terça-feira, 18 de julho de 2017
Jorge de Lima, "Soneto IV do Canto IV (As aparições) da Invenção de Orfeu"
Era um cavalo todo feito em lavas
recoberto de brasas e de espinhos.
Pelas tardes amenas ele vinha
e lia o mesmo livro que eu folheava.
Depois lambia a página, e apagava
a memória dos versos mais doridos;
então a escuridão cobria o livro,
e o cavalo de fogo se encantava.
Bem se sabia que ele ainda ardia
na salsugem* do livro subsistido
e transformado em vagas sublevadas.
Bem se sabia: o livro que ele lia
era a loucura do homem agoniado
em que o incubo cavalo se nutria.
*Salsugem - Lodo que contém substâncias salinas.
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
Jorge de Lima, "Canto 1, A Fundação da Ilha, da Invenção de Orfeu"
Tu queres ilha: despe-te das coisas,
das excrecências, tira de teus olhos
as vidraças e os véus, sapatos de
teus pés, e roupas, calos, botões e
também as faces que se colam à
tua, e os braços alheios que te abraçam
e os pés que querem ir por ti, e as moças
que querem te esposar, e os ais (não ouças!)
que querem te carpir, e os campos que
querem te consolar, e os tantos guias
que querem te perder, e as ventanias
que não dormem, que batem alta noite,
tristes, em tua porta, se ressonas
pois nem o vento, nada te abandona.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Jorge de Lima, "Paixão e Arte"
Ter Arte é ter Paixão. Não há Paixão sem verso...
O Verso é a Arte do Verbo — o ritmo do som...
Existe em toda a parte, ao léu da Vida, asperso
E a Música o modula em gradações de tom...
Blasfemador, ardente, amoroso ou perverso
Quando a Paixão que o gera é Marília ou Manon...
Mas é sempre a Paixão que o faz vibrar diverso:
Se o inspira o Ódio é mau, se o gera o Amor é bom...
Diz a História Sagrada e a Tradição nos fala
Dum amor inocente, (o mais alto destino):
A Paixão de Jesus, o perdão a Madala.
Homem, faze do Verso o teu culto pagão
E canta a tua Dor e talha o alexandrino
A quem te acostumou a ter Arte e Paixão.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
Jorge de Lima, "Agora os girassóis entardecidos ..."
Agora os girassóis entardecidos,
e esse lírio e essa rosa tão exangue
e essa mancha de símbolos sombrios
quase como um desmaio ou leve sangue.
Sobre os bosques caiu a tarde cinza
e a estrela temporária se augurou;
pendem das hastes cálices noviços,
e a cansada corola se esboroou.
E os cílios baixam gotejando chuvas
sobre os vidros das horas enterradas
com os momentos dos crimes e virtudes.
Algum arroio corre com essas lágrimas
mas tão ligeiro pela escarpa aguda
que os olhos de quem vê nunca vêem nada.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Jorge de Lima, "Essa pavana ..."
Essa pavana é para uma defunta
infanta, bem-amada, ungida e santa,
e que foi encerrada num profundo
sepulcro recoberto pelos ramos
de salgueiros silvestres para nunca
ser retirada desse leito estranho
em que repousa ouvindo essa pavana
recomeçada sempre sem descanso,
sem consolo, através dos desenganos,
dos reveses e obstáculos da vida,
das ventanias que se insurgem contra
a chama inapagada, a eterna chama
que anima esta defunta infanta ungida
e bem-amada e para sempre santa.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Jorge de Lima, "A noite desabou sobre o cais"
A noite desabou sobre o cais
pesada, cor de carvão.
Rangem guindastes na escuridão.
Para onde vão essas naus ?
Talvez para as Índias.
Para onde vão.
Capitão-mor, capitão-mor,
quereis me dizer onde é que fica
a ilha de São Brandão ?
A noite desabou sobre o cais
pesada, cor de carvão.
Rangem guindastes na escuridão.
Donde é que vêm essas naus ?
Serão caravelas ? Serão negreiros ?
São caravelas e negreiros.
Há sujos marujos na caravelas.
Há estrangeiros que ficaram negros
de trabalharem no carvão.
Homens da estiva trabalham, trabalham,
sobem e descem nos porões,
Para onde vão essas naus ?
Saltam emigrantes embuçados,
mulheres, crianças na escuridão.
De onde vêm essa gente ?
Não há mais terras de Santa Cruz gente valente !
Ó indesejáveis qual país,
qual o país que desejais ?
Como é o nome dessas naus
que não se lê na escuridão ?
Vão descobrir o Preste João ?
Na minha geografia existe apenas
perdido no mar o cabo Não.
A noite desabou sobre o cais
pesada, cor de carvão.
Essas naus vão para o Congo ?
Castelo de Sagres ficou aonde ?
Capitão-mor onde é o Congo ?
Será no leste, no mar tenebroso ?
Capitão-mor perdi-me no mar.
Onde é que fica a minha ilha ?
Para onde vão os degredados,
os que vão trabalhar desntro da noite,
ouvindo ranger esses guindastes ?
Capitão-mor que noite escura
desabou sobre o cais,
desabou nesse caos.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Jorge de Lima, "Não procureis nexo naquilo ..."
Não procureis nexo naquilo
que os poetas pronunciam acordados,
pois eles vivem no âmbito intranquilo
em que se agitam seres ignorados.
No meio de desertos habitados
só eles é que entendem o sigilo
dos que no mundo vivem sem asilo
parecendo com eles renegados.
Eles possuem, porém, milhões de antenas
distribuídas por todos os seus poros
aonde aportam do mundo suas penas.
São os que gritam quando tudo se cala,
são os que vibram de si estranhos coros
para a fala de deus que é sua fala.
domingo, 18 de setembro de 2011
Jorge de Lima, "Qualquer poema"
e tirânico. Ó irmãos, banhistas, brisas,
algas e peixes lívidos sem dentes,
veleiros mortos, coisas imprecisas,
coisas neutras de aspecto suficiente
a evocar afogados, Lúcias, Isas,
Celidônias... Parai sombras e gentes!
Que este poema é poema sem balizas.
Mas que venham de vós perplexidades
entre as noites e os dias, entre as vagas
e as pedras, entre o sonho e a verdade, entre...
Qualquer poema é talvez essas metades:
essas indecisões das coisas vagas
que isso tudo lhe nutre sangue e ventre.
domingo, 4 de setembro de 2011
Jorge de Lima, "Cantigas"
As cantigas lavam a roupa das lavadeiras.
As cantigas são tão bonitas, que as lavadeiras
ficam tão tristes, tão pensativas!
As cantigas tangem os bois dos boiadeiros!
Os bois são morosos, a carga é tão grande!
O caminho é tão comprido que não tem fim.
As cantigas são leves...
E as cantigas levam os bois, batem a roupa
das lavadeiras.
As almas negras pesam tanto, são
tão sujas como a roupa, tão pesadas
como os bois...
As cantigas são tão boas...
Lavam as almas dos pecadores!
Levam as almas dos pecadores!
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Jorge de Lima,"Poema VI do Canto VI - Canto da Desaparição - da Invenção do Orfeu.
Nem as boninas e outras flores nem
a mais humilde relva, nem os ventos,
nada participava da quietude
absoluta, absoluta, eternamente
absoluta daquela pedra de
tumba, compacta, lisa, desprezada.
Nem ninguém se lembrava da criatura
e de seus sofrimentos e de sua
atormentada vida ali deixada.
Nem tristeza talvez nem alegria,
não mais perpassam sobre a sua face
Parada, indiferente mesmo à morte
que ela encerrou em treva, e esquecimento,
e o próprio esquecimento abandonou.
domingo, 7 de agosto de 2011
Jorge de Lima, "Poema XVIII, do Canto V, da Invenção de Orfeu".
Poema tão amargo que parece
ser apenas palavras despenhadas
sobre cactos e espinhos semeadas
onde uma liana turva se entretece.
Ó vagos olhos cuja luz parece
um segredo de trevo não amado.
Pelos climas da luz expira um fado
roto e ferido como extrema prece.
Quem morre aceso na tartárea chama ?
Que é que há pouco em cinza se carpia
e do passado vem agora, e clama ?
Que coisa é que anoitece nesse dia ?
Que poeta morimbundo a essa vil cama
tombou despedaçado de onde se ia ?
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Jorge de Lima, Poema XII do Canto VII - Audição de Orfeu, da INVENÇÃO DE ORFEU.
Com todo o amoroso ódio e a angústia mansa
há na face um desânimo latente;
qualquer coisa exaurida na distância
para dar à paixão outra vertente.
Entristeço-me ao ruído persistente
do tempo para trás como a memória,
permaneço ora ileso ora ilusório.
Que segredo tão árduo eu esse doente.
E entre temeridades e temores
dou às coisas irreais nova constância
sob o peso dos seres meus e vossos.
Pois de todos os grandes desatinos
que possuem densidades diferentes,
diante de muitos sou sózinho e ossos.
sábado, 2 de julho de 2011
Jorge de Lima, Poema XIII do Canto VII- Audição de Orfeu, da INVENÇÃO DE ORFEU.
E esse velho e atroz poema?
Quem acaso o arquitetou?
Que mão sem braço o escreveu?
Que Leonora o mereceu?
Que mulheres vivem nele?
Que loucura o escureceu?
Ó tecido de memórias
recuadas de meu tempo
que a eternidade comeu!
Ó noites claviculares,
epopéia sem guerreiro,
humana sobrevivência
das lembranças recalcadas,
cem avós en cada cântico
prévio nunca amanhecido.
Deixai-me nele.
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Jorge de Lima, Poema IX do Canto VI (Canto de Desaparição), da Invenção de Orfeu.
Um momento há na vida, de hora nula,
em que o poema vê tudo, viu, verá;
e a si mesmo, na cera em que se anula,
sob o fogo dos céus, consumir-se-á.
Há nas fomes dos tempos, uma gula,
uma vicissitudes, fados, ah!
Há tempos em que o canto se modula
sob sibilo de cassandra má.
Vejo morrer, ó céus, em dura lei,
meus membros, minhas vísceras, meus ossos
sob as rosas de lava que inventei.
Antes que os lábios, amanhá, ó poema,
hirtos se calem, vossos, serão vossos,
esses cantos de renunciação.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Jorge de Lima, Poema VIII, do Canto V, da "Invenção de Orfeu"
Estão aqui as pobres coisas: cestas
esfiapadas, botas carcomidas, bilhas
arrebentadas, abas corroídas,
com seus olhos virados para os que
as deixaram sózinhas, desprezadas,
esquecidas com outras coisas, sejam:
búzios, conchas, madeiras de naufrágio,
penas de ave e penas de caneta,
e as outras pobres coisas, pobres sons,
coitos findos, engulhos, dramas tristes,
repetidos, monótonos, exaustos,
visitados tão só pelo abandono,
tão só pela fadiga em que essas ditas
coisas goradas e orfãs se desgastam.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Jorge de Lima, Poema XI do Canto Primeiro, da "Invenção de Orfeu.
Quem te fez assim soturno
quieto reino mineral,
escondido chão noturno ?
Que bico rói o teu mal ?
Quem antes dos sete dias
te argamassou em seu gral ?
Quem te apontou pra onde irias ?
Quem te confiou morte e guerra ?
Quem te deu ouro e agonias ?
Quem em teu seio de terra
infundiu a destruição ?
Quem com lavas em ti berra ?
Quem fez do céu o chão
quieto reino mineral ?
Quem te pôs tão taciturno ?
Que gênio fez por seu turno
antes do mundo nascer;
a criação do metal,
a danação do poder ?
quarta-feira, 30 de março de 2011
Jorge de Lima
"Introdução ao Canto Primeiro - Fundação da Ilha, da Invenção de Orfeu"
I
Um barão assinalado
sem brasão, sem gume e fama
cumpre apenas o seu fado:
amar, louvar sua dama,
dia e noite navegar,
que é de aquém e de além-mar
a ilha que busca e amor que ama.
Nobre apenas de memórias,
vai lembrando de seus dias,
dias que são as histórias,
histórias que são porfias
de passados e futuros,
naufrágios e outros apuros,
descobertas e alegrias.
Alegrias descobertas
ou mesmo achadas, lá vão
a todas as naus alertas
de vária mastreação,
mastros que apóiam caminhos
a países de outros vinhos.
Está é a ébria embarcação.
Barão ébrio, mas barão,
de manchas condecorado;
entre o mar, o céu e o chão
fala sem ser escutado
a peixes, homens e aves,
bocas e bicos, com chaves,
e ele sem chaves na mão.
Raramente comento o que posto aqui, pois não tenho conhecimento profundo e sistematizado de literatura ou arte plástica. Só o faço quando acho que posso acrescentar algo de novo ou importante sobre os poemas e imagens.
Se estão aqui é porque eu gosto, porque eu admiro. E só.
Mas, não posso deixar de acrescentar a imensa impressão que está me causando a descoberta de Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima.
