domingo, 21 de abril de 2013
Augusto Frederico Schmidt, "A paz dos túmulos"
Oh! paz dos túmulos
Oh! frio das tardes invernais nos cemitérios
Oh! mármores gelados, rosas frias, Cristos de gelo, como vos espero!
Quando serei silêncio e frio apenas?
Quando serei apenas o íntimo da terra?
Quando, enfim, dormirei em paz - na álgida paz?
Oh! vento que matais as rosas, vento frio!
Quando me levareis mudado em poeira?
Quando me levareis pelas ruas,
Quando me levareis em mim mesmo mudado
Para o grande mar, o grande mar, o grande mar...
álgida - adj. Muito fria.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Augusto Frederico Schmidt, "Eu queria chorar ..."
Eu queria chorar pelos que não choram.
Eu queria chorar pelos olhos secos,
Pelos olhos que são fontes
Onde as mágoas se purificam e se libertam.
Eu queria chorar pelos corações feridos
E que sangram obscura e silenciosamente.
Eu queria chorar pelas almas mártires
Que estão invisivelmente entre nós.
Eu queria chorar pelos indiferentes
E pelos que escondem num sorriso
As decepções de uma incompreendida bondade.
Eu queria chorar pelas almas fechadas,
Pelas almas que são como os desertos
E que não conhecem a liberdade das lágrimas.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Augusto Frederico Schmidt, "Retrato"
Ele era da raça dos que suportam
Todo o peso da vida,
Era da dos que não se queixam
Dos que sorriem diante do destino adverso.
Viveu em silêncio grandes horas amargas
E ninguém conheceu as devastações,
O efeito dos golpes que lhe foram vibrados.
As sua ruínas, os seus deuses mutilados,
Os túmulos que estavam nele
Ninguém desvendou,
Tudo ficou escondido,
Tudo ficou defendido
Pela sua máscara tranquila.
No entanto ninguém amou
Mais profundamente do que ele amou,
E ninguém terá recolhido maior melancolia
E maior incompreensão
Do amor.
Ninguém desejou mais a companhia dos seus semelhantes,
Ninguém teve mais necessidade do calor amigo,
Do apoio, do aplauso, da solidariedade humana.
No entanto - sua vida se consumiu na solidão, no desamparo
                                                                                          [e na indiferença.
A amargura não fermentou sua alma,
O ressentimento não dominou jamais sua visão simples das coisas,
Ele era da raça dos heróis obscuros.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Augusto Frederico Schmidt
"Que lua embranqueceu..."
Que lua embranqueceu os teus cabelos?
Não; foram muitas luas,
Luas de muitos feitios,
Luas hoje caducas.
Não foi só esta lua.
Foram muitas, tantas!
Não esta pejada lua, apenas,
Que descendo sobre os teus cabelos
Os tormou tão brancos!
Foram inúmeras luas de quem os céus
E o mar nem mais se lembram.
Muita água de lua
Lavou os teus cabelos,
Luas de velórios, magras e curvas,
Luas de bodas enfeitadas de rendas,
Luas viajeiras, que o vento parecia levar,
Como veleiros frágeis sobre as águas.
Luas de velórios, de noites brancas,
De doenças e agonias
Envoltas em véus.
Foram muitas luas, que tornaram
Brancos os teus cabelos.
Foram as luas dos primeiros bailes,
Dos primeiros amores.
Dos primeiros encontros humildes.
Foram as luas das vigílias,
Que te ajudaram a embalar,
Que te ajudaram a fazer dormir
Os frutos alheios que amaste,
Com a douçura da tua maternidade irrealizada.
Foram muitas luas que fizeram assim
Brancos os teus cabelos.
