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sexta-feira, 23 de março de 2018
Dora Ferreira da Silva, "Agora, as coisas simples"
Agora, as coisas simples
antes cegas em nossos olhos.
E nada tocamos
mãos sobre as cordas mudas.
Se o som desperta é dele
o ouvido em flor. Mas corre o sangue
porque tudo é vivo sob as folhas mortas.
Sozinho se arma o acorde no piano
há surpresas na colheita deste ano, novos grãos na seara.
Sobre o braço em ângulo a fronte repousa
e o olhar reflete
uma flor.
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quinta-feira, 12 de junho de 2014
Dora Ferreira da Silva, "Partitura com lua"
Notação de pássaros
no fio da rua:
mínimas semínimas pausas.
Sobre o piano rosas estremecem.
Cadências de alma sobressaltam um público
desalento e ao relento ressoam
algumas dissonâncias (tropel de potros
presos numa sala). Mas por acaso em pura sinfonia
pássaros refazem a partitura
no heptacorde* dos fios da rua.
Ei-la tão plena do dia findo azulado —
a lua soberana e alta
a lua soberana e alta
do sono deste outono.
* heptacorde - lira antiga com sete cordas.
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segunda-feira, 2 de junho de 2014
Dora Ferreira da Silva, "Manhã e pássaros"
Voltamos ao jardim
ao banco lavado pela chuva.
Pedimos o verde ao verde
a flor à flor
sem quebrar-lhe a haste. Bastaria a manhã.
(Nossa presença
desalinha ar e folhas
num frêmito.)
Mas se nada pedimos
como quem dorme seguindo a linha natural
do corpo
respiramos o puro abandono:
um pássaro alveja o azul (sem par)
ultrapassa o muro do possível
e assim damos um ao outro
a súbita presença
do Céu.
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terça-feira, 23 de julho de 2013
Dora Ferreira da Silva
"Nascimento do poema"
É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema necessário.
É preciso que ferido de amor
entre pombos
ou nas mansas colinas
que o ódio afaga
ele venha
sob o látego da insônia
morto e preservado.
E então desperta
para o rito da forma
lúcida
tranquila;
senhor de duplo reino
coroado
de sóis e luas.
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