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sábado, 28 de julho de 2018

Alexei Bueno, "Documentos vencidos"


As mudanças. Se abres uma gaveta
Dessas há uns vinte anos esquecidas
Só encontras cacos de diversas vidas,
Não só da tua, e como está repleta.

Há algum naufrágio tão longe da meta
Que, no entanto, nem teve? As doloridas
Faces a nos fitar, só concebidas
Para isso, não murmuram, a hora é quieta.

Exumação mais dura que a dos ossos
Tão incaracterísticos, que herança
Sublime é a nossa, escola de destroços?

E ainda há aqueles que falam da esperança
Neste lado feliz, fazendo esboços
De florzinhas e risos de criança.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Alexei Bueno, "Camões, além do desconcerto"


Camões, nessas terras duras
De cafres, mouros, gentios,
Quantos mares, quantos rios,
Quantas terríveis lonjuras
Até as faces que são tuas.

Quantos meses, ou mais que eles,
Entre uma carta e outra carta,
Mundo vão que nos aparta,
Espumas que salgam, reles,
Nossas mãos só nisso imbeles.

A essência da solidão
Caminha em Goa, nas ruas,
Ao pensar que as mesmas luas
Banham de argênteo clarão
Olhos que cá e lá estão.

Mestre, não sei se é consolo,
Todos nós marchamos sós,
Mas é em nós que a tua voz
Vibra, não no coevo tolo
Que de Olisipo é hoje o solo.

De Ceuta, de Índia ou Macau
Nunca estiveste tão perto,
Tão sobre o salso deserto,
Sobre o torpe, sobre o mau,
Sobre o inconfiável vau

Quanto agora, em nosso peito,
Nosso pai, irmão e amigo,
Finda a Sorte, ido o Perigo,
Na Santa Cidade, eleito,
Para onde vai nosso preito.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Alexei Bueno, "Diálogo"


Esse velho esquivo
Que surge no espelho,
Quem é esse velho
Feliz de estar vivo?

Que máscara é essa
da imensa traição?
Este é o mesmo chão
Da auroral promessa?

Sim, é o mesmo solo
Onde engatinhava
Nossa forma escrava
Se não ia ao colo.

E esse velho é o espanto
Que o espelho produz
Quando pousa a luz
No rosto em que o pranto

Há muito está extinto.
Velho, me responde,
Nesta hora sem onde,
Se mentes, se eu minto?


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Alexei Bueno, "Trajeto"


Quantas ruas, travessas, avenidas,
De início a abrir-se em leque à nossa frente?
Depois já são bem menos. Finalmente
Umas poucas. Então, de certa feita,
Resta uma só das tantas prometidas,
Um beco, uma viela, unicamente,
                 E como é estreita.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Alexei Bueno, "Enigma"


Certo mistério existe, indesvendado,
Escrito há eras sem conta, sobre os céus,
Por uma mão, talvez a mão de Deus,
Ressoando no criado e no incriado.

Para entendê-lo, deste e do outro lado
De tudo, angustiados como réus,
Demônios e anjos chocam-se nos seus
Vórtices, sem nenhum outro cuidado.

À volta dele os seres e as esferas
Inutilmente orbitam pelas eras
Na ânsia de desvelar a eles imposta.

Revolvem-se em legiões desamparadas,
Enquanto aqui, na noite, entre as calçadas,
És, e somente tu, sua resposta.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Alexei Bueno, "O mago"


Eu amo os bosques e as ruínas e os conventos
E toda parte onde o mistério nos destrua,
Pois nada vale ir decifrar com gestos lentos
A mão sem causa que fez tudo e a tudo estua.

Era impossível que algo houvesse, e tais tormentos
Vêm de ainda assim este algo haver, enquanto a lua
Que por verdade não nascera assopra os ventos
Aos nossos olhos também falsos desta rua.

Oh! alamedas, catedrais, sombras pendentes,
Por ser sem fruto ainda buscar nos entregamos
De uma só vez a este mistério que encarnamos,

Numa volúpia de esquecer, da noite ausentes,
Como o mendigo que sem forças para a sorte
Se entrega inteiro à sua garrafa e à sua morte!

quarta-feira, 26 de abril de 2017

José Asunción Silva, "A um pessimista"


Há sombra demasiada nas visões
Que tens, algo de plácido há na vida,
nem tudo na existência é uma ferida
Da qual o sangue jorra aos borbotões.

A luta tem descanso, e ainda as paixões
Agonizantes, e a afeição perdida,
Tudo que amamos e que o tempo olvida
E nos cobre de rudes decepções.

Mas, por que duvidar, se nos reservam
No futuro remoto e em tudo obscuro
Fundas calmas e vividas bonanças

A ternura profunda, o beijo puro,
E femininas mãos que a amar preservam
Os berços cor-de-rosa das crianças.

Tradução de Alexei Bueno

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Alexei Bueno, "Esses herdarão"


O vento e as ervas que não sonhem nunca,
Que há anos se encontram, mas não se conhecem;
O vento e as ervas que jamais se esquecem
Pois nem se recordam do que o chão se junca*;

O vento e as ervas que há um milênio tecem
Em se enfrentando uma imutável voz
Sem nunca ouvi-la, e que dão medo aos pós
Com gestos vãos que nem lhes obedecem,

A eles pertence a glória e o reino eterno
Pois não são nada, e nada dói ao nada,
Nem vão longe as maldições do inferno.

Rindo entre os gritos,se enforcando ao chão
Como bufões cuja alma foi roubada...
O vento e as ervas permanecerão.



*Junca - (v.t.) - cobrir, espalhar ou se alastrar pelo chão.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Alexei Bueno, "IIº poema das 'Três Visões Horizontais do Destino'"


A terra enxerga por viseiras destruídas
E rijos ferros dormem fundo após a guerra
Dentro de homens que se esquecem das partidas
Como o silêncio em cada boca que não berra.

Escudos, lanças, armaduras divididas
E uma espada em pé cravada sobre a terra
Lembrando cruz após a indulgência das feridas
Que já não doem numa carne que se encerra.

Antes da luta cada um lá estava certo
Que viveria após ter tudo se acabado,
Mas já ninguém se desilude no deserto.

E nem há dor para quem não vê como a hora falha
E como é o corpo conduzido ao golpe errado
Pelo destino que se rompe igual à malha.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Alexei Bueno, "La mort des pauvres"


É muito ruim morrer tendo dinheiro,
Podendo, salvo, ir rápido a Paris.
Almoçar no Vefour, beber inteiro
Um lote de Bordeaux. Flanar, feliz,

No cais. Comprar um Dürer verdadeiro,
Uns bronzes do Ceilão, a flor-de-lis
De ouro real sobre um códice em carneiro,
Uns vasos gregos, e aí tomar pastis*...

Bom é morrer falido, endividado,
Cortados gás e luz, o nome imundo
Na praca, todo o crédito negado.

E, num nicho que alugue algum parente,
Mors omnia solvit**, no mais vagabundo
Caixão ser sepultado inadimplente.


* Pastis é o nome dado às bebidas alcoólicas aromatizadas com anis.

**mors omnia solvit  é uma locução latina que diz "a morte resolve tudo".
No Direito Penal, é usada  com o sentido de "a morte do agente extingue a sua punibilidade".

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Alexei Bueno, "Abatedouro de cavalos"


Ei-los, servos do Sol e dos heróis,
Pendurados do teto entre os patifes
Balançam - como peixes dos anzóis -
De ganchos, onde aguardam virar bifes.

Das crinas, já ondeadas pelo vento,
Pinga sangue, e da língua. Sobre os joelhos
Decepam-lhe as patas. Grosso e lento,
O pelo se incha de borrões vermelhos.

Os épicos, os régios, os hieráticos
Animais, degolados, logo em latas
caberão. Sós, num canto, alvos estáticos,
Seus olhos fixam campos e cascatas.

Ser]ap patês, almôndegas, conservas...
Seus fantasmas, que os médiuns não conhecem,
Relincharão furiosos sobre as ervas,
Junto a sombras que os sonhos nunca esquecem.


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Alexei Bueno, "Bagatelas"


Homem que mija no muro.
Inútil visão gravada
Na mente, com que futuro?

Vidraça a pedras quebrada.
Que fazer com tudo isto?
Pombo morto na calçada.

Por que guardo, por que insisto?
Estranha cauda, a memória,
Varrendo o piso imprevisto.

Basta, basta. A insossa história
Não subirá a alta escada.
Nudez, serás minha glória

No átrio apinhado do nada.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Alexei Bueno,













"Na porta do colégio"

Semipúberes meninas,
Como os meus olhos maduros
Fervem de sonhos obscuros
Convosco em minhas retinas.

Voltasses hoje aos quinze anos,
meu corpo, ambicioso fausto,
Sorvendo a vida num hausto
Mas sábio em quaisquer arcanos...

Ora a fugir disso tudo,
Ora a tudo isso agarrar-se
Que é, alma, face ou disfarce?
Metrônomo em piano mudo?

Não sabes. mas com que enleios
Fitas os lábios, as coxas,
precoces olheiras roxas,
Curvas gritantes dos seios.

E duro afastar-te, vida,
A que tal nome merece,
Rubor de um sol quando desce
Mas sem manhã prometida.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Giacomo Leopardi, "A si mesmo"


Enfim repousas sempre
Meu lasso coração. Findo é o engano
Que perpétuo julguei. Findou. Bem sinto
Que em nós dos caros erros
Mais que a esperança, o próprio anelo é extinto.
Repousa sempre. Muito
palpitaste. Nenhuma coisa vale
Teus impulsos, nem digna é de suspiros
A terra. Nojo e tédio
É a vida, nada mais, e lama é o mundo.
Repousa. E desespera
A última vez. À nossa espécie o fado
Não deu mais que o morrer. Enfim despreza
A natureza, o rudo
Poder que, oculto, o comum dano gera
A a vacuidade sem final de tudo.

Tradução de Alexei Bueno.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Alexei Bueno














"Sapiência"

Os móveis, as cartas,
A roupa engomada,
As estantes fartas,
Não arrumes nada.

As obras de arte,
A imagem fanada,
Tudo, tudo parte.
Não arrumes nada.

Como nos obriga
A ordeira morada,
Quanta dor mitiga.
Não arrumes nada.

Vais e tudo fica
Um mundo, uma estrada.
Quem o identifica?
Não arrumes nada.

Que pó, fungo, insetos,
Musgo e água parada
Tratem teus objetos.
Não arrumes nada.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Alexei Bueno, "Limite"


Onde acaba o dizível,
Onde as palavras falham
Ouve-se o mar terrível.

Barcos cheios que encalham,
Elas, com o surdo impulso
Das ondas se estraçalham.

E, além, além, convulso,
Retorce-se o horizonte,
Ondeante como um pulso.

Mas não há quem o afronte,
Se um o intenta, o mar vence-o...
Para além, fim e fonte.

Tudo menos o silêncio.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Alexei Bueno, "Rondó"


Selva de corpos, xadrez de ruas,
Casas, auroras, mulheres nuas,
Mais tudo que sofras ou fruas,
          Ao fim, o que
          Dizem? Por quê?

Ou para quê? Para que o empório
Da vida, o espólio contraditório,
Pernas, velórios, taças, casório,
          Para quê, se
          Só há aí por quê?

E ao fim, enfim, no assim do crepúsculo,
O estupefato tempo minúsculo
Que resta ao rubro e cansado músculo
          De bater, e
          Soar: por quê?

Tudo, que é tanto, nele, o segundo
Final, é nada. Só, bem no fundo
De si, sem lastro, é que explode o mundo,
         E, ainda, então, lê
         Ígneo, por quê?

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Alexei Bueno











"A hora"

Quando as palavras detêm-se,
Hirtas, perante a visão,
E se entreolham em vão,
Ínscias do que lhes pertence,

Quando a vida é muito vasta
Para o seu ordeiro lar,
Canoa em pleno alto mar,
Florinha que a enchente arrasta,

Ela ergue a chave, a poesia,
E adentra. Ela que é, não diz.
Que é o palco, a platéia e a atriz,
A hora nem noite nem dia.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Alexei Bueno, "Fim"


Eis que o elefante morreu. Na aurora
Viram-no quieto, a língua de fora.

O circo agora parou na estrada.
Sem o elefante não somos nada!

Os astros choram. A lona inerme
Recobre o corpo do paquiderme.

Não se acha um outro. Nada mais resta
Para as cidades que esperam festa.

Não há saída. Não há futuro.
Ei-lo na estrada, espantoso e duro.

Na noite um bando que já não dorme
Está cavando um enorme buraco.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Alexei Bueno, "Glória"


Bêbado, às duas da manhã,
Parei na loja de ovos e aves.
Subi na grade e, em grande afã,
Cacarejei, de ecoar nas traves.

Os galos todos acordaram
Cheios de brio e, num só coro,
Com seu cacarejo enfrentaram
O meu, mais forte, mais sonoro.

Saltavam todas as galinhas.
Penas voavam loja afora.
Ligavam luzes nas vizinhas
Casas. Parti. Criara a aurora.