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sábado, 14 de junho de 2014

Juan Ramón Jimenez














"Criar-me e recriar-me ..."

Criar-me, recriar-me, esvaziar-me até
que o que de mim um dia, morto, vá
para a terra, não seja eu; enganar honradamente,
plenamente, com vontade firme,
o crime, e deixar-lhe este espantalho negro
do meu corpo, como sendo eu!
                                                                 E esconder-me,
a sorrir, imortal, nas margens puras
do rio eterno, árvore
- num poente imarcescível*-
da imaginação mágica e divina.


* imarcescível: adj. Que não murcha, duradouro, eterno.
Tradução de José Bento.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Juan Ramón Jimenez












"Tarde última e serena..."

Tarde última e serena,
breve como a vida,
fim de tudo que amei;
eu quero ser eterno!

- Atravessando as folhas,
o sol, já cobre, vem
ferir-me o coração.
Eu quero ser eterno!

Ó beleza que vi,
não te apagues jamais!
Pra que sejas eterna,
eu quero ser eterno!

Tradução de José Bento.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Juan Ramón Jimenez, "Com tua voz"


Quando eu estiver com as raízes
chama-me com tua voz.
Irá parecer-me que entra
a tremer a luz do sol.

Tradução de José Bento.

sábado, 19 de maio de 2012

Juan Ramón Jimenez, "Desfolhei-te ..."


Desfolhei-te, como uma rosa,
para ver tua alma,
e não a vi.
                  Mas tudo em teu redor
- horizontes de terras e de mares -,
tudo, até ao infinito,
transbordou de uma essência
imensa e viva.

Tradução de José Bento.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Juan Ramón Jimenez, "Meia-estação interior"


A tarde do meu espírito,
de súbito, acendeu-se de escarlate.
Minhas ruínas deslumbraram-se ...

- Meu sentimento era
ausente do instante, e assustado
como um pequeno pássaro
que tremesse, a sonhar, nos hirtos ramos
da tarde gélida
(já vista ao longe a lua violeta),
por trás das escassas folhas, um momento
com sol de de ouro. -

... E no frio da alma, recolhida
na penugem suave e enfunada
do coração feito nostalgia,
um momento pulsou uma distante Primavera
de ventos claros e brilhantes nuvens,
sobre as árvores irreais - não secas -
nuas.

Tradução de José Bento

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Juan Ramón Jimenez, "Como, morte, temer-te?"


Como, morte, temer-te?
Não estás aqui comigo, a trabalhar?
Não te toco em meus olhos; não me dizes
que não sabes de nada, que és vazia,
inconsciente e pacífica? Não gozas,
comigo, tudo: glória, solidão,
amor, até tuas entranhas?
Não me estás a sustentar,
morte, de pé, a vida?
Não te levo e trago, cego,
como teu guia? Não repetes
com tua boca passiva
o que quero que digas? Não suportas,
escrava, a gentileza que te obrigo?
Que verás, que dirás, aonde irás
sem mim? Não serei eu,
morte, tua morte, a quem tu, morte,
deves temer, mimar, amar?

Tradução de José Bento

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Juan Ramón Jimenez, "A lembrança"

                            1

Não te afastes, lembrança, não te afastes!
Rosto, não te desfaças, assim,
como na morte!
Continuai a olhar-me, olhos enormes, fixos,
como um instante me olhastes!
Lábios, sorri-me,
como me sorristes um instante!

                           2

Ai, fronte minha, aperta-te;
não deixes que se espalhe
sua forma fora do seu vaso!
Oprime o seu sorriso e o seu olhar,
até serem a minha vida interna!

                          3

— Embora me esqueça de mim mesmo;
embora o meu rosto, de tanto o sentir, tome
a forma do seu rosto;
embora eu seja ela
e nela se perca a minha estrutura! —

                          4

Oh lembrança, sê eu!
Tu — ela — sê lembrança inteira e única, para sempre;
lembrança que me olhe e me sorria
no nada;
lembrança, vida com minha vida,
feita eterna, apagando-me, apagando-me!

Tradução de José Bento

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Juan Ramón Jimenez








Eu não serei eu, morte,
até que te unas com a minha vida
e assim me completes todo;
até que a minha metade de luz se feche
com minha metade de sombra
- e eu seja equilíbrio eterno
no espírito do mundo:
umas vezes, meu meio eu, radiante;
outras, meu outro meio, no esquecimento, -

Eu não serei eu, morte,
até que tu, em teu labor, vistas
de ossos pálidos minha alma.

Tradução de José Bento


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Juan Ramón Jimenez, "Com as rosas"


Não, esta doce tarde
não poderei ficar;
esta tarde livre
tenho que ir na aragem.

Na aragem que ri
ao abrir das árvores,
amores aos milhares,
profunda, ondulante.

Esperam-me as rosas,
banhando sua carne.
Não ponha limites;
não quero ficar-me.

Tradução de José Bento

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Juan Ramón Jimenez, "O poema"

                        I

Não voltes a tocar-lhe,
pois assim é a rosa!

                        II

Pela raiz arranco o arbusto
cheio ainda do orvalho da alvorada.

Oh que jorro de terra
olorosa e molhada,
que chuva - que cegueira - de astros
em minha fonte, em meus olhos.

                        III

Cancão minha,
canta, antes de cantar;
dá, a quem te olhar antes de ler-te,
tua emoção e tua graça;
evola-te de ti, fresca e fragrante.


Tradução de José Bento.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Juan Ramón Jimenez, "Não roubes ..."


Não roubes
à tua pura solidão
teu ser calado e firme.
Evita o necessário
explicar-te a ti mesmo
contra quase toda gente.
Tu sozinho encherás
inteiramente o mundo.

Tradução de José Bento