Mostrando postagens com marcador António Barbosa Bacelar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador António Barbosa Bacelar. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 19 de maio de 2017

António Barbosa Bacelar, "A uma ausência"


Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo, que me alenta,
O mal, que me consome, me sustenta,
O bem, que me entretém, me dá cuidado:

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado:

Choro no mesmo ponto, em que me rio,
No mor risco me anima a confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim, como em deserto.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

António Barbosa Bacelar, "Falando com o Tejo"


Águas do Tejo, que tão mansamente
Entre estas praias discorreis cansadas,
Depois de ter vencidas e rasgadas
As altas serras tão soberbamente.

Aqui correis por modo diferente,
Depois de estar já brandas e domadas,
Que as coisas soberbas começadas
Assim vem a acabar humildemente.

E por cair também neste pecado,
Vos acrescento, e vejo num momento
Castigadas a vós, e eu castigado:

Mas, ai, porque é maior meu sentimento,
Porque vós lá no mar mudais de estado,
E eu na terra não mudo de tormento.