmo"
Enfim repousas sempre
Meu lasso coração. Findo é o engano
Que perpétuo julguei. Findou. Bem sinto
Que em nós dos caros erros
Mais que a esperança, o próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
palpitaste. Nenhuma coisa vale
Teus impulsos, nem digna é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e lama é o mundo.
Repousa. E desespera
A última vez. À nossa espécie o fado
Não deu mais que o morrer. Enfim despreza
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o comum dano gera
A a vacuidade sem final de tudo.
Tradução de Alexei Bueno.
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domingo, 16 de outubro de 2016
Artur Azevedo, "1º Soneto das Miniaturas da Sociedade Galante"
Adriano Gonçalves de Macedo,
Homem de cabedais e alma sem siso,
Penetrou no seu quarto com um sorriso
Às dez horas da noite, muito a medo.
Uma carta de amante — era um segredo —
Ia abri-la, e, assim, era preciso
Que a sua esposa, dama de juízo,
Não na visse nem mesmo por brinquedo!
Dona Corália Augusta Colavida
Estaria nessa hora recolhida?
Levantou a cortina, devagar...
Mas, que tragédia após esse perigo...
Viu que a esposa beijava um seu amigo,
Sobre o divã da sala de jantar.
sábado, 15 de outubro de 2016
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
Lúcio Cardoso
"O evadido"
Venho da sombra. Venho do mistério
onde transitam seres infelizes como eu.
A minha angústia nesta hora
arde como uma estrela enlouquecida
em seus amortalhados no silêncio.
Venho do nada. Na agonia das horas
sou o vulto que se encolhe sob as árvores
imóveis nos jardins batidos pela chuva.
Sou talvez na rua escura e fria,
um grito que se distancia,
até o mar gelado - e o tempo incerto.
Visão de nevoeiros cruéis se desfazendo,
o sangue de uma luz correndo vivo,
a saudade da vaga que ainda não chegou,
que vem de longe, que vem rolando
para se despedaçar na face bruta dos rochedos...
Poesia que fulgura nesta noite como um sol
rompendo a bruma da manhã que se levanta.
Sou luz dos astros que nascem dos abismos,
sou espírito, melancolia dos amantes,
venho da sombra - sinto que sou tudo
e que não sou por fim senão eu mesmo.
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
Ivo Barroso, "O filho pródigo"
Dentro da casa havia aquela morna
adulação dos olhos dos parentes
e o filho que chegava da distância
de muitos desalmados contratempos
parou na emudecida plenitude
da aceitação do gesto de quem fica
e adormeceu em seus umbrais sonhando
o sonho bom de quem não vê caminhos.
Mas na ronda de muitas outras tardes
sentiu que o teto lhe pesava aos ombros
e notou nos olhares da chegada
o já pressentimento da partida.
E voltando nos passos do que veio
já não era quem vai, mas quem retorna.
quarta-feira, 12 de outubro de 2016
terça-feira, 11 de outubro de 2016
Mario Quintana, "Tic-tac"
Esse tic-tac dos relógios
é a máquina de costura do Tempo
a fabricar mortalhas.
segunda-feira, 10 de outubro de 2016
Mário de Sá-Carneiro
"Apoteose"
Mastros quebrados, singro num mar d'Ouro
Dormindo fogo, incerto, longemente...
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só moro...
São tristezas de bronze as que inda choro -
Pilastras mortas, mármores ao Poente...
Lagearam-se-me as ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca oro...
Desci de mim. Dobrei o manto d'Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...
Findei... Horas-platina... Olor-brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquídeas pranto...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
- Ó pântanos de Mim - jardim estagnado...
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domingo, 9 de outubro de 2016
sábado, 8 de outubro de 2016
Lúcio Cardoso, "Nauta"
Do ventre da baía nasceram garras,
Verdes mãos de sargaços, em sol aberto
Ao sopro suplicante das amarras,
As velas ululantes do incerto.
Se é sangue de algas esparsas em jarras
À espera do artista, mas desperto
Ao espanto da brisa, entanto esbarras
E às trevas, então, o verso oferto.
De novo os vagalhões, as nuvens alçam
As garras se alongando tocam os astros,
E as velas desfraldadas aos mastros.
Pássaros pelo céu afora valsam
Ritornellos, uivantes véus descalçam
O sonho dos tritões, o éter dos rastros.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Lila Ripoll, "Canção do agora"
Ontem meu peito chorava.
Hoje, não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.
Estava ontem sozinha,
tendo a meu lado, sombria,
minha própria companhia.
Hoje, não.
Morreu de tanto morrer
a pena que em mim vivia.
Morreu de tanto esperar.
Eu não.
Relógios do tempo andaram
marcando o tempo em meu rosto.
A vida perdeu seu tempo.
Eu não.
Também cansa a desventura.
Também o sol gasta o chão.
quinta-feira, 6 de outubro de 2016
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Florbela Espanca, "Noite de Saudade"
A Noite vem poisando devagar
Sobre a Terra, que inunda de amargura ...
E nem sequer a bênção do luar
A quis tornar divinamente pura ...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar
A sua dor que é cheia de tortura ...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!
Por que és assim tão escura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem ...
Talvez de ti, ó Noite! ... Ou de ninguém! ...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!
terça-feira, 4 de outubro de 2016
Donizete Galvão
"Fora de linha"
para Antônio Nóbrega
Os homens obsoletos foram dispensados
como candidatos a recrutas, por excesso de contingente.
Os homens obsoletos vagam qual zumbis
em praças, parques e estações de metrô.
Os homens obsoletos alimentam-se de jornais
e engordam nos sofás diante da televisão.
Os homens obsoletos cumpriram as exigências:
faculdade, inglês e cursos de pós-graduação.
Os homens obsoletos mantiveram-se jovens
com dietas, ginástica e oficinas de auto-estima.
Os homens obsoletos tiveram bloqueados
seus crachás, suas senhas e cartões de crédito.
Os pais não querem os homens obsoletos.
— Ah, quanto dinheiro investido em sua educação!
Os amantes não querem amar os homens obsoletos
porque estes têm a pele com gosto de ferrugem.
O mercado não absorve os homens obsoletos,
pois não existe demanda para a exportação.
Não há como reciclá-los para que se encaixem
nos mutáveis programas de reengenharia.
Terapeutas recomendam aos homens obsoletos
que ocupem o tempo ocioso nos museus e galerias,
nas paróquias ou mesmo em clubes de filatelia.
Os homens obsoletos caíram em desuso
como os chapéus, as galochas e o jogo de bilboquê.
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
domingo, 2 de outubro de 2016
Eugénio de Andrade, "Nocturno de Lisboa"
Pela noite adiante, com a morte na algibeira,
cada homem procura um rio para dormir,
e com os pés na lua ou num grão de areia
enrola-se no sono que lhe quer fugir.
Cada sonho morre às mãos doutro sonho.
Dez-réis de amor foram gastos a esperar.
O céu que nos promete um anjo bêbado
é um colchão sujo num quinto andar.
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sábado, 1 de outubro de 2016
Fernando Pessoa, "É fácil trocar as palavras..."
É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
Luís Antonio Cajazeira Ramos, "Mausoléu"
Minha sala de ícones sagrados
mantém-se aberta para os visitantes.
O pó dos corpos, trajos e calçados
não toca nas redomas cintilantes.
O taumaturgo Deus reluz no centro,
para que todos vejam seu fulgor.
Em cada jarro circundante, dentro,
um venerável ídolo do amor.
Em um, meus pais, sorrindo meigo e terno.
Em outros, cada amigo acena a mão.
Num cálice especial, meu par eterno.
Num canto escuro, a poeira toma assento
junto aos cacos de um velho vaso vão,
de onde escapei, por pouco, há muito tempo.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2016
Ruy Castro, "Poesia na Spaghettilândia"
RIO DE JANEIRO - Há pouco, pela Folha, os poetas Augusto de Campos e Ferreira Gullar protagonizaram um tiroteio verbal sobre os rumos da poesia de vanguarda no Brasil. É uma briga que começou em 1954, com um almoço na Spaghettilândia, restaurante popular da Cinelândia, tendo como pivô Oswald de Andrade, de quem Gullar era entusiasta, e, Augusto, mais ou menos. Desde então, os dois nunca mais se falaram — ponha 60 anos nisto —, exceto nas escaramuças que, anos depois, dariam origem ao concretismo e ao neoconcretismo, os movimentos rivais que eles simbolizaram.
Fã de ambos, meti-me na briga sugerindo que a Spaghettilândia, de pé até hoje, afixasse uma placa em seu salão, imortalizando o fato histórico. Augusto não gostou e, numa carta, fuzilou o colunista. Bem, não apenas reforço a sugestão como vou propor à Spaghettilândia que batize seus pratos com os nomes dos principais poetas das duas correntes.
O filé de peixe, por exemplo, poderia se chamar "à Eugen Gomringer", em homenagem ao suíço-boliviano que, em 1953, antes de todo mundo, já fazia poesia concreta na Europa, só que com o nome de "constelações". Gomringer, 91 anos, vive na Alemanha e gostará de saber que alguém ainda se lembra dele por aqui.
O bacalhau à portuguesa eu dedicaria a Cassiano Ricardo, o "representante do espírito vivo de 1922", segundo os próprios concretistas. A lasanha ficaria com Edgard Braga; o caneloni, com Pedro Xisto; e o talharim, com Ronaldo Azeredo, esquecidos hoje, mas, todos, concretistas de primeira hora. E meu amigo José Lino Grünewald adoraria batizar o frango à carioca.
Para Gullar, a feijoada. Para o querido Reynaldo Jardim, o espetinho misto. E deixo a Augusto a tarefa de escolher os pratos que levarão o seu nome e os de Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Ele não gosta de ser contrariado.
Crônica publicada no jornal "Folha de São Paulo" em 24/09/2016.
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terça-feira, 27 de setembro de 2016
segunda-feira, 26 de setembro de 2016
Victor Loureiro, "Elizabeth"
Dobrar tão bem
tua carne faz do escultor
um ás
no jogo de curvas,
capaz de esculpir
teu corpo como se
calçasse a pelica
nas luvas,
comesse o pão
nas espigas,
bebesse o vinho
nas uvas.
domingo, 25 de setembro de 2016
Adriano Espínola, "Lamas - bar e restaurante"
A Horácio Dídimo
À noite,
todos os lépidos
são
larápios,
todos os otários
são
notórios,
todas as lânguidas
são
lésbicas,
todas as cópulas
são
cédulas,
todos os lúcidos
são
trágicos,
todos os bêbados
são
sábios.
sábado, 24 de setembro de 2016
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
Luís Antonio Cajazeira Ramos
"Apelação"
Dar a volta por cima que eu dei
quero ver quem dava.
Paulo Vanzolini
Melancia amarrada no pescoço,
pintei a bunda de vermelho e fui...
Embora quem me visse risse um pouco,
faltaram palma e vaia a que fiz jus.
Essa gente insensível nem me nota!
Sou como um zero à esquerda, sem valor.
Mas deixe estar, ingratidão! Não dou
bola ao azar, que o mundo dá mil voltas.
Meu sucesso fugiu por entre os dedos,
a derrota sorriu meio amarelo,
mas a vida seguiu seu rumo em frente.
Não dou ponto sem nó: depois da queda,
sacudo o pó e mando tudo à merda,
inconstitucionalissimamente.
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