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domingo, 18 de junho de 2017

Helder Macedo, "Orfeu"


Não é bastante
que eu reconheça a minha solidão
e a queira como início dum caminho.
Não é bastante
ser livremente tudo quanto sei
e estar aberto a tudo o que serei.
Tudo o que fui e o que sou e o que serei
já são iguais
no tempo do meu todo ignorado.
Quero abrir o que as palavras não descrevem
para já não responder ao sim e ao não
do meu espelho conhecível.
Já não me basta apenas dar um nome
à morte que me cabe enquanto vivo
porque morrer é ter perdido a morte
para sempre
tornando sem sentido o sim e o não
com que me circundei e defini-me.
Conheço-me as fronteiras.
Quero o resto.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Helder Macedo














"A neve já não cai..."

A neve já não cai
o frio corta
e a noite se arrepia
ao anúncio da manhã subindo as casas.

Repousemos também
oh meu amor
os nosso corpos 
que sabem mais que nós.

domingo, 10 de junho de 2012

Helder Macedo, "O lamento de José"


Amei. Não fui amado. Sem paixão.
O mundo que inventaste não permite
nem que o rancor defina meu amor.
Teu corpo fecundei
inchou de mim
mas como um estupro do que te ofereci
recusaste a verdade do meu corpo
no filho que pariste
em vez do meu.
Meu destino cumpri em não ter sido.
Estou velho e só.
Que venha a morte
mas que seja minha.


(O José do poema é São José).