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sábado, 10 de junho de 2017
Glauco Mattoso, "Engaiolado"
Os pássaros povoam a visão
idílica dos bardos inspirados:
pardais e sabiás ressabiados;
o melro, o rouxinol, canoro ou não.
Algumas outras aves também são
tetéias dos poetas nestes lados:
jandaias, assuns pretos, que, furados
seus olhos, mais bonito cantarão.
Arrulhos e trinados e gorjeios
povoam os ouvidos dos poetas...
Os não sentimentais estão é cheios!
A mim, são preferíveis as discretas:
coruja, por exemplo, ou uns mais feios:
o pato e o urubu: pé chato e infectas...
terça-feira, 26 de agosto de 2014
Glauco Mattoso
"Soneto confessional"
Amar, amei. Não sei se fui amado,
pois declarei amor a quem odiara
e a quem amei jamais mostrei a cara,
de medo de me ver posto de lado.
Ainda odeio quem me tem odiado:
devolvo agora aquilo que declara.
Mas quem amei não volta, e a dor não sara.
Não sobra nem a crença no passado.
Palavra voa, escrito permanece,
garante o adágio vindo do latim.
Escrito é que nem ódio, só envelhece.
Se serve de consolo, seja assim:
Amor nunca se esquece, é que nem prece.
Tomara, pois, que ninguém reze por mim...
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Glauco Mattoso, "Revisitado"
Quem disse que o Natal é só mercado?
Por trás do panetone ou da castanha
está um publicitário, uma campanha,
o lucro, as estatísticas, o Estado.
É certo. Mas o espírito arraigado
mais dura que o presente que se ganha,
mais lembra que um peru, que uma champanha
a alguém com mais futuro que passado.
Pois ela, a criancinha, é quem segura
o tempo, em seu efêmero momento,
salvando algo de júbilo ou ternura.
Esqueça-se o comércio! Ainda tento
rever cada Natal, cada gravura
em meio a tanto adulto rabugento...
Por trás do panetone ou da castanha
está um publicitário, uma campanha,
o lucro, as estatísticas, o Estado.
É certo. Mas o espírito arraigado
mais dura que o presente que se ganha,
mais lembra que um peru, que uma champanha
a alguém com mais futuro que passado.
Pois ela, a criancinha, é quem segura
o tempo, em seu efêmero momento,
salvando algo de júbilo ou ternura.
Esqueça-se o comércio! Ainda tento
rever cada Natal, cada gravura
em meio a tanto adulto rabugento...
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