sexta-feira, 8 de agosto de 2014

António Gomes Leal, "Nevrose Nocturna"


Bela! dizia eu, como um navio à vela,
Para um país polar, por um silêncio amigo.
- Bela! como uma estátua e gélida como ela.
- Bela! dizia eu, como um sepulcro antigo.   

- Bela! dizia eu, ágil como um jaguar,
Assim me inspire o Fado e Satanás me deixe!
Bela! dizia eu, fria como o luar
Sobre o dorso luzente e excepcional dum peixe.  

Bela! dizia eu, como uma mesa lauta
Para um festim pagão: a Forma, o Som, e a Cor.
Bela! dizia eu, como nocturna flauta,
Desafiando, no mar, a ladainha - Dor.  

- Bela! dizia eu, fria como o marfim.
Bela como um calado e longo cemitério,
Em que se vê vagar, como no seu jardim,
O coveiro, ao luar, vegetativo e sério.  

Bela! como um perdão ao pé do cadafalso,
Bela como o luzir do orvalho nas searas,
Nevada como um pé, curto, branco, descalço,
Fugitivo através das grandes ervas claras.  

Bela! como o sentir as espirais do gozo
Num fundo sensual de sombras perfumadas.
Bela! como os clarões de um céu calamitoso
As plantas tropicais, diretas como espadas.  

Bela ! como os portais e as torres ao abandono
Saxônias, que entreviu Ana Radcliffe.
Bela ! e solene, sim, como um tranquilo sono
De um perfil virginal, na sombra de um esquife.  

Bela! como um espelho esférico, polido,
Aonde colos nus luzem palidamente.
Bela! como o sentir a seda dum vestido
Arrastar, como arrasta a cauda da serpente.   

Bela! como o sorrir vermelho dum rainúnculo.
Bela! como uma flor aquática do Mar.
Bela! como na treva o brilho dum carbúnculo.
Bela! dizia eu, como um azul polar.   

Bela! como a expressão das notas de Méhul.
Bela! como uma flor num muro de cadeia.
Bela! como a sonhar, sobre um divã azul,
Fumando, perseguir a nebulosa Ideia.  

Bela! dizia eu, como uma Feiticeira
Da Tessália, evocando a ensanguentada lua.
Bela! como, no outono, a luminosa esteira
Azulada e sem fim duma comprida rua.   

Bela! como arrendado e flamejante altar,
Onde se vão unir os corações dos noivos.
Bela! como o silêncio algente e tumular,
Em que se escuta, ao fundo, o germinar dos goivos. 

Bela! dizia eu... Mas nisto, sobre o leito,
Em que cismava assim, voltou-se, levemente,
A invencível mulher que me inflamava o peito.
E os meus olhos no quarto erraram novamente.  

E foram se cravar num pente de metal,
E as várias coisas mil que, ao baço candeeiro,
Vinham-se reflectir sobre um espelho oval
Destacado da cor branca do travesseiro.  

E então a minha nevrose armou um largo cinto
De monstros colossais, fatídicos de ver!
À hora em que o burguês profunda o labirinto
Das mil complicações do deve e do há de haver  

Desfilava-me em torno um batalhão medonho
De monstros anormais, de escamas reluzentes,
Tomavam Som e Cor as proporções do Sonho.
Olhavam-me animais de olhos surpreendentes.  

- Bela! dizia eu, por todas as potências
Celestes, infernais, terrestres e de horror!
- Bela! concordo eu, cheia de transparências;
Mas sem um grande quid ... a crispação da Dor!  

Sim, a Dor, sem a qual a argila humana passa
Sem um rasto deixar na vasta natureza.
A Dor, gama final da música da graça.
A Dor, último tom na escala da beleza.  

A Dor, foco onde vão reencontrar-se as cores
Do vivo sol do Amor despótico e cruel.
O perfume subtil que nos completa as flores,
A voluta ideal que beija o capitel.  

Por isso eu quero ver como o seu belo rosto
Se crispa à sensação estranha do meu braço.
E quero, na tenaz sinistra do desgosto,
Fazê-la ressaltar como uma mola de aço!  

Quero vê-la quebrar essa monotonia
De linhas ideais, divinas, impassíveis;
Coagi-la a sair da gélida apatia
Que é como a estagnação das Cousas Insensíveis.  

Quero vê-la tremer, os lábios roxeados,
Fazendo exclamações eufônicas na sala;
E em várias gradações, seus olhos injectados
Terem a fulva cor quimérica da opala.  

Quero, sim! Quero ver! ... Mas nisto, rudemente,
Prostrou-me o plúmbeo sono, invicto, pesado,
E a cabeça caiu-me, ah, invencivelmente
No seu negro cabelo esplêndido e azulado.
 
 

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