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sexta-feira, 1 de junho de 2018

Vitorino Nemésio, "Outro testamento"


Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Deem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.

domingo, 26 de novembro de 2017

Vitorino Nemésio, "Céu velho"


Nasci num astro que esfriou.
A escolta de anjos em que vim, perdi-a.
Ao desprender-se a última asa fria
Meu destino de terra começou.

O salvado dos astros - gorou.
Aonde, aonde a minha origem ia?
Agora, em mim, a noite bebe o dia
Que meus altos cuidados devorou.

Se, bebendo-o, menino me tornasse
E, dando-me uma pena, ora aquecida,
Ao tal astro gelado me levasse?

Já sinto a aragem forte em minha batida
Talvez da escolta de anjos. Volto a face:
Há lá anjo nenhum na minha vida!

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Vitorino Nemésio, "Céu velho"


Nasci num astro que esfriou.
A escolta de anjos em que vim, perdi-a.
Ao desprender-se a última asa fria
Meu destino de terra começou.

O salvado dos astros - gorou.
Aonde, aonde a minha origem ia?
Agora, em mim, a noite bebe o dia
Que meus altos cuidados devorou.

Se, bebendo-o, menino me tornasse
E, dando-me uma pena, ora aquecida,
Ao tal astro gelado me levasse?

Já sinto a aragem forte em minha batida,
Talvez da escolta de anjos. Volto a face:
Há lá anjo nenhum na minha vida!

sábado, 11 de maio de 2013

Vitorino Nemésio, "Outro testamento"


Quando eu morrer deitem-me nu à cova 
Como uma libra ou uma raiz,
Deem a minha roupa a uma mulher nova 
Para o amante que a não quis. 

Façam coisas bonitas por minha alma: 
Espalhem moedas, rosas, figos. 
Dando-me terra dura e calma, 
Cortem as unhas aos meus amigos. 

Quando eu morrer mandem embora os lírios: 
Vou nu, não quero que me vejam 
Assim puro e conciso entre círios vergados. 
As rosas sim; estão acostumadas 
A bem cair no que desejam: 
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes 
Que minha Mulher me trouxe: 
Ficam para o seu cabelo de viúva, 
Ali, em vez da minha mão; 
Ali, naquela cara doce... 
Ficam para irritar a turba 
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação. 

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério, 
Acima da rampa, 
Mandem um coveiro sério 
Verificar, campa por campa 
(Mas é batendo devagarinho 
Só três pancadas em cada tampa, 
E um só coveiro seguro chega), 
Se os mortos têm licor de ausência 
(Como nas pipas de uma adega 
Se bate o tampo, a ver o vinho): 
Se os mortos têm licor de ausência 
Para bebermos de cova a cova, 
Naturalmente, como quem prova 
Da lavra da própria paciência. 

Quando eu morrer. . . 
Eu morro lá! 
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras, 
Pois quando me comovo até o osso é sonoro. 

Minha casa de sons com o morador na lua, 
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado: 
Minha morte civil será uma cena de rua; 
Palavras, terras onde moro, 
Nunca vos deixarei. 

Mas quando eu morrer, só por geometria, 
Largando a vertical, ferida do ar, 
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos; 
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar; 
Deem vinho, beijos, flores, figos a rodos, 
E levem-me - só horizonte - para o mar.