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quarta-feira, 20 de junho de 2018
Jorge Luis Borges, "Soneto do vinho"
Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjugação dos astros, em que secreto dia
Que o mármor não salvou, surgiu a valiosa
E singular ideia de inventar a alegria.
Com outonos dourados o criaram. O vinho
Refluiu rubro ao longo de muitas gerações;
Como o rio do tempo em seu árduo caminho
Prodigou-nos a música, seu fogo e seus leões.
Na noite jubilosa ou na jornada adversa,
Ele exalta a alegria ou nos mitiga o espanto,
E o ditirambo novo que este dia lhe canto
Lhe foi cantado outrora pelo árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver a minha história
Como se esta já fosse a cinza da memória.
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
Jorge Luis Borges
"Arte Poética"
Olhar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passamos rostos como a água.
E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.
E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.
E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
retorna como a aurora e o ocaso.
Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
de um eterno verdor, não de prodígios.
Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
Tradução de Rolando Roque da Silva
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quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Alejandra Pizarnik
"A um poema sobre a água, de Silvana Ocampo"
A Silvana e à Condessa de Trípoli
que a noite toda emana profecias
O. Paz
Teu modo de silenciar-te no poema.
Me abris como a uma flor
(sem dúvida uma flor pobre, lamentável)
que já não esperava a terrível delicadeza
da primavera. Me abris, me abro,
volto-me em água no teu poema de água
que a noite toda emana profecias.
"A un poema acerca del agua, de Silvana Ocampo"
A Silvana y la condessa de Trípoli
que emana toda la noche profecias
O. Paz
Tu modo de silenciarte en el poema.
Me abrís como a una flor
(sin duda una flor pobre, lamentable)
que ya no esperaba la terrible delicadeza
de la primavera. me abrís, me abro,
me vuelvo de agua en tu poema de agua
que emana toda la noche profecias.
Tradução amadora minha.
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sábado, 29 de abril de 2017
Alexandra Pizarnik
"Noturno de Chopin por um pianista de quatro anos"
Sua música me leva
a um penhasco com um pássaro
que brinca se ouvindo cantar.
Sua música ilumina-me na chuva
por onde vamos eu e uma jaula vazia.
Tradução amadora minha
"Nocturno de Chopin por pianista de cuatro años"
Su música me lleva
a una acantilado com um pájaro
que juega a oírse cantar.
Su música me alumbra en la lluvia
por donde vamos yo y una jaula vacía.
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segunda-feira, 3 de abril de 2017
Jorge Luis Borges
"Borges e eu"
Ao outro, a Borges, é que sucedem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e me demoro, talvez já mecanicamente, para olhar o arco de um saguão e a porta envidraçada; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agradam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o gosto do café e a prosa de Stevenson; o outro compartilha essas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atributos de um ator. Seria exagerado afirmar que nossa relação é hostil; eu vivo, deixo-me viver, para que Borges possa tramar sua literatura, e essa literatura me justifica.Nada me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, senão da linguagem ou da tradição. Quando ao mais, estou destinado a perder-me, definitivamente, e apenas algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco lhe vão cedendo tudo, se bem que me conste seu perverso costume de falsear e magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar em seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra e o tigre um tigre. Eu hei de permanecer em Borges, não em mim (se é que sou alguém), porém me reconheço menos em seus livros do que em muitos outros ou do que no laborioso zangarreio de uma guitarra. Faz anos tratei de livrar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos são agora de Borges e terei de idear outras coisas. Assim minha vida é uma fuga, e tudo eu perco, e tudo é do esquecimento, ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.
Tradução de Rolando Roque da Silva
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
Jorge Luis Borges
"Arte Poética"
Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.
E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.
E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.
E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.
Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.
Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.
Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
Tradução de Rolando Roque da Silva
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sábado, 17 de dezembro de 2016
Alejandra Pizarnik, "Poema"
Tu escolhes o lugar da ferida
onde falamos nosso silêncio.
Tu fazes da minha vida
esta cerimônia demasiado pura.
Tradução amadora minha
Poema
Tu eliges el lugar de la herida
en donde hablamos nuestro silencio.
Tu haces de mi vida
esta cerimonia demasiado pura.
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domingo, 4 de dezembro de 2016
Alejandra Pizarnik, " A carência"
Eu não sei de pássaros,
não conheço a história do fogo.
Mas creio que minha solidão deveria ter asas.
Tradução amadora minha
"La carencia"
Yo no sé de pájaros,
no conozco la historia del fuego.
Pero creo que mi soledad deberia tener alas.
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sexta-feira, 25 de novembro de 2016
Alejandra Pizarnik
"Mendiga voz"
E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta,
a cor do tempo num muro abandonado.
Num olhar meu tudo perdi.
É tão distante pedir. Tão perto saber que não há.
Tradução amadora minha
Mendiga voz
Y aún me atrevo a amar
el sonido de la luz en una hora muerta,
el color del tiempo en un muro abandonado.
En mi mirada lo he perdido todo.
Es tan lejos pedir. Tam cerca saber que no hay.
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quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Alejandra Pizarnik, "Gold in hand blues"
e o que é que vais dizer
vou dizer somente algo
e o que é que vais fazer
vou me ocultar na linguagem
e por que
tenho medo
Tradução amadora minha
y qué es lo que vas a decir
voy a decir solamente algo
y qué es lo que vas a hacer
voy ocultarme en el linguaje
y por qué
tengo miedo
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quinta-feira, 28 de julho de 2016
Jorge Luís Borges, "Posse do ontem"
Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las, e que essas perdas, agora, são o que é meu. Sei que perdi o amarelo e o preto e penso nessas impossíveis cores como não pensam os que vêem. Meu pai morreu e está sempre ao meu lado. Quando quero escandir versos de Swinburne, eu os faço, dizem-me, com sua voz. Só o que morreu é nosso, só é nosso o que perdemos. Ílion se foi, mas Ílion perdura no hexâmetro que o pranteia. Israel se foi quando era uma antiga nostalgia. Todo poema, com o tempo, é uma elegia. São nossas as mulheres que nos deixaram, não mais sujeitos à véspera, que é angústia, e aos alarmes e terrores da esperança. Não há outros paraísos senão os paraísos perdidos.
sábado, 21 de maio de 2016
Julio Cortázar, "O que eu gosto de teu corpo..."
O que eu gosto de teu corpo é o sexo.
O que eu gosto de teu sexo é a boca.
O que eu gosto de tua boca é a língua.
O que eu gosto de tua língua é a palavra.
Tradução amadora minha.
Lo que me gusta de tu cuerpo...
Lo que me gusta de tu cuerpo es el sexo.
Lo que me gusta de tu sexo es la boca.
Lo que me gusta de tu boca es la lengua.
Lo que me gusta de tu lengua es la palabra.
terça-feira, 26 de abril de 2016
Jorge Luis Borges
"nuvens (I I)"
Pelo ar andam plácidas montanhas
ou cordilheiras trágicas, sombreadas,
que escurecem o dia. São as chamadas
nuvens. As formas soem ser estranhas.
Shakespeare observou uma. Parecia
um dragão. Essa nuvem de uma tarde
em sua palavra resplandece e arde
e nós ainda a vemos, todavia.
Que são as nuvens? uma arquitetura
do acaso? Talvez sejam requisito
de Deus para a criação de Seu infinito
invento, fios de Sua trama obscura.
Talvez não seja a nuvem menos vã
que o homem que a contempla na manhã.
quarta-feira, 9 de março de 2016
Jorge Luis Borges, "Susana Soca"
Com lento amor mirava esses dispersos
Esplendores da tarde. É que aprazia
A ela se perder na melodia
Ou na existência singular dos versos.
Mas não o rubro elemental, os grises
Fiaram seu destino delicado
Feito pra discernir o exercitado
Na irresolução e nos matizes.
Não ousando pisar este perplexo
Labirinto, de fora ela mirava
As formas, o tumulto e toda a estrada
Como outra dama, essa mulher do espelho.
Deuses que moram para além do rogo
A abandonaram a esse tigre, o Fogo.
Susana Soca (1906 - 1959) foi uma poeta uruguaia que morreu num acidente de avião quando voltava para a Argentina.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Jorge Luis Borges, "de que nada se sabe"
A lua ignora que é tranquila e clara
E nem ao menos sabe que é a lua;
A areia, que é areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
Tão alheias são as peças de marfim
Ao abstrato xadrez como a mão
que os rege. Talvez o fado humano
De breves sortes e penas sem fim
Seja instrumento de Outro. Nós o ignoramos;
Dar-lhe nome de Deus não traz defesa.
Vãos também são o temor, a incerteza
E a truncada oração que iniciamos.
Que arco terá lançado esta seta
Que sou? Que cume pode ser a meta?
Tradução de Josely Vianna Baptista.
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sábado, 16 de janeiro de 2016
Jorge Luis Borges
"h.o."
Em certa rua há certa firme porta
Com a campainha e o número preciso
E um sabor de perdido paraíso,
Que nos entardeceres não está aberta
A minha passagem. Finda a jornada,
Uma esperada voz me esperaria
Na desagregação de cada dia
E no sossego da noite enamorada.
Essas coisas não são. Outra é minha sorte;
As vagas horas, a memória impura,
O exagero da literatura
E no limite a indesejada morte.
Só desejo esta pedra. Meu pedido
São duas datas abstratas e o olvido.
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Jorge Luis Borges
"A cifra"
A amizade silenciosa da lua
(citando mal Virgílio) te acompanha
desde aquela dispersa hoje no tempo
noite ou entardecer em que teus vagos
olhos a decifraram para sempre
em um jardim ou um pátio que são pó.
Para sempre? Eu sei que alguém, um dia,
irá dizer-te verdadeiramente:
"Não voltarás a ver a clara lua.
Já esgotaste a inalterável
soma de vezes que te dá o destino.
Inútil abrir todas as janelas
do mundo. É tarde. Não a encontrarás".
Vivemos descobrindo e esquecendo
esse suave hábito da noite.
Olha-a bem. Quem sabe seja a última.
Tradução de Josely Vianna Baptista,
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quinta-feira, 13 de agosto de 2015
Jorge Luis Borges, "A prova"
Do ouro lado da porta certo homem
deixa tombar sua corrupção. É inútil
elevar esta noite uma prece
a seu curioso deus, que é três, dois, um,
acreditando-se imortal. Agora
ouve a profecia de sua morte
e sabe que é um animal assentado.
Tu és, irmão, esse homem. Agradeçamos
aos vermes e o esquecimento.
Tradução de Josely Vianna Baptista
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segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Jorge Luis Borges, "O espelho"
Quando menino, eu temia que o espelho
Me mostrasse outro rosto ou uma cega
Máscara impessoal que ocultaria
Algo na certa atroz. Temi também
Que o silencioso tempo do espelho
Se desviasse do curso cotidiano
Dos horários do homem e hospedasse
Eu seu vago extremo imaginário
Seres e formas e matizes novos.
(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)
Agora temo que o espelho encerre
O verdadeiro rosto de minha alma,
Lastimada de sombras e de culpas,
O que Deus vê e talvez vejam os homens.
Tradução de Jocely Vianna Baptista
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segunda-feira, 20 de julho de 2015
Jorge Luis Borges, "A Luis de Camões"
Sem pena ou ira o tempo menoscaba
As heroicas espadas. Pobre e triste
À nostálgica pátria retornaste,
Ó capitão, para morreres nela
E com ela. No mágico deserto
A flor de Portugal fora perdida
E o áspero espanhol, antes vencido,
Ameaçava seu costado aberto.
Quero saber se aquém desta ribeira
Última compreendeste humildemente
que quando foi perdido o Ocidente
E o oriente, a têmpera e a bandeira,
Perduraria (alheio a toda humana
Mudança) em tua Eneida lusitana.
Tradução de Rolando Roque da Silva
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