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quarta-feira, 10 de maio de 2017

Miguel Torga, "Armadilha"


Vivo preso nas malhas dos meus sonhos
Desfeitos,
A lembrá-los.
E, quanto mais esbracejo,
Mais me enredo na trança
Da ratoeira.
É que todos eram a maneira
Airosa
De me salvar.
E nenhum consegui realizar,
Nem consigo esquecer.
Virados do avesso, são agora
Uma negra masmorra
De condenado.
Até onde não pude!
Até onde não sou!
A que alturas celestes quis subir!
A que lonjuras ir!
E não subi, nem fui, nem certamente vou.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Miguel Torga, Absolvição"


Incendeiam-me ainda os beijos que me não deste
E cegam-me os acenos que me não fizeste
Da janela irreal onde o teu vulto
Era uma alucinação dos meus sentidos.
Mas, decorrida a vida, e oculto
Nestes versos doridos,
A saber que não sabes que te amei
E cantei,
E nem mesmo imaginas quem eu sou
E como é solitária e dói a minha humanidade,
Em vez de te acusar
E me culpar,
Maldigo o arbítrio da fatalidade
Que cruelmente nos desencontrou.

domingo, 16 de abril de 2017

Miguel Torga, "Repto"


Aceito o desafio.
Que poeta se nega
A um aceno do acaso?
Tenho o prazo
Acabando,
O que vier é ganho.
Na lonjura
Da última aventura
É que a alma revela o seu tamanho.

Extremo Oriente da inquietação
Lá vou!
A quê, não sei,
Mas lá descobrirei
Que razão me levou.
Lá, onde tanto que me precederam,
Se perderam,
E aprenderam, na perdição
Que só é verdadeiro português
Quem, um dia, a negar a humana pequenez,
Se inventa e se procura
Nas brumas do mar largo e da loucura.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Miguel Torga
















"Rogo"

Não, não rezes por mim.
Nenhum deus me perdoa a humanidade
Vim sem vontade
E vou desesperado
Mas assinei a vida que vivi
Doeu-me o que sofri
Fui sempre o senhorio do meu fado.

Por isso, quero a morte que mereço.
A morte natural,
Solitária e maldita
De quem não acredita
Em nenhuma oração
De salvação
De quem sabe que nunca ressuscita.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Miguel Torga











"Natal Divino"

Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Miguel Torga, "Ditirambo"


É o amor que me inspira.
Amo a vida, esta bela prostituta.
Esta mulher tão pura e dissoluta
No mesmo instante,
Que não dá tréguas a nenhum amante.

Amo-a, e canto este gosto renovado
De uma grande paixão sobressaltada.
Dum leito de soluços e suspiros
Misturados,
Ergo a voz e celebro
Os deuses sublimados
Que, divinos, me deram
O bem humano que nunca tiveram.

sábado, 30 de abril de 2016

Miguel Torga, "Insônia"


Só tu, musa cruel!
Só tu eras capaz
De uma tortura tão desnaturada.
Do pôr do sol até de madrugada,
O poeta indefeso
A ler um verso aceso
Na lâmpada apagada.

sábado, 23 de abril de 2016

Miguel Torga, "'A Largada', 1º Poema da História Trágico-Marítima"


Foram então as ânsias e os pinhais
Transformados em frágeis caravelas
Que partiam guiadas por sinais
Duma agulha inquieta como elas...

Foram então abraços repetidos
À Pátria-Mãe-Viúva que ficava
Na areia fria aos gritos e aos gemidos
Pela morte dos filhos que beijava.

Foram então as velas enfumadas
Por um sopro viril de reacção
Às palavras cansadas
Que se ouviram no cais dessa ilusão.

Foram então as horas no convés
Do grande sonho que mandava ser
cada homem tão firme nos seus pés
Que a nau tremesse sem ninguém tremer.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Miguel Torga, "Dúvida"


O céptico sorriso da paisagem
Quando, funéreo, o sino
Avisa o mundo de que vai cerrar-se
O véu de trevas da Semana Santa!
A seiva é tanta
A borbulhar nas vinhas,
Voam com tal volúpia as andorinhas
Rente ao chão semeado,
É tão fresco, ligeiro e perfumado
O ar que se respira,
Que tem de ser mentira
O negro pesadelo anunciado.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Miguel Torga, "Tarefa"


Ergo o meu canto no areal do tempo,
Conforme com as leis da natureza.
Poeta da incerteza,
É um hino incerto
Que deixo no deserto
Onde apenas  a morte tem firmeza.

Foi outro sonho que sonhei outrora,
Antes de conhecer o duro preço
Que pagamos por cada insensatez.
Sonhei que a Eternidade
Era verdade,
E que chegara nela a minha vez.

Mas, a despeito da desilusão,
Ponho argamassa, aprumo a inspiração
E assento os versos com rigor dobrado.
É não sei que sagrada confiança
Em não sei que sagrada segurança
Do trabalho acabado.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Miguel Torga, "Alvorada"


Amanhece...
E amanhece o desespero...
Dura condenação
Da vida humana!
Angústias a oprimir o coração,
Seguidas como os dias da semana.

Mais vinte e quatro horas
De negrura,
Que o sol nem há-de ver, na sua pressa.
Em vez dum claro apelo,
O pesadelo
Dum sonho mau, que apenas recomeça.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Miguel Torga, "Mar"


Mar!
Tinhas um nome que ninguém temia:
Era um campo macio de lavrar 
Ou qualquer sugestão que apetecia...


Mar!
Tinhas um choro de quem sofre tanto
Que não pode calar-se, nem gritar,
Nem aumentar nem sufocar o pranto...


Mar!
Fomos então a ti cheios de amor!
E o fingido lameiro, a soluçar,
Afogava o arado e o lavrador!


Mar!
Enganosa sereia rouca e triste!
Foste tu quem nos veio namorar,
E foste tu depois que nos traíste!


Mar!

E quando terá fim o sofrimento!
E quando deixará de nos tentar
O teu encantamento!


domingo, 24 de janeiro de 2016

Miguel Torga

"Requiem por Mim"
Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido do corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que dele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.
Coimbra, 10 de Dezembro de 1993
Este foi o último poema publicado por Miguel Torga.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Miguel Torga, "Perfil"


Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos os meus pecados são mortais.
Todos são naturais
À minha condição,
Que quando, por exceção,
os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fome incontida
De viver,
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Miguel Torga, "Súplica"


Não digas, nunca, musa,
Por quantos versos reparti o pranto
Que chorei neste mundo.
Não contes
Os mil segredos que te confiei
nas horas do abandono.
Não reveles à vida
O amor que lhe tive
E de que foste a  única confidente.
Perdição consciente,
Que mais ninguém me veja
Nesta triste nudez de sonhador.
Que o teu silêncio seja
O meu pudor.


terça-feira, 4 de agosto de 2015

Miguel Torga, "Alvorada"


Amanhece...
E amanhece o desespero...
Dura condenação
Da vida humana!
Angústias a oprimir o coração,
Seguidas como os dias da semana.

Mais vinte e quatro horas
De negrura,
Que o sol nem-há de ver, na sua pressa,
Em vez dum claro apelo,
O pesadelo
Dum sonho mau, que apenas recomeça.



domingo, 5 de julho de 2015

Miguel Torga, "Chicote"


Arre, burro madraço!
Qual carga! Qual cansaço!
Chouta! Chouta, com forças ou sem elas.
Firme nessas canelas
Até onde o exija a própria vida.
Que fique bem cumprida
A penitência.
Que nenhuma sensata resistência
Torne mais absurda a caminhada,
Curva inútil traçada
De negrura em negrura:
O ventre e a sepultura.

domingo, 16 de novembro de 2014

Miguel Torga, "Termo de responsabilidade"


Tudo.
Menos deixar uma incerteza
No caminho.
Quem vier nesta mesma direção,
Veja as passadas dos meus pés,
E siga.
Saiba por elas que não foi traído,
Mesmo se me encontrar adormecido
De morte natural ou de fadiga.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Miguel Torga, "Bartolomeu Dias"














Eu não cheguei ao fim.
Dobrei o Cabo, mas havia em mim
Um herói sem remate.
Quando os loiros da fama me sorriam,
Aceitei o debate
Do meu destino predestinado
Com singelos destinos que teriam
Um futuro apagado,
Fosse qual fosse a glória prometida.
E sempre que uma nau enfrenta o mar e o teme,
E regressa vencida,
Sou eu que venho ao leme
Com a Índia perdida.


Em 1488, tentando descobrir o caminho marítimo para a Índia, o português Bartolomeu Dias foi o primeiro navegador europeu a cruzar o Cabo da Boa Esperança, na ponta da África, o local onde o oceano Atlântico se junta ao Pacífico. No entanto, a tripulação revoltada o obrigou a regressar à Portugal, e a sua façanha não foi reconhecida ou recompensada pela coroa portuguesa. 

Mais tarde, em 1497, acompanhou a esquadra de Vasco da Gama como capitão de um dos navios. Mas ficou em São Jorge da Mina, em Gana, e quando Vasco chegou à Índia Bartolomeu Dias não estava com ele.

Em 1500, acompanhou Pedro Álvares Cabral na viagem de descoberta do Brasil. Quando a frota de Cabral partiu do Brasil e seguiu para a Índia, o navio que Bartolomeu Dias comandava naufragou quando chegavam ao Cabo da Boa Esperança.

Bartolomeu Dias morreu sem nunca conseguir chegar à Índia.






















quinta-feira, 24 de abril de 2014

Miguel Torga


















"Desacerto"

Ternura em movimento,
vamos os dois - o sol e a sombra juntos -
O futuro e o passado no presente.
O que te digo é urgente;
O que tu me respondes não tem pressa.
A minha voz acaba na vertente
Onde a tua começa.

Apertamos as mãos enamorados.
Uma quente, outra fria...
E sorrimos às flores que no caminho
Nos olham com seus olhos perfumados.
Tu, de pura alegria;
Eu, de melancolia...
Um a cuidar, e o outro sem cuidados.

Canta um ribeiro ao lado.
Ambos o ouvimos, mas diversamente.
O que em ti é promessa de frescura
À terra da semente semeada,
Em mim é já certeza de secura
De raiz arrancada.

Almas amantes e desencontradas
na breve conjunção
Que tiveram na vida,
Levo de ti um halo de pureza.
Deixo-te a inquietação duma lembrança...
E é inútil pedir mais à natureza,
Surda ao meu desespero e à tua confiança.