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quinta-feira, 9 de agosto de 2018
Eucanaã Ferraz, "A costureira"
Ela ouve o tecido, ela pousa
o ouvido, ela ouve com os olhos.
À fibra e ao feixe interroga
sobre o que se entrelaçara,
distinguindo a linha, o intervalo,
o vão, o entreato, atenta
para o que na fala geométrica
e repetida dos fios é um outro
vazio: o de antes da trama, ato
anterior ao enredo; óculos
postos para a escuta, a escuta
desfia-se no vento, o olho
flutua, folha, flor, agulha;
fecha os olhos; ouve
com as pontas dos dedos;
indaga do tecido o modo,
os limites, a função, a oficina,
a forma que ele quer ter,
a coisa, a casa que ele quer ser;
e costura como quem à mão
e à máquina descosturasse
o dicionário, rasgando em moles
móbiles seus hábitos, o vinco
de sua farda.
sábado, 4 de agosto de 2018
Eucanaã Ferraz, "Times old Roman"
Quer que o diga, não o digo,
o teu nome já não brilha
não o digo sob as cinzas
de janeiros muito antigos
mal respira nos escombros
desse breve apartamento
o teu nome quem diria
não é coisa que se diga
som de um som que
se partira não insista
já não tento já não posso
é simples o que te digo
e te digo sem remorso
calmamente sim repito
sem espanto não o digo
nenhuma pedra se move
rio seco letra morta.
terça-feira, 31 de julho de 2018
Eucanaã Ferraz, "Naquele instante"
Amor só vem mais tarde, amar
só vem depois, amor é quando
tudo se foi, virá no próximo
trem, talvez no ano que vem
tudo será, por ora, pressentimento,
presságio, bilhete em branco do bem
gratuito para depois de gastos vultuosos
tributos de desamor e de nada.
Amarmos começa no fim? Amor
se escreve ao contrário? Roma,
porém, não abrirá palácios senão,
quem sabe, no próximo feriado.
Moroso, é após tudo pronto
o amor quando, tardiamente,
já não damos por nada ou
damos só tempo ao tempo.
domingo, 15 de julho de 2018
Eucanaã Ferraz, "Por vezes, não raro"
Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
terça-feira, 5 de junho de 2018
Eucanaã Ferraz, "Les romanciers étrangers"
Ela implorou por um beijo.
Sabia que um só beijo
e tudo estaria bem,
que outro beijo viria,
mais um, outro e tudo mais.
Sim, ela implorou chorando
que lhe desse um beijo e só.
Mas ele disse que não.
Firme e frio, disse que não.
Ele sabia, sem dúvida,
que se cedesse ao pedido
tudo estaria bem e
que outro beijo viria
e ele, decididamente,
não queria. Foi por isso
que ficou daquele modo,
firme, frio. Ela implorava,
olhos inchados, vermelhos,
estava dessa maneira
quando saíram à rua
e ele fingia que nada,
nada havia acontecido.
Mas como ele conseguia
ser assim, intransponível?
Diante dela, parecia
que se convertera em pedra,
pedra inteiramente não,
muro inteiramente muro.
Que fazemos quando alguém
que amamos se faz assim
diante de nosso desejo,
frente a nosso desespero?
Hoje os olhos estão secos.
Ela lembra. E ela entende
que tudo foi bem pior:
porque a pedra não era ele,
porque a pedra era ela mesma,
apesar de toda lágrima.
Sim, ela era a pedra dele,
em que ele a transformara.
quinta-feira, 24 de maio de 2018
Eucanaã Ferraz, "Sem poder dizer de si mesmo"
O Alentejo não tem caroço nem casca,
não tem paredes nem teto; certa vez
um velho deixou suas memórias sobre a mesa
todas queimaram, porque os fantasmas lá
não resistem à luz que se lança de altas espigas
para o pátio onde cada faísca risca e dança
entre sobreiros junhos girassóis e dura
mesmo noite adentro. Sente o cheiro
da madeira queimada? São fantasmas, nada.
O mundo é pequeno, o Alentejo é imenso
e lá estava o homem depois de todas as viagens
sem poder dizer de si mesmo algo como:
o dono e seu retorno. Afinal, onde a casa
o relógio a mulher o cachorro o nome?
O retrato da Virgem a lâmpada a cama onde?
Desdobra-se o horizonte em céus em dunas
de poeira em túnicas no vento em fios
e não há nunca filhos ou amigos ou espelho.
Que lugar a cidade a fidelidade urdindo
desfazendo e outra vez os anéis sem fim
da espera? Indaga os livros os mortos
até que as areias do mar, do mar que
parecia distante,
lentamente - não, de repente - cobrem-lhe
a voz e o tempo. O mundo
é pequeno, o Alentejo é imenso.
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
Eucanaã Ferraz, "Da vista e do visto"
Mais uma vez é maio; não o levaste contigo;
horas se escrevem hoje com o lápis de sempre,
ultramar e um tanto adolescente; não o levaste,
maio, mês do meu aniversário, quando a melancolia
é menos nítida que a linha dos morros e dos edifícios;
vento sol amendoeiras, é como te digo, não levaste
maio e mesmo os meus olhos estão aqui, comigo, algo,
porém, sei que se foi contigo; que coisa era, não sei,
e, ainda que pequena, faz falta, era minha; coincidência
ou não, procuro e não encontro a minha antiga alegria.
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
Eucanaã Ferraz, "Por vezes, não raro"
Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
domingo, 10 de setembro de 2017
Eucanaã Ferraz, "O equilibrista"
Traz consigo resguardada
certa idéia que lhe soa
clara, exata.
No entanto, hesita: que palavra
a mais bem medida e cortada
para dizê-la?
Enquanto não lhe vem o verso, a frase, a fala,
segue lacrada a caixa
no alto da cabeça.
domingo, 27 de agosto de 2017
Eucanaã Ferraz, "Dor"
Amor desfeito.
Do vento mais suave
(arrastamos nosso corpo
para fora, para a hora
de partir) o movimento mínimo
fere nosso rosto
e o silêncio semelha o dente de um ácido
sombrio sobre nosso ferimento,
ainda tão recente,
cintilante.
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
Tomás António Gonzaga e Eucanaã Ferraz
Tomás Antônio Gonzaga
Lira XVIII
Não vês aquele velho respeitável
Que à muleta encostado
Apenas mal se move, e mal se arrasta?
Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo!
O tempo arrebatado,
Que o mesmo bronze gasta.
Enrugaram-se as faces, e perderam
Seus olhos a viveza;
Voltou-se o seu cabelo em branca neve:
Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo,
Não tem uma beleza
Das belezas, que teve.
Assim também serei, minha Marília,
Daqui a poucos anos;
Que o impio tempo para todos corre.
Os dentes cairão, e os meus cabelos,
Ah! sentirei os danos,
Que evita só quem morre.
Mas sempre passarei uma velhice
Muito menos penosa.
Não trarei a muleta carregada:
Descansarei o já vergado corpo
Na tua mão piedosa,
Na tua mão nevada.
Nas frias tardes, em que negra nuvem
Os chuveiros não lance,
Irei contigo ao prado florescente:
Aqui me buscarás um sítio ameno;
Onde os membros descanse,
E o brando sol me aquente.
Apenas me sentar, então movendo
Os olhos por aquela
Vistosa parte, que ficar fronteira;
Apontando direi: "Ali falamos,
"Ali, ó minha bela,
"Te vi a vez primeira."
Verterão os meus olhos duas fontes,
Nascidas de alegria:
Farão teus olhos ternos outro tanto:
Então darei, Marília, frios beijos
Na mão formosa, e pia,
Que me limpar o pranto.
Assim irá, Marília, docemente
Meu corpo suportando
Do tempo desumano a dura guerra.
Contente morrerei, por ser Marília
Quem sentida chorando
Meus braços olhos cerra.
Eucanaã Ferraz
Aquele Velho
Assim também serei, minha Marília?
Quanto estrago não lhe fez o tempo:
fria frouxidão nos braços,
na boca. o rio reduzido a um fio,
a memória, aluvião confuso,
números, amores, nomes
de antigos presidentes da República,
uma casa, outra casa, outra, uns livros, remédios,
um filme, a praia, uma canção, outra, a mão
estendida, uma viagem. amigos,
a procura ávida por uma prateleira
onde repousar todas as vontades,
o coração, os intestinos, a pele
áspera do vazio. Deus. Quer crer.
Tão lentamente até aí e, no entanto,
é como se de repente: os olhos
já não aleiam o avesso no que veem,
tudo está feito. Ponto.
Não há refazer a marcha. Restolho,
murcha o mundo, sem hipóteses.
Lira XVIII
Não vês aquele velho respeitável
Que à muleta encostado
Apenas mal se move, e mal se arrasta?
Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo!
O tempo arrebatado,
Que o mesmo bronze gasta.
Enrugaram-se as faces, e perderam
Seus olhos a viveza;
Voltou-se o seu cabelo em branca neve:
Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo,
Não tem uma beleza
Das belezas, que teve.
Assim também serei, minha Marília,
Daqui a poucos anos;
Que o impio tempo para todos corre.
Os dentes cairão, e os meus cabelos,
Ah! sentirei os danos,
Que evita só quem morre.
Mas sempre passarei uma velhice
Muito menos penosa.
Não trarei a muleta carregada:
Descansarei o já vergado corpo
Na tua mão piedosa,
Na tua mão nevada.
Nas frias tardes, em que negra nuvem
Os chuveiros não lance,
Irei contigo ao prado florescente:
Aqui me buscarás um sítio ameno;
Onde os membros descanse,
E o brando sol me aquente.
Apenas me sentar, então movendo
Os olhos por aquela
Vistosa parte, que ficar fronteira;
Apontando direi: "Ali falamos,
"Ali, ó minha bela,
"Te vi a vez primeira."
Verterão os meus olhos duas fontes,
Nascidas de alegria:
Farão teus olhos ternos outro tanto:
Então darei, Marília, frios beijos
Na mão formosa, e pia,
Que me limpar o pranto.
Assim irá, Marília, docemente
Meu corpo suportando
Do tempo desumano a dura guerra.
Contente morrerei, por ser Marília
Quem sentida chorando
Meus braços olhos cerra.
Eucanaã Ferraz
Aquele Velho
Assim também serei, minha Marília?
Quanto estrago não lhe fez o tempo:
fria frouxidão nos braços,
na boca. o rio reduzido a um fio,
a memória, aluvião confuso,
números, amores, nomes
de antigos presidentes da República,
uma casa, outra casa, outra, uns livros, remédios,
um filme, a praia, uma canção, outra, a mão
estendida, uma viagem. amigos,
a procura ávida por uma prateleira
onde repousar todas as vontades,
o coração, os intestinos, a pele
áspera do vazio. Deus. Quer crer.
Tão lentamente até aí e, no entanto,
é como se de repente: os olhos
já não aleiam o avesso no que veem,
tudo está feito. Ponto.
Não há refazer a marcha. Restolho,
murcha o mundo, sem hipóteses.
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domingo, 6 de agosto de 2017
Eucanaã Ferraz, "De ti"
Já não recorro às fotografias
- perfil, pose, paisagem -
como o cego ao cão
que fia o caminho.
Deixei que os dias
-outro cão, todo dentes -
te devorassem
os arames nítidos do foco.
Fiquei com o que sei
de cor
- outro cão, em mim,
garra e faro -
no extremo
dos meus dedos.
domingo, 30 de julho de 2017
Eucanaã Ferraz
"Aceite"
Ninguém nos verá. Os sapatos: mudos;
os corpos; transparentes; o aeroporto
finge que não houve. Ninguém ouvirá
de nós os passos sem cadarços.
Nossos passaportes? Sem fotos. Secreta
Viagem, para onde deixaremos de nós
algo tão belo (uma sílaba, uma letra?
um?) que parecerá imprestável
diante das flores insuportavelmente
doce do Aterro do Flamengo, prontas
para o frasco. Seremos um lugar
silencioso, liso, concentrado,
sem o olor dos parques abertos
à visitação, aos corredores, às bicicletas.
Uma viagem secreta.
Diga que sim,
que sim
(a beleza injustificada dos poemas,
a alegria dos cronópios, o clarão
do gozo, o ramo muito alto do riso).
Viajarmos até onde coubermos,
até onde quisermos a vontade.
Não levaremos a dor.
Não carregaremos medo.
Diga: sim! Depois combinamos
o resto. Marcaremos a data.
Etc. etc.
etc.
quinta-feira, 25 de maio de 2017
Eucanaã Ferraz, "Por vezes, não raro..."
Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Eucanaã Ferraz
"Romântica"
Quantos de nós quereriam viver não a vida
mas o filme, quando a vida não é vida
e não se morre na morte e o que finda
não apodrece porque logo é outro set;
vida em que se passa a solvo de um dia
a outro sem que se viva a semana entre
eles; viver sob as ordens de um destino
por escrito que sabemos previamente
e o vivemos sem vivê-lo. A força dos fortes
que voam; bandos que matam sem matar;
fracos que não desistem; bravos que no fim
se vigam. Tantos de nós desejaríamos
ter vivido e ter amado amores desgraçados,
cuja beleza, tão bela, era mais bela que
a dor e a dor era mais a beleza que o doer.
Queríamos que fosse não a vida, mas
a cena e a canção crescendo no momento
certo da alegria, no instante do beijo,
no clímax. Close: quando errássemos,
bem na hora, a voz de um Deus dizendo
corta!
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Eucanaã Ferraz, "Vida e obra"
Repare, Cícero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções. vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
sábado, 21 de janeiro de 2017
Eucanaã Ferraz, "Exorbitar amontoar"
vou chamá-lo assim a nossa história: a nossa história
de amor, que, escrita em mensagens eletrizantes, plasmou-se
em relâmpagos no espelho do velho computador; acredite,
nosso amor que morreu resiste tecnicamente em disquetes
depois de quase todo apagado de nossa memória.
da sua pelos menos,
e sonâmbulo continua, mesmo perdido em montanhas
de nada e nada; viverá assim por centenas de anos;
desaparecera, portanto, muito tempo depois de nós
próprios termos desparecido,
nossa história de amor, eternizada no lixo.
quarta-feira, 6 de abril de 2016
Eucanaã Ferraz, "Saudade"
Tarde a noite,
ensaio poemas a ti.
Desisto, exausto
pelo trânsito de tantas palavras.
As flores do lençol se abrem
e o silêncio escorre como um rio.
Liberto-me da tua imagem.
Amo-te
e nada mais é preciso
para que o tempo passe.
sexta-feira, 4 de março de 2016
Eucanaã Ferraz, "Cisnir"
O verbo cisnir, intransitivo,
assinale o modo como
entre rodas e transeuntes,
no trânsito
(repentinamente transmutado em águas,
lama e restos
que se desviam num aluvião sem nexo
a fim de que o rapaz passe) o rapaz
cisne.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2015
Eucanaã Ferraz, "Cacto"
Ok. Jamais tocar teu rosto.
Aceitar que ele não seja uma
(eu direi, apesar do doce
que se derramará então
e da ridícula, antiquada, sedosa aura
que cerca tal imagem, que cega
em tal imagem, que dela se evola;
sim, eu direi agora)
aceitar que ele não seja uma: flor
(mesmo que trabalhosa,
flor de obstáculo, entre farpas,
arames, flor de cálculo).
Meus dedos, custosamente
quietos miram teu rosto
(o mais perfeito - nem belo,
nem feio - artefato): rastros,
javalis, búfalos atingidos mortalmente
em meio aos livros, às pedras,
à água que talvez gotejasse,
à musica também ela pingando
de um piano arruinado mas,
repentinamente negro, sólido
em meio aos papéis do cesto,
à brasa de uma e outra frase.
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